EDUCAÇÃO
Professores recebem dicas para cuidar da saúde mental; veja
Palestra no Trampos do Futuro apresentou estratégias voltadas ao bem-estar dos profissionais

Profissionais da educação passam diariamente por situações que exigem atenção, equilíbrio e tomada de decisões. Nesse contexto, uma noite mal dormida, conflitos familiares, alimentação inadequada e outros acontecimentos podem interferir diretamente no estado emocional e na maneira como o professor reage aos desafios da rotina escolar.
Pensando em ampliar a discussão sobre saúde mental e autocuidado entre docentes, a segunda edição do Trampos do Futuro contou, pela primeira vez, com uma programação exclusiva para professores. Realizado pelo Itaú Educação e Trabalho, na Fundação Bienal, em São Paulo, o Espaço Docente reuniu palestras e oficinas com estratégias práticas para ajudar os profissionais.
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Durante a palestra “Os desafios da saúde mental na era contemporânea”, o pesquisador e especialista em saúde mental e membro associado do Ame Sua Mente, Gustavo Estanislau, apresentou orientações que podem ser incorporadas à rotina dos professores. Uma das principais recomendações foi priorizar a qualidade do sono.
Segundo Gustavo, dormir bem contribui para a memória, a organização e a capacidade de lidar com imprevistos ao longo do dia. “A base do autocuidado é o sono. A partir do momento em que eu durmo bem, eu tenho a possibilidade de resetar ou pelo menos reduzir estados de alerta”, explicou.
Ele destacou ainda que a privação de sono pode prejudicar o funcionamento do córtex pré-frontal, região do cérebro relacionada à organização e ao controle das respostas diante de situações inesperadas. “Estudos mostram que, a cada hora a menos que a gente tem de qualidade de sono, menor é a capacidade que eu vou ter ao longo do dia de lidar com imprevistos”, afirmou.
Observe os pensamentos e os sentimentos
Outro ponto abordado pelo especialista foi a relação entre pensamentos, sentimentos e comportamentos. Em momentos de estresse ou ansiedade, o professor pode interpretar determinadas situações de maneira mais negativa do que elas realmente são. Como exemplo, Gustavo citou a possibilidade de um docente começar a acreditar que os alunos não gostam dele ou que sua aula está ruim, mesmo sem evidências concretas de que isso esteja acontecendo.
“Se o professor começa a acreditar naquilo piamente, mesmo que não esteja acontecendo, o sentimento tende a piorar, os comportamentos tendem a ser mais erráticos”, detalhou.
Cuidado com a “profecia autorrealizável”
Gustavo também chamou atenção para a “profecia autorrealizável” - uma expectativa negativa que, inicialmente, pode não corresponder à realidade, mas que influencia o comportamento e contribui para que aquele cenário se materialize.
“Eu crio uma profecia de que a minha aula está ruim e começo a fazer com que a aula fique ruim. No início, isso não estava acontecendo, mas, aos poucos, pode acontecer. Então, ter essa percepção mais clara de como os nossos pensamentos podem funcionar em relação aos sentimentos é muito importante”, afirmou.
Faça micropausas ao longo do dia
Outra orientação apresentada foi a necessidade de fazer pequenas pausas durante o dia. O objetivo não é apenas interromper o trabalho, mas permitir que o cérebro tenha momentos reais de descanso.
“Entendo que tem momentos em que não há escolha como, por exemplo, um aluno tendo uma crise dentro da sala de aula ou bater o carro, de fato, vão gerar um estado de alerta inerente. Mas existe uma série de situações ao longo do dia em que a gente pode ter escolha, como escolher chegar em casa e não assistir a um filme de terror ou de suspense”.
“Essas escolhas vão fazendo com que, ao longo do dia, o profissional produza menos hormônios de estresse e consiga ter um pouco mais de habilidade e capacidade de lidar com os estresses nos dias subsequentes”, acrescentou.
Professores destacam importância do debate
A discussão foi bem recebida pelos docentes que participaram do evento. Para a professora de Inglês, Fabiana Harangoso, abordar a saúde mental é fundamental diante das situações enfrentadas diariamente pelos profissionais da educação. “Foi muito assertivo ter essa discussão, porque nós passamos por isso todos os dias, por situações que ele citou ali”, disse.
Já a coordenadora da Casa da Cultura de Paraty, Rafaela Marsico, destacou o caráter prático das orientações apresentadas. Para ela, as micropausas foram uma das estratégias que mais chamaram atenção.
“A palestra me enriqueceu muito, porque, onde eu trabalho, a gente tem um contato com diversas crianças e jovens. Então, por vezes, ficamos perdidos de como lidar, de como ajudar de alguma forma. Então, ter acesso a essas informações e a esse conhecimento foi super importante”, avaliou.
Espaço Docente reuniu outras atividades
Além da palestra “Os desafios da saúde mental na era contemporânea”, o Espaço Docente contou com oficinas e atividades voltadas à formação dos profissionais. A programação incluiu:
- Educomunicação e Jovens Creators, realizada pelo Instituto Kondzilla;
- Competição de Ponte de Papelão: Design Thinking para Professores, promovida pelo professor Francisco Fechine;
- Percurso nas artes para professores: a música e seus desdobramentos, realizada pela Escola Fundação Itaú;
- Metodologias Ativas com IA, pelo Instituto Percorre;
- Internet é terra sem lei? O Desponta e a cidadania digital na escola, pela Fundação Roberto Marinho.
O Trampos do Futuro foi realizado nos dias 20 e 21 de agosto, na Fundação Bienal, em São Paulo. A segunda edição reuniu mais de cinco mil jovens e 40 parceiros nos dois dias de programação.
*Repórter viajou a São Paulo a convite do Itaú Educação e Trabalho.



