RIVALIDADE MUNICIPAL
De Jacus a Carcarás: como as disputas municipais moldaram a política da Bahia
A TARDE conta história das facções políticas do interior e suas influências atuais


As eleições municipais de 2024 mostraram que a polarização política segue como uma das marcas mais persistentes da Bahia. Em 214 dos 417 municípios do estado, o equivalente a pouco mais de 51% das cidades baianas, a disputa pela prefeitura teve apenas dois candidatos.
O dado, baseado em levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), revela uma característica que ultrapassa a divisão contemporânea entre governo e oposição.
Em várias regiões, a política municipal continua organizada em torno de grupos históricos, muitos deles identificados por nomes próprios, cores, animais, objetos ou apelidos populares que atravessaram gerações e ainda funcionam como marcadores de pertencimento eleitoral.
Na Bahia, com todas as suas particularidades em seus 417 municípios, o eleitor nem sempre foi apenas udenista, pessedista, arenista, peemedebista, petista ou carlista.
Em muitos municípios, antes mesmo da legenda partidária, ele era Jacu, Carcará, Beija-flor, Boca Preta, Boca Branca, Coquí, Memé, Macaco, Gavião, Rabudo, Corina, Mosquito, Mandioca, Azul ou Vermelho. Esses nomes, aparentemente folclóricos, escondem estruturas de poder mais complexas que contam a história da política do estado.
A reportagem de A TARDE conta como as facções políticas do interior baiano remetem a famílias tradicionais, coronéis, chefes políticos locais, disputas por cargos, controle de eleitorado, acesso a obras públicas e articulação direta com o governo estadual.
Alvo de estudos
A força dessas rivalidades aparece com nitidez nas pesquisas acadêmicas consultadas por A TARDE sobre o interior baiano. Em Santo Antônio de Jesus, por exemplo, o historiador e mestre pela Universidade Federal da Bahia (Uneb), Marcos Souza Batista, descreve a política local como marcada pela disputa entre dois grupos de direita identificados por nomes de pássaros, Beija-flor e Jacu, formados nos primeiros anos da década de 1960.
Segundo o pesquisador, “a cada quatro anos o local sai de seu cotidiano natural”, com bares, farmácias, barbearias, padarias e feiras livres convertidos em espaços de polarização política. A divisão, portanto, não ficava limitada aos palanques; atravessava relações familiares, amizades, bairros e espaços de sociabilidade cotidiana.
“Como habitante da cidade, por várias vezes, presenciei com meus irmãos, amigos, primos e outros conhecidos, no início da década de 1990, discussões de pessoas defendendo o Beija-flor ou o Jacu. Meus pais, por exemplo, no ambiente do lar, reproduziram a divisão política dos santoantonienses, já que meu pai era de uma família que se considerava Jacu de ninho (termo que, no linguajar popular, define eleitores que nunca mudaram de lado), que além de apoiar, fazia campanhas políticas para o grupo; já minha mãe se diz Beija-flor até morrer”, disse o pesquisador.
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O fenômeno, no entanto, não era exclusivo de Santo Antônio de Jesus. Em Guanambi, a disputa entre Jacus e Carcarás se consolidou durante a ditadura militar, dentro da própria Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime.
A pesquisa da historiadora Maryana Gonçalves Souza sobre a “interiorização do golpe militar de 1964” aponta que, embora a Arena tenha dominado a política local, havia divisões internas: as facções opostas dentro do partido situacionista foram chamadas de “Jacus” e “Carcarás”, formando a Arena 1 e a Arena 2.
Os “passáros” e suas origens
A origem desses nomes está ligada à cultura política local e à forma como cada grupo buscava definir o adversário. O termo Jacu, por exemplo, aparece em vários municípios.
Em geral, o apelido era associado ao grupo mais tradicional, conservador ou ligado às famílias que comandavam a política local havia mais tempo. A ave jacu, típica de florestas e matas, é vista popularmente como pacata e mansa.
Por isso, em algumas cidades, adversários passaram a usar o nome de forma pejorativa, insinuando passividade, fragilidade ou falta de combatividade. Com o tempo, porém, muitas dessas facções incorporaram o apelido e transformaram a provocação em identidade política.

O Carcará, por sua vez, representava a oposição mais agressiva, combativa e disposta a enfrentar o grupo tradicional. Na natureza, o carcará é uma ave de rapina comum em áreas abertas, presente na Caatinga, no Cerrado e em ambientes urbanos. Sua imagem de animal astuto, resistente e predador foi apropriada politicamente para simbolizar força e capacidade de enfrentamento.

Em Guanambi, os Carcarás se consolidaram como grupo de oposição aos Jacus e, a partir dos anos 1970, ganharam força vinculados a uma nova classe econômica formada por pecuaristas, agricultores de algodão, proprietários de usinas e comerciantes.
A pesquisa sobre o município registra que esse grupo cresceu em meio à lavoura algodoeira da década de 1970 e conquistou a prefeitura em 1976, com José Neves Teixeira.
Além dos jacus e carcarás
Os apelidos, contudo, não se limitavam as duas aves. Em Ipirá, a rivalidade entre Jacus e Macacos remete a disputas coronelistas antigas e à tradição de grupos rivais utilizarem animais como símbolos políticos. Em Cícero Dantas, a polarização entre Jacu e Gavião sucedeu outras nomenclaturas históricas.
Desde o Império, grupos ligados ao Barão de Jeremoabo, Cícero Dantas, eram chamados de Urubus, enquanto os apoiadores do Padre Caetano e do coronel Sales eram associados aos Pebas.
Entre as décadas de 1920 e 1940, surgiram ainda Boca Preta e Barriga d’Água, antes da configuração moderna entre Jacus e Gaviões. Essa sucessão mostra como os nomes mudavam, mas a lógica dual permanecia.

Em Morro do Chapéu, a disputa entre Coquís e Memés expressava uma cisão política entre grupos ligados às famílias de Francisco Dias Coelho, Antônio de Souza Benta e Teotônio Marques Dourado Filho.
Na pesquisa “Terra do Frio”, Coroneis de ‘Sangue Quente’?: Política, Poder e Alianças em Morro do Chapéu”, da historiadora Jedean Gomes Leite,mostra que os apelidos não eram apenas marcas locais; eles representavam alianças, controle da intendência, influência sobre jornais, disputas religiosas e articulações com coronéis regionais.
A mudança no poder local estava diretamente ligada às alianças com forças externas ao município. Essas rivalidades também eram alimentadas por diferenças religiosas, econômicas e sociais.
Em Morro do Chapéu, os Coquís exploraram politicamente a influência protestante sobre a família Dourado, ligada aos Memés, em uma sociedade majoritariamente católica.
A diferença de fé se tornou um “eficiente artifício” para angariar simpatia popular e criar resistência contra os adversários. Ou seja, a política municipal absorvia tudo: religião, parentesco, economia, honra familiar, acesso ao governo e controle simbólico da cidade.
O Coronelismo e a Ditadura
Na Chapada Diamantina, a rivalidade entre Mosquitos e Mandiocas apareceu associada às disputas pelo domínio político regional. A pesquisa de Tiago Ferreira dos Santos, sobre a ação missionária presbiteriana em Ponte Nova, atual cidade de Wagner, que os Mandiocas eram aliados do coronel Horácio de Matos, enquanto os Mosquitos eram aliados do coronel Militão Coelho.
A referência é importante porque insere os apelidos locais no contexto mais amplo das disputas coronelistas da Chapada, onde o controle político se dava por redes regionais de poder, e não apenas por disputas eleitorais municipais isoladas.
Essas facções municipais tiveram impacto direto nas eleições para o governo da Bahia. Durante a República Velha, a força de um coronel ou chefe político local era medida pela quantidade de votos que ele conseguia entregar aos candidatos apoiados pelo governo estadual.
A política funcionava como um sistema de reciprocidade: líderes municipais ofereciam votos, controle territorial e estabilidade local; em troca, recebiam cargos, obras, reconhecimento político, proteção institucional e acesso aos recursos estaduais.
A prefeitura, a delegacia, a nomeação de professores, a abertura de estradas, a chegada de equipamentos públicos e até decisões eleitorais podiam depender da posição assumida por esses grupos.
Morro do Chapéu é um exemplo expressivo dessa relação. A ascensão dos Memés ocorreu em meio à fragilização da aliança entre Souza Benta, líder dos Coquís, e o coronel Horácio de Matos, considerado o "senhor da guerra".
Quando os Coquís hesitaram em apoiar diretamente Horácio em uma eleição para o Senado, abriram espaço para a aproximação dos adversários com outras forças.
A pesquisa mostra que a ausência de apoio direto dos Coquís gerou afastamento de Horácio e contribuiu para a ascensão dos oposicionistas. A política local, portanto, dependia de articulações que ultrapassavam os limites do município.

A virada em Morro do Chapéu também contou com intervenção institucional. Em 1924, o Senado da Bahia — Casa Alta do estado durante a República Velha — acatou uma petição para anular as eleições municipais de 1923, alterando profundamente o quadro político local. A decisão retirou dos Coquís a possibilidade de evitar a perda do poder.
Antes mesmo da posse do novo intendente, uma sequência de nomeações começou a ocorrer no município, preparando a cidade para os novos administradores. O episódio demonstra como o governo estadual e as instituições estaduais podiam intervir diretamente na definição do vencedor local.
Décadas depois, durante a ditadura militar, essa engrenagem foi adaptada ao bipartidarismo. Com a extinção dos antigos partidos após o AI-2, em 1965, a política brasileira passou a funcionar oficialmente com apenas duas legendas: Arena, ligada ao regime, e MDB, de oposição consentida.
No interior baiano, entretanto, muitas cidades tinham duas facções tradicionais governistas. Para evitar que uma delas fosse excluída e migrasse para a oposição, o sistema de sublegendas permitiu que grupos rivais disputassem entre si dentro do mesmo partido.
Em Santo Antônio de Jesus, Beija-flor e Jacu estiveram dentro da Arena e depois do PDS, separados por sublegendas. As sublegendas funcionavam como “uma garantia de modificar o mínimo possível as relações de poder nos municípios”.
Esse mecanismo também aparece em Guanambi, onde Jacus e Carcarás formaram Arena 1 e Arena 2. A disputa interna do partido governista preservava as rivalidades locais e, ao mesmo tempo, mantinha os dois grupos dentro da base do regime. Na prática, a ditadura reorganizou o jogo partidário, mas não eliminou o “mandonismo” municipal. Ao contrário: em muitos casos, deu a ele uma nova forma institucional.
“Em Guanambi, dentro da ARENA existiram facções opostas, que formaram a ARENA 1 e ARENA 2. Elas ficaram conhecidas popularmente a partir de 1976, como os ‘Jacus’, liderados pelo Dr. José Humberto Nunes e os 'Carcarás', liderados por José Neves Teixeira e Nilo Coelho, sendo essa disputa política bastante acalorada e essas nomenclaturas ainda se encontram presentes na política do município. Assim, as eleições para prefeito de Guanambi, no final da década de 1960 e de 1970, se davam por meio de um candidato único ou então, de dois candidatos de facções distintas ligadas à ARENA”, explicou Maryana.
A influência estadual e mudança com ACM
Com a chegada Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) ao governo do estado, essa lógica ganhou nova dimensão. O carlismo construiu parte de sua força justamente na capacidade de negociar simultaneamente com grupos rivais do interior, distribuindo espaços administrativos, cargos e obras de modo a manter dependência política em relação ao governo estadual.
O poder estadual funcionava como mediador e beneficiário das rivalidades locais. Ao apoiar um grupo em determinado município, podia consolidar votos; ao equilibrar facções rivais, impedia que uma oposição estadual se fortalecesse. A política municipal, assim, era uma peça essencial da política estadual.

“Sem o Estado, os chefes municipais não teriam o apoio que lhes dava garantias e condições de exercer algum controle sobre população e sobre seus rivais. Nesse caso, a contrapartida do coronel era garantir os votos necessários nas eleições, em favor do governo estadual. A mesma relação passou a existir entre o Estado e o presidente da República”, disse a historiadora Jedean.
O apoio dos estados ao presidente da República garantia, em contrapartida, o reconhecimento, pelo governo federal, do domínio do governador no Estado
Jedean Gomes Leite - Historiadora pós-graduada em Educação, História e Sociedade pela Uneb
Santo Antônio de Jesus mostra como essas disputas locais podiam interferir nas eleições para governador. Eem diferentes momentos, lideranças do Jacu e do Beija-flor conseguiram levar seus grupos ao poder municipal em articulação com Antônio Carlos Magalhães, identificado como líder do grupo político hegemônico do estado e com boa relação com os militares.
No entanto, em 1986, já no processo de redemocratização, o Beija-flor rompeu com o carlismo e aderiu à candidatura de Waldir Pires. A pesquisa registra que, pela primeira vez desde sua criação, o grupo não esperou o mandato de um governo terminar e “logo tratou de aderir à candidatura de Waldir Pires, adversário direto de ACM na Bahia”.
Essa ruptura teve peso simbólico e eleitoral. Santo Antônio de Jesus era uma cidade estratégica do Recôncavo, com forte comércio e influência regional. Quando o Beija-flor, historicamente associado à direita local e ao campo governista, migrou para o PMDB, ajudou a construir a base municipal da vitória de Waldir Pires contra o candidato apoiado pelo PFL, Josaphat Marinho.
A mudança mostrou que as facções locais não eram apenas braços obedientes do governo estadual. Elas também calculavam cenários, mediam forças e podiam abandonar antigos aliados quando percebiam mudança na correlação de poder.
A força dos chefes políticos municipais e regionais também aparece na lembrança sobre o ex-deputado federal, Manoel Novais, um dos principais nomes da história da política baiana.
Segundo relatos colhidos pela pesquisa de Marcos Batista, o líder do Partido Republicano “decidia a eleição na Bahia”, por comandar ampla base de deputados federais e estaduais e manter relação direta com governadores.
Quem radiava mais dinheiro público na época era Fraga, porque tinha como chefe dele, Manoel Novais, que mandou no governo da Bahia, Manoel Novais era um chefe político que tinha dez deputados federais e doze estaduais. Então, é um forte! Quando chegava na Bahia, o governador ia receber no aeroporto. Ele decidia a eleição na Bahia
Faustino de Almeida Cunha - Ex-vereador e ex-vice-prefeito de Santo Antônio de Jesus na década de 70
As exceções
Apesar da persistência dessas divisões, algumas eleições romperam a tradição. Em Santo Antônio de Jesus, Álvaro Bessa, do PT, conseguiu se eleger sem pertencer nem ao Beija-flor nem ao Jacu, tornando-se uma exceção na história política local.
Em Caetité, a polarização entre Jacu e Cocá, vinculada às famílias Ladeia e Dácio Oliveira, foi rompida em 2020 com a vitória de Valtécio Aguiar (PDT), que passou a representar uma terceira força conhecida como "Canarinho". Esses casos mostram que as facções tradicionais não desapareceram, mas já não controlam sozinhas todos os caminhos eleitorais.
Mesmo assim, o peso simbólico permanece. Em Elísio Medrado, o termo Jacu não designa necessariamente um grupo político fixo, mas o grupo derrotado na eleição.
A tradição popular de jogar mamões na porta dos perdedores reforça a dimensão ritual da disputa, transformando a derrota em ato público de escárnio. Em outras cidades, nomes como Boca Preta, Boca Branca, Azul, Vermelho, Chapéu Branco ou Chapéu Preto continuam funcionando como chaves de leitura da política local, mesmo quando os partidos mudam e as alianças se reorganizam.
O que resta dessas divisões hoje é uma mistura de memória, identidade e cálculo político. Em algumas cidades, as facções ainda mantém a força, organizam campanhas, famílias e lideranças.
Em outras, viraram apenas referência histórica, apelido usado em períodos eleitorais e inspiração para grupos atuais que dominam suas respectivas cidades.
Confira o mapa elaborado em A TARDE com as “facções” de disputas municipais:
Entenda as "facções" de disputas municipais
Jacus x Carcará
- Guanambi
- Jacobina
- Riachão do Jacuípe
- Senhor do Bonfim
Beija-flor x Jacu
- Santo Antônio de Jesus
- Dom Macedo Costa
Boca branca x Boca preta
- Campo Formoso
Babonetes x Jacus
- Muritiba
Jacu x Gavião
- Cícero Dantas
Azuis x Vermelhos
- Mutuípe
- Conceição do Coité
Jacu x Macaco
- Ipirá
Corinas x Rabudos
- Oliveira dos Brejinhos
Mosquitos x Mandiocas
- Chapada Diamantina - surgiu em Brotas de Macaúbas
Coquís x Memés
- Morro do Chapéu
Jacu x Cocar
- Caetité
Chapéu Branco x Chapéu Preto
- Serrolândia


