
O governador Jerônimo Rodrigues tentará a sexta vitória consecutiva do PT na disputa pelo governo do Estado. Caso consiga tal feito, será a consolidação da maior hegemonia de um grupo político na Bahia no período pós-redemocratização.
Antes da primeira vitória nas urnas, em 2006, com Jaques Wagner, petistas e ‘carlistas’, como eram chamados os aliados do ex-senador Antônio Carlos Magalhães (m.2007), já caminhavam para um cenário de polarização.
A morte de Antônio Carlos Magalhães, em 2007, no entanto, deu novos ares ao cenário político local. Os remanescentes do grupo carlista formaram um novo bloco, sob a liderança de ACM Neto (União Brasil), hoje líder da oposição.
O portal A TARDE elaborou uma linha do tempo para explicar como surgiu a mais duradoura disputa entre grupos políticos da Bahia, que superou, inclusive, a era do carlismo do estado.
Gênese do conflito: PT baiano nasce no berço do ‘Carlismo’
O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, no período de abertura política do Brasil, que ainda vivia sob uma ditadura militar. Na Bahia, a sigla foi forjada em meio aos movimentos sindicais.
O Polo Petroquímico de Camaçari, que teve suas operações iniciadas em 1978, se tornou ferramenta fundamental para a organização dos trabalhadores.
Greve do Polo forja lideranças petistas
Nesse contexto, as lembradas greves de 1985 alçaram importantes lideranças petistas, que já haviam participado do processo de fundação da sigla, como Moema Gramacho, Jaques Wagner e Rui Costa.
Vídeos que circulam nas redes sociais, de arquivos antigos da greve, mostram o então sindicalista Rui Costa discursando para os demais trabalhadores durante o movimento grevista.
“Mais importante do que dinheiro, é a gente garantir o emprego um do outro. Todo mundo aqui é pai de família e está lutando porque precisa. Demitiu um, a gente para [...] A gente tem que dizer para eles: eu não vou reprimir, o que eles decidirem, eu estou junto […] A partir de segunda-feira, 00h, a gente só ouve a voz do comando de greve”, aparece discursando o jovem trabalhador, hoje postulante ao Senado pela Bahia.
Uma nota publicada pela edição do dia 27 de agosto de 1985 do jornal A TARDE traz detalhes de uma reunião entre trabalhadores do Polo e representantes dos empresários, no antigo Centro de Convenções da Bahia.
“Após uma reunião no Centro de Convenções da Bahia e que durou precisos 15 minutos, entre as diretorias do Sindiquímica e do sindicato patronal, os trabalhadores das indústrias petroquímicas decidiram entrar em greve ontem à noite, e hoje pelo menos oito fábricas amanheceram com suas atividades paralisadas”, diz trecho da matéria veiculada pelo impresso.

O material é parte do acervo do Centro de Documentação de A TARDE, o Cedoc.
Waldir Pires e o terremoto que abalou império carlista
O ano era 1986. Waldir Pires (PMDB), ex-ministro da Previdência Social do governo José Sarney (PMDB), resolveu se lançar novamente a governador da Bahia, após a derrota em 1962 e os anos de exílio e ditadura militar.
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O ‘Carlismo’ dominava a política baiana desde o final da década de 1960, criado e sustentado pela ditadura militar. Com a exceção de Roberto Santos, que governou o estado em meados dos anos 70, todos os governadores do período estavam ligados a Antônio Carlos Magalhães (Arena/PDS/PFL).

Em 1986, no entanto, a candidatura de Waldir colocou a hegemonia do grupo em xeque pela primeira vez. O ex-ministro ‘emedebista’ enfrentou Josaphat Marinho (PFL), indicado por ‘ACM’ para a sucessão estadual de João Durval (PFL).
“O carlismo não pode ser entendido apenas como um grupo político ligado a Antônio Carlos Magalhães. Ele era uma forma de organização da política baiana baseada na combinação entre modernização administrativa e conservadorismo político: valorizava a competência técnica, a centralização das decisões, a liderança forte, a defesa dos interesses da Bahia e, sobretudo, uma relação muito próxima com o governo federal de turno. O governismo fazia parte da lógica de sobrevivência do carlismo”, explica o cientista político João Vilas Boas.
Waldir, que não tinha a maioria dos prefeitos, tampouco uma aliança partidária robusta, contando apenas com apoio de grupos progressistas, conseguiu vencer Josaphat e toda a estrutura carlista que governava a Bahia por décadas.
O bloco ‘A Bahia vai Mudar’, formado por PMDB, PDT, PCB, PCdoB e PSC, encabeçado por Waldir Pires (PMDB) e Nilo Coelho (PMDB), obteve 2.675.108 votos nas urnas.
Waldir Pires, entretanto, não terminaria seu mandato, deixando o cargo em 1989, sendo indicado para o posto de vice da chapa presidencial de Ulysses Guimarães (PMDB).
Já o Carlismo voltaria ao poder em 1990, com a vitória do líder ACM, permanecendo no poder até 2006.
O bastidor da aliança frustrada: o dia em que ACM tentou aproximar Lula no plano nacional
Em 2002, surgiu uma das mais improváveis alianças eleitorais da história da política brasileira: petistas e carlistas estiveram, em um curto espaço de tempo, do mesmo lado.
ACM, que havia apoiado Ciro Gomes (PPS) no primeiro turno da eleição presidencial, sendo também reeleito senador, declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno contra José Serra (PSDB).

O PFL, sua sigla, tinha feito parte do arco de alianças do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), mas a relação entre os dois acabou ‘azedando’. Como resposta a FHC, ACM optou por declarar voto em Lula, que acabou vencendo.
“As teses que eu defendo foram abraçadas pelo PT: a erradicação da pobreza, o fim das desigualdades regionais, o orçamento impositivo, correção do Judiciário”, afirmou ACM em entrevista na época.

Com Lula eleito, porém, o cenário mudou. O que parecia ser o início de uma aliança sólida, parou no apoio na eleição presidencial, apesar dos acenos do PFL nos primeiros anos de governo Lula, com apoio e até mesmo votos em pautas como a reforma da previdência.
2006: O ano da grande virada e a queda do "edifício carlista"
A ‘era Lula’ inaugurou um novo período político no Nordeste. A promoção de programas sociais, assim como a melhora nos números de outros indicadores fizeram com que o presidente petista se tornasse o principal ‘cabo eleitoral’ na região, sendo a Bahia também atingida.
"Lula lá e Wagner cá": A engenharia política que desbancou as pesquisas
No estado, ainda sob o domínio carlista, o ex-ministro petista Jaques Wagner assumiu a missão, mais uma vez, de representar as pretensões do partido no maior colégio eleitoral do Nordeste, após a derrota em 2002.
Wagner já havia tentado chegar ao Palácio de Ondina em 2002, sendo derrotado ainda no primeiro turno por Paulo Souto (PFL). O embate se repetiu em 2006, mas agora o ‘fator Lula’ havia se tornado um dos elementos da disputa.
Apesar do favoritismo de Paulo Souto nas pesquisas, Wagner e Lula se empenharam no processo eleitoral, o que culminou no tensionamento de ataques entre o presidente e ACM, que permanecia líder do seu grupo no estado, embora já existisse um braço do chamado ‘Soutismo’.
Em uma agenda na cidade de Feira de Santana, Lula chegou a se referir a ACM como ‘hamster’. Como resposta, o senador lhe chamou de ‘rato’.
“Para mim, ele é um hamster, que faz muita bravata. Só que não tenho medo de cara feia e, para falar comigo, ele tem que virar civilizado, como era o seu filho [Luís Eduardo Magalhães]”, disparou Lula na ocasião.
Apesar da minoria dos prefeitos, Wagner obteve o apoio histórico do PMDB, que indicou Edmundo Pereira, ex-prefeito de Brumado, como vice na sua chapa. A aliança deu certo, com a vitória do ex-ministro para governador ainda no primeiro turno, sacramentando o ‘começo do fim’ do Carlismo na Bahia.

Colunista do Grupo A TARDE e cientista político, Cláudio André de Souza explicou, em entrevista ao portal A TARDE, como se deu o processo de desgaste que culminou na queda do grupo que dominou a Bahia por décadas.
"O Carlismo já enfrentava uma série de desgastes. A gente pode citar, por exemplo, o processo de cassação de ACM como senador em 2001, que resultou ali nas manifestações de maio, e que ele renunciou para poupar-se de um processo de cassação que teve uma grande visibilidade pública", explicou o analista, que assina a coluna Conjuntura Política.
Para o cientista político, outros pontos explicam também a derrocada carlista e, consequentemente, a vitória de Jaques Wagner.

"Depois houve também um forte desgaste com a derrota da eleição municipal em Salvador. Então, perder Salvador ali foi muito simbólico e demonstrou que havia uma crise. Lembrando que Wagner, em 2002, teve quase 40% já em uma eleição que Lula tentava mais uma vez”, iniciou Cláudio André, que continuou.
“Para 2006, o fator principal que levou a uma derrota do carlismo foi a liderança de Lula na Bahia. Vale ressaltar que nós tínhamos ministros baianos, tínhamos ali figuras importantes [...] No sentido mais amplo, eu entendo que o fator Lula foi fundamental para levar Wagner a ter uma grande adesão de novos eleitores e vencer no primeiro turno”, pontuou ao explicar a mudança no cenário político baiano.
Lula recebe Wagner eleito e provoca ACM
Dias após a vitória de Wagner, Lula, que ainda estava em campanha para o segundo turno, recebe o aliado e agora governador eleito do estado, em Brasília.
O encontro ficou marcado pela provocação de Lula a Antônio Carlos Magalhães, com o presidente pedindo que os fotógrafos fizessem um ‘registro’ da cara do senador para saber como estava sua fisionomia após a derrota histórica na Bahia.
Vão lá no Senado fotografar o ACM para ver como está a cara dele Lula ao receber Wagner para agenda em 2006
Transição política pacífica na Bahia
A passagem de bastão de Paulo Souto, governador derrotado, para Jaques Wagner, agora seu algoz, ocorreu dentro da normalidade democrática, apesar da campanha tensa entre os dois grupos políticos.
Paulo Souto, inclusive, fez a transmissão de cargo para Wagner, em janeiro de 2007, mesmo ano da morte de ACM. Os dois episódios enterraram o bloco, que agora teria que se reinventar como oposição.
A reinvenção da rivalidade: O bastão passa para ACM Neto
A rivalidade entre petistas e ‘carlistas’ havia mudado de posição com a vitória de Wagner, em 2006. Agora, enquanto o PT governava o estado, os remanescentes e herdeiros de Antônio Carlos Magalhães tinham como missão um processo de reorganização do ‘pós-carlismo’.
A conquista de Salvador: Neto cria a trincheira de resistência da oposição
Eleito deputado federal em 2002, 2006 e 2010 na lista dos mais votados da Bahia, Antônio Carlos Magalhães Neto, agora no Democratas, sucessor do PFL, recebeu o bastão para coordenar o processo de reestruturação do grupo, que após décadas como situação, tinha que se adaptar ao posto de oposição.
“A trajetória de ACM Neto foi construída em um ambiente muito diferente daquele vivido por seu avô. Quando iniciou sua carreira, o carlismo já estava em declínio e o sistema político baiano havia se tornado muito mais competitivo, com o PT ocupando o governo estadual”, pontuou João Vilas Boas, ao analisar a ascensão de Neto.
Em 2008, já com Wagner no poder, ACM Neto viu sua primeira tentativa de ser prefeito de Salvador frustrada com a força petista, que conseguiu levar Walter Pinheiro para o segundo turno contra João Henrique (PMDB), que conseguiu ser reeleito.
Já em 2012, na disputa pela sucessão de João Henrique, Neto encarou Nelson Pelegrino, também do PT, que já havia sido candidato ao executivo soteropolitano em outras ocasiões.
Em uma eleição polarizada, Neto conseguiu sair vencedor no segundo turno, sendo reeleito em 2016, com recorde de votos e em um cenário de maior tranquilidade.
Salvador, desde então, se tornou a principal trincheira da oposição para se manter viva no estado, apesar do domínio em outros municípios de grande porte na Bahia.
O duelo de narrativas: a "maternidade" das grandes obras na capital baiana
Já como prefeito de Salvador, ACM Neto passou a travar diretamente com o grupo petista um ‘duelo’ pela ‘maternidade’ das obras de grande porte na capital baiana.
Enquanto Neto focou em um processo de revitalização das orlas e outros pontos da cidade, o grupo governista petista, seja com Wagner, que ficou no cargo de governador até 2014, ou com Rui Costa (PT), que assumiu o Palácio de Ondina em 2015, mirou sua artilharia para as chamadas ‘obras estruturantes’, como a entrega do metrô e de novas vias urbanas que alteraram a dinâmica de Salvador.
Wagner e ACM Neto: O "pacto de cavalheiros" nos bastidores da política soteropolitana
Apesar da rivalidade política entre petistas e herdeiros do carlismo, no chamado ‘Netismo’, Wagner e ACM Neto tiveram uma relação cordial quando estiveram juntos no poder.

Neto também manteve um tratamento dentro da normalidade com Rui Costa, embora os embates entre os dois fossem mais constantes. O ápice esperado, em 2018, não ocorreu, uma vez que Neto desistiu de renunciar à prefeitura para concorrer ao governo.
A Guerra Moderna: as urnas de 2022 e o xadrez atual
Após desistir de concorrer ao governo em 2018, colocando José Ronaldo (DEM) em seu lugar, ACM Neto cumpriu seu segundo mandato como prefeito de Salvador e passou a se organizar para alcançar o executivo estadual.

Em 2021, já sem mandato, Neto começou a traçar estratégias para tentar romper o ciclo petista de quase 16 anos no poder. O agora ex-prefeito passou a despontar, antes mesmo da escolha de um candidato para a sucessão de Rui, como o favorito para os próximos quatro anos.
A estratégia, no entanto, esbarrou nas mudanças repentinas de cenário na Bahia. Jaques Wagner, até então alçado pela militância petista para tentar voltar ao Palácio de Ondina, desistiu da empreitada no primeiro semestre de 2022.
A retirada da minha candidatura não implica na retirada da candidatura do PT. Quem decidirá se terá candidatura ou não, não sou eu, será o Partido Jaques Wagner
Após semanas de discussões internas, Jerônimo Rodrigues (PT), até então secretário estadual de Educação, foi escolhido pelos petistas para o embate com ACM Neto.
O "fenômeno" Jerônimo Rodrigues e o peso do "13" no interior da Bahia
Natural de Aiquara, no interior baiano, Jerônimo Rodrigues nunca havia disputado um cargo eletivo, embora tivesse experiência administrativa. Tido como desconhecido, o petista se provou uma escolha acertada por seu perfil conciliador, descrito por aliados, e um estilo que lhe aproximava aos povo distante dos grandes centros urbanos.

Visto como azarão, Jerônimo rompeu a barreira do favoritismo inicial de ACM Neto, conseguindo atrair novamente o MDB, que lhe entregou Geraldo Júnior para a composição da chapa como vice, e consolidando sua dobradinha com Lula, que tentava voltar ao Palácio do Planalto.
Nas urnas, todas as estratégias de campanha surtiram efeito positivo, com a vitória de Jerônimo no segundo turno, com pouco mais de 4.480.464 de votos, a segunda maior votação para o cargo na história do estado.
A nacionalização do debate: a encruzilhada de ACM Neto entre Bolsonaro e o antipetismo
ACM Neto e Jerônimo se enfrentarão novamente nas urnas em outubro. Desta vez, o candidato de oposição terá que equilibrar a simpatia do bolsonarismo baiano ao seu nome com a possibilidade de adesão de eleitores de Lula a sua candidatura.
Ao contrário de 2022, quando tentou fugir da nacionalização do debate, sendo o único dos três candidatos a não declarar apoio aberto a um postulante à presidência, ACM Neto estendeu a mão para Ronaldo Caiado, do PSD, partido que está base de governo do PT na Bahia, abraçando sua candidatura ao Planalto.
Jerônimo apostará novamente na dobradinha com Lula, vitoriosa em 2022, para impulsionar a nacionalização do debate.
Um dos exemplos foi a presença do presidente na convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, no começo de agosto, em Salvador.
“Isso não significa que o apoio de Lula seja suficiente para decidir sozinho a eleição. Porém, na Bahia, Lula continua sendo o principal cabo eleitoral do campo governista e, provavelmente, o fator nacional de maior capacidade de transferência de votos, sobretudo no interior do estado”, pontuou João Vilas Boas.
O "pacto de silêncio" de 2026: rivais evitam ataques diretos
O início da corrida eleitoral tem sido marcado por críticas de ambos os lados, mas dentro do debate de propostas e ideias.
Petistas e Netistas entendem, nos bastidores, que os ataques pessoais, principalmente envolvendo polêmicas com aliados de ambos os lados, podem ser prejudiciais para suas campanhas.
A tendência é que os dois grupos mantenham a postura até outubro, quando o eleitor baiano decidirá quem governará a Bahia pelos próximos quatro anos.



