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Livro criado por alunos baianos reserva histórias de Mairi

Experiência mostra como o território e as memórias locais podem virar pauta no CCJJ 2026

Loren Beatriz Sousa
Por
Estudantes do Colégio Estadual de Tempo Integral Abelardo Moreira
Estudantes do Colégio Estadual de Tempo Integral Abelardo Moreira - Foto: Arquivo pessoal

Estudantes do Colégio Estadual de Tempo Integral Abelardo Moreira, localizado no município de Mairi, no centro-norte da Bahia, transformaram memórias, lendas e histórias contadas por idosos da comunidade em um livro que agora inspira novas produções artísticas e literárias dentro da escola.

A obra “O que contam os griôs, Monte de Mairi, Causos, Lendas, Assombrações e Relatos de Fé” nasceu a partir de uma proposta pedagógica liderada pela professora de linguagens Miriam Gomes e envolveu cerca de 300 estudantes do 3º ano do Ensino Médio. O projeto reúne relatos de moradores mais velhos - conhecidos como griôs - além de ilustrações feitas pelos próprios alunos.

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A produção começou de forma espontânea durante uma conversa com os estudantes e a professora Miriam no pergolado da escola - espaço que possui vista para o Monte de Mairi.

“A cidade tem um monte místico, religioso, de experimentos científicos. Engloba ciência, religião e ceticismo. Neste monte, há uma capela [Capela do Monte de Santa Cruz] onde é possível encontrar objetos sagrados de diversas religiões. Este é um lugar privilegiado porque foi um dos lugares da Bahia que recebeu escravizados”, contou a professora.

A partir dali, os estudantes começaram a investigar quantas pessoas conheciam essas histórias e perceberam que muitos alunos já tinham ouvido relatos de familiares e idosos da comunidade.

Entre os relatos catalogados estão histórias de lobisomem, mulher de branco, vaqueiros encantados, serpentes místicas e assombrações ligadas à quaresma. “Reza a lenda que há uma cobra, uma espécie de defensora do monte, que não permite que esse monte seja furado para poços artesianos porque, embaixo desse monte, reza outra lenda que tem uma espécie de aquífero que, se furado, alaga toda a cidade”, destacou Miriam.

Para construir o livro, os alunos entrevistaram os griôs e todas as histórias foram gravadas, transcritas e organizadas. O ex-estudante Gabriel Oliveira de Jesus, de 18 anos, atualmente oficineiro de teatro no colégio, contou que o processo fortaleceu sua relação com a cultura nordestina e despertou o desejo de seguir escrevendo.

“Eu falo que sou um amante nordestino, um amante da minha cultura. Sou mairiense mesmo, nascido e criado na minha terra. E isso fez com que eu me aproximasse mais da cultura e da história, conhecendo mais um pouco sobre a região. E, para mim como aluno, cara, isso foi maravilhoso. Isso também me estimulou como escritor. Não é à toa que planejo, este ano, lançar o meu livro na feira literária, seja aqui na minha cidade ou na minha escola, o que é muito gratificante”, disse.

Além da escrita, os estudantes também participaram da ilustração e da produção editorial do livro, com apoio de professores como Hanna Pessoa. De acordo com Miriam, a experiência reforçou a importância de reconhecer talentos artísticos dentro da escola pública.

“Nós professores, precisamos ter o olhar atento, delicado, aprimorado para valorizar o trabalho e valorizar características positivas e de qualidades que os nossos estudantes já têm. Fomos à caça dos estudantes que ilustravam na escola, que faziam desenhos. Eles leram os livros e fizeram desenhos sobre essas histórias. A capa do livro foi feita por um estudante”, detalhou.

Livro inspira espetáculo teatral

Artes que compõem o livro
Artes que compõem o livro - Foto: Arquivo pessoal

A experiência também abriu caminhos para outras linguagens artísticas dentro da escola. Segundo Gabriel, o grupo de teatro do colégio prepara uma adaptação das histórias do livro para os palcos.

“Muitos desses griôs não têm contato com a leitura. Eles não podem ler essas histórias, mas que tal eles ouvirem as próprias histórias, ou simplesmente ver essas histórias de forma literal, de forma onde a peça de teatro entre na vida deles? E é bom que a gente enriquece a cultura de uma forma maior”, disse.

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De acordo com Miriam, o livro, que preserva marcas da oralidade dos narradores, trouxe a comunidade para dentro da escola. “Eles se sentiram pertencentes à comunidade escolar, as avós começaram a estudar para ler as histórias que eles contaram”.

O livro “O que contam os griôs, Monte de Mairi, Causos, Lendas, Assombrações e Relatos de Fé” também será tema da FLIMA [Festa Literária de Mairi] prevista para acontecer ainda em 2026.

Como participar do CCJJ 2026

Concurso Cultural Jovem Jornalista 2026
Concurso Cultural Jovem Jornalista 2026 - Foto: Arte: A TARDE Educação

O exemplo dos estudantes de Mairi dialoga com a proposta do Concurso Cultural Jovem Jornalista (CCJJ) 2026 - “De onde eu venho, escrevo: histórias e leituras do meu lugar no mundo” - iniciativa do Programa A TARDE Educação, do Grupo A TARDE, que convida estudantes da Bahia a produzirem narrativas inspiradas em seus territórios e experiências. As inscrições seguem abertas até 10 de agosto de 2026.

Este ano, podem participar estudantes do Ensino Fundamental I e II, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA) das redes estadual e municipais parceiras do A TARDE Educação. No caso da rede municipal, é recomendado consultar a Secretaria de Educação para confirmar a participação da unidade.

As categorias incluem: tirinhas, videorreportagem, artigo de opinião e crônica.

CCJJ estimula o reconhecimento da identidade local

Para o historiador Italo Oliveira, o tema tem potencial para provocar um novo olhar sobre os próprios territórios e experiências. “Quando o concurso sugere que “De onde venho, escrevo”, ele [leva] ao aluno a compreensão do seu lugar no mundo como espaço legítimo de produção de saberes e histórias tão importantes quanto as outras”, afirmou.

Segundo ele, a proposta também estimula o reconhecimento da identidade local, o interesse pela preservação de memórias comunitárias e o protagonismo dos jovens na construção das próprias narrativas. “Ver a sua própria vivência, a história do seu povo e o seu sotaque transformados em linha escrita é perceber que a periferia, o recôncavo, o sertão e as comunidades ribeirinhas da Bahia não são a margem da história, eles são o centro”, destacou.

Entre as dicas para encontrar boas pautas, Italo recomenda observar personagens e cenas do cotidiano.

“Personagens como as marisqueiras que conhecem os segredos da maré, o feirante e o produtor de farinha que movimentam a economia local, o mestre de capoeira e as rezadeiras que são guardiões da cultura, guardam em suas trajetórias a história do povo baiano. As migrações dos avós do sertão para a capital, as receitas tradicionais passadas de geração em geração ou as memórias de infância dos pais é uma forma poderosa de compreender as grandes transformações sociais do estado a partir do ambiente doméstico. Uma fonte importante para chegar à essas informações são álbuns familiares de fotografia, a oralidade, os diários pessoais ou os documentos de identidade”, acrescentou.

Além dos estudantes, os professores orientadores têm papel fundamental no concurso. São eles os responsáveis pelo envio dos trabalhos no formulário de inscrição, bem como pelo acompanhamento e orientação das produções. Os docentes também concorrem à premiação, ao lado dos estudantes classificados.

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Para os participantes do CCJJ 2026, Italo deixa um conselho. “A boa reportagem e a boa crônica histórica não nascem do uso de palavras difíceis, mas sim da capacidade de enxergar a profundidade naquilo que parece simples. Escreva com os pés fincados no seu chão. Escute as pessoas da sua comunidade com respeito e empatia, de corpo presente. A Bahia que o Brasil precisa conhecer em 2026 é aquela narrada por quem nela vive, trabalha e sonha. Vão lá e façam a história ser escrita por vocês”.

Premiação

A premiação contempla estudantes e professores orientadores, de acordo com a colocação:

1º lugar

Tirinhas, Videorreportagem, Artigo de Opinião e Crônica

  • Estudante - iPhone 17
  • Professor - iPhone 17

2º lugar

Tirinhas, Videorreportagem, Artigo de Opinião e Crônica

  • Estudante - Notebook
  • Professor - Hospedagem em resort all inclusive, com direito a acompanhante

3º lugar

Tirinhas, Videorreportagem, Artigo de Opinião e Crônica

  • Estudante - Caixa de som JBL
  • Professor - Notebook
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Bahia Educação Jovem Jornalista

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