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ACM X ROBERTO SANTOS

Embate épico entre governadores marcou eleição de 1990 na Bahia

Pleito ficou marcado pelo retorno de ACM ao poder

Cássio Moreira
Por
Antônio Carlos Magalhães, governador eleito em 1990
Antônio Carlos Magalhães, governador eleito em 1990 - Foto: Acervo Cedoc A TARDE

O dia 3 de outubro de 1990 ficou marcado para sempre na história da política baiana. Nesta data, dois dos ex-governadores mais lembrados do estado na segunda metade do século XX, Antônio Carlos Magalhães (PFL) e Roberto Santos (PMDB), se enfrentaram nas urnas.

A coluna Política e Memória desta semana relembra a eleição para o governo da Bahia que marcou o retorno do chamado ‘Carlismo’ ao Palácio de Ondina.

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Governadores da ditadura

Antônio Carlos Magalhães e Roberto Santos possuíam perfis distintos, mas carregavam algo em comum: os dois chegaram ao cargo de governador da Bahia por indicação da ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964.

Antes de ser alçado ao executivo estadual, ACM, como ficou conhecido Antônio Carlos Magalhães, teve mandatos como deputado federal, até 1967, e prefeito de Salvador, entre 1967 e 1970, por indicação do então governador Luís Viana Filho.

Membro da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação da ditadura, o ainda prefeito da capital foi indicado para o governo do estado pelo então presidente Emílio Garrastazu Médici, em abril de 1970, sendo referendado pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), assumindo em março do ano seguinte (1971).

ACM voltou ao executivo em março de 1979. Entre 1975 e 1979, intervalo dos seus dois mandatos, a Bahia foi governada por Roberto Santos, também indicado pelo regime militar.

Enquanto Antônio Carlos Magalhães fez parte do corpo político da ditadura, Roberto, que recebeu as bênçãos do presidente Ernesto Geisel, ficou conhecido por sua trajetória acadêmica.

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Antes de ocupar o Palácio de Ondina, Roberto Santos foi reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Roberto Santos tentava voltar ao Palácio de Ondina
Roberto Santos tentava voltar ao Palácio de Ondina - Foto: Arquivo A TARDE

Filiados ao mesmo partido, ACM e Roberto Santos representavam diferentes correntes dentro da Arena. Esse processo ganhou força com a interiorização do golpe militar, já retratado em matéria recente do portal A TARDE sobre as divisões políticas no estado.

Ministros da redemocratização

ACM e Roberto Santos levaram suas experiências no governo da Bahia para o Palácio do Planalto durante a transição para a democracia. Ambos foram ministros de José Sarney, primeiro civil a assumir a presidência da República após 21 anos de militares no poder.

Antônio Carlos Magalhães
Antônio Carlos Magalhães - Foto: Arlindo Felix | AG. A TARDE

Enquanto Antônio Carlos Magalhães assumiu o Ministério das Comunicações, ficando até 1990, Roberto Santos foi responsável pelo Ministério da Saúde entre 1985 e 1987.

O embate épico

Distantes nos tempos de Arena, ACM e Roberto Santos polarizaram a política baiana nos anos seguintes ao fim da ditadura. Enquanto o primeiro assumiu o comando do Partido da Frente Liberal (PFL), sigla que ajudou a fundar, o segundo se filiou ao PMDB, oriundo do antigo MDB, que existiu também durante o regime.

Em 1990, estava em jogo a sucessão de Nilo Coelho (PMDB), ex-prefeito de Guanambi e ex-aliado do grupo de Antônio Carlos Magalhães, conhecido como ‘Carlismo’.

A TARDE trouxe registro de ato de campanha de Roberto Santos
A TARDE trouxe registro de ato de campanha de Roberto Santos - Foto: Divulgação | Cedoc A TARDE

Nilo não foi eleito governador em 1986, mas foi vice da chapa vencedora encabeçada por Waldir Pires (PMDB), que renunciou ao posto em 1989 para ser vice de Ulysses Guimarães (PMDB) na eleição presidencial daquele mesmo ano, a primeira direta desde 1960.

ACM e Roberto Santos então tentariam voltar ao cargo mais alto da estrutura política baiana, mas agora, diferente das indicações, pelo voto popular.

Eleição para o governo da Bahia

O jornal A TARDE manteve a tradição de ampla cobertura da corrida eleitoral, uma das mais lembradas na memória dos baianos. Além dos dois ex-governadores, o pleito contava com outros nomes de peso, a exemplo da então deputada federal Lídice da Mata (PCdoB), que seria eleita prefeita de Salvador em 1992, e Sérgio Gabrielli (PT), que se tornaria presidente da Petrobras nas décadas seguintes.

Arquivos encontrados pela coluna no Cedoc de A TARDE, um dos mais antigos e completos do país, em termos de registros históricos, mostram o clima da corrida eleitoral daquele ano.

Em matéria publicada em 3 de julho de 1990, o jornal A TARDE traz um recorte do tradicional desfile de comemoração da independência do Brasil na Bahia, no dia anterior, com a presença de alguns dos pré-candidatos.

A cobertura também trouxe particularidades do termômetro eleitoral, como os ataques do então governador Nilo Coelho a ACM, que não participou do cortejo.

"Se ele não apareceu, por temer o povo, começou mal a sua campanha. Afinal, quem teme o contato direto com o seu povo não tem o direito de governá-lo [...] Se não apareceu por não ter saúde para caminhar os oito quilômetros, da Lapinha ao Campo Grande, e subir e descer umas ladeirinhas, vai ser difícil encontrar fôlego para governar um estado das dimensões da Bahia”, disparou o governador.

ACM, Meu Amor

Como sempre, os jingles marcaram presença na corrida eleitoral. Os dois principais candidatos usaram da nostalgia de suas gestões anteriores para fisgar o eleitor baiano.

Enquanto Roberto Santos optou pela linha da “Bahia mais humana” em seu jingle, ACM aproveitou o ‘vácuo’ da renúncia de Waldir Pires para passar a ideia de abandono do estado.

Daí, Gerônimo Santana e Vevé Calazans fizeram um dos jingles mais lembrados na história da política baiana: “ACM, Meu Amor”.

A Bahia vai às urnas

No dia 3 de outubro, os baianos foram às urnas para decidir quem seria o novo governador da Bahia. O jornal A TARDE registrou os votos dos principais candidatos à sucessão estadual na edição do dia seguinte, 4 de outubro, como mostram os arquivos do Cedoc.

O ex-ministro Antônio Carlos votou pela manhã, no Clube Bahiano de Tênis, sem enfrentar a tradicional boca-de-urna dos adversários. Acompanhado da esposa Arlete Magalhães, chegou ao local a pé, sob uma chuva de papel picado atirada dos edifícios vizinhos e até de uma revoada de pombos promovida por correligionários Trecho de reportagem de A TARDE

Segundo a reportagem, Roberto Santos e seus aliados ainda acreditavam na possibilidade de segundo turno, enquanto ACM pregava cautela com relação ao resultado do pleito.

Jornal A TARDE com votos dia dos candidatos ao governo
Jornal A TARDE com votos dia dos candidatos ao governo - Foto: Divulgação | Cedoc A TARDE

“Pela manhã, enquanto recebia deputados na sua residência, Roberto Santos mostrava confiança na realização do segundo turno”, dizia trecho da reportagem de A TARDE.

O resultado das eleições

Dias depois da votação, os resultados começaram a se consolidar. A edição de A TARDE de 17 de outubro trouxe a confirmação da vitória de Antônio Carlos Magalhães, eleito para seu terceiro mandato com 1.642.726 (50.71%).

Dos 411 municípios baianos existentes na época, ACM venceu em 313. Roberto Santos, segundo colocado na disputa, foi o mais votado em 95 deles, seguido por Luiz Pedro Irujo (PRN), vencedor em duas cidades, e Sérgio Gabrielli, que venceu em um município.

“O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia divulgou, ontem, o resultado final das eleições majoritárias e proporcionais no estado. Pela terceira vez, o governo da Bahia vai ser ocupado pelo ex-ministro Antônio Carlos Magalhães, que obteve 1.642.726 votos, correspondentes a 50,71% dos votos válidos (46.180 de vantagem sobre os demais candidatos), decidindo a eleição, dessa forma, no primeiro turno. O seu principal adversário, Roberto Santos, teve 1.039.875 votos”, diz o registro do jornal.

Página de A TARDE traz registro de resultado da eleição
Página de A TARDE traz registro de resultado da eleição - Foto: Divulgação | Cedoc A TARDE

Eleito, Antônio Carlos Magalhães, que teve Paulo Souto (PFL) como vice, tomou posse no dia 15 de março de 1991, permanecendo no cargo até o primeiro semestre de 1994.

Após a derrota, Roberto Santos, que já havia perdido em 1982, desistiu de uma vez por todas de voltar ao Palácio de Ondina, sendo eleito deputado federal em 1994.

Roberto Santos morreu aos 94 anos, em 2021, enquanto ACM morreu em 2007.

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ACM eleições Política e Memória Roberto Santos

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