EM PAUTA
Inca participa de pesquisas voltadas à melhoria do cuidado oncológico
Saiba o que muda no tratamento do câncer com o avanço da imunoterapia


Com atuação em pesquisa, formação de pesquisadores, produção de conhecimento e colaboração com instituições nacionais e internacionais, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) participa de uma agenda de pesquisa voltada à melhoria do cuidado oncológico, incluindo estudos clínicos, de epidemiologia, avaliação de tecnologias e investigação de estratégias que possam contribuir para o controle do câncer.
“A incorporação de novas tecnologias precisa ser acompanhada de evidências e de uma análise sobre sua aplicabilidade no Sistema Único de Saúde’, afirma a médica Andreia Melo, chefe da divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico da Coordenação de Pesquisa e Inovação do órgão público ligado ao Ministério da Saúde.
O panorama atual da Oncologia, avalia a Dra. Andreia, é marcado por uma combinação de avanços tecnológicos e uma compreensão cada vez mais detalhada das características biológicas de cada tumor. Entre as principais inovações, ela destaca:
- imunoterapia: tratamentos que estimulam ou modificam a resposta do sistema imunológico contra o câncer;
- terapias-alvo: medicamentos dirigidos a alterações moleculares específicas presentes nas células tumorais;
- anticorpos conjugados: estratégias que utilizam anticorpos para direcionar uma substância terapêutica às células tumorais;
- Medicina de precisão: integração de informações clínicas, genéticas e moleculares para orientar a escolha do tratamento.
Essas inovações, afirma a médica, não substituem, automaticamente, os tratamentos já estabelecidos. São incorporadas à prática clínica de acordo com a evidência científica, as características da doença e as aprovações regulatórias”.
Em agosto deste ano, a Moderna e a Merck anunciaram resultados positivos de um estudo de fase 3 com o intismeran autogene (mRNA-4157) em combinação com pembrolizumabe, para pacientes com melanoma de alto risco após cirurgia.
“O estudo demonstrou resultados favoráveis nos desfechos de sobrevida livre de recorrência e de metástases à distância, segundo os anúncios das empresas e a cobertura científica. É importante dizer que os dados completos ainda serão apresentados em congresso de Oncologia e posteriormente publicados. Ainda não existe aprovação regulatória ou comercialização.”
O RNA mensageiro ou mRNA, que ganhou notoriedade nas vacinas contra a Covid-19, não surgiu com a pandemia de 2029, como ressalta a Dra. Andreia Melo.
“Trata-se de uma molécula fundamental para o funcionamento das células, responsável por levar informações do DNA até os ribossomos, onde são produzidas as proteínas. A ideia de utilizar o mRNA como ferramenta terapêutica vem sendo estudada há décadas”, afirma, explicando que as vacinas contra a Covid-19 demonstraram, em larga escala, que essa plataforma poderia ser utilizada com rapidez e eficácia para estimular uma resposta imunológica.
“Esse conhecimento contribuiu para acelerar o desenvolvimento de outras aplicações, incluindo as vacinas terapêuticas contra o câncer.”
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No câncer, enfatiza a especialista, a lógica é diferente da vacinação preventiva tradicional contra agentes infecciosos. “Uma vacina personalizada pode ser desenvolvida a partir das alterações específicas identificadas no tumor do próprio paciente. Essas alterações podem dar origem a proteínas ou fragmentos chamados neoantígenos, que são reconhecidos pelo sistema imunológico como alvos potenciais”.
A proposta, complementa, é ensinar o sistema imunológico a reconhecer características do tumor e a desenvolver uma resposta contra as células cancerígenas que apresentam esses alvos.
“No entanto, é essencial explicar que essas vacinas ainda estão em desenvolvimento para a maioria dos tipos de câncer. O objetivo não é afirmar que o mRNA representa uma cura universal, mas reconhecer que ele amplia as possibilidades de desenvolver tratamentos mais individualizados”, explica.
De acordo com a médica, o Inca dispõe de uma importante base de informações epidemiológicas sobre o câncer no Brasil, “que é fundamental para orientar políticas públicas, planejar a assistência e identificar desigualdades regionais na prevenção, no diagnóstico e no tratamento”.
A publicação “Estimativa 2026–2028: incidência de câncer no Brasil” prevê, aproximadamente, 781 mil novos casos de câncer no país para cada ano do triênio.
“Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, a estimativa é de cerca de 518 mil casos anuais. Esses números mostram que o câncer é um problema de saúde pública de grande magnitude. Mas também precisamos olhar para as diferenças regionais. A distribuição dos tipos de câncer não é homogênea no país, e isso está relacionado a fatores como envelhecimento da população, exposições ambientais e comportamentais, condições socioeconômicas e acesso aos serviços de saúde”, explica.
O câncer do colo do útero, por exemplo, permanece entre os tumores mais incidentes nas regiões Norte e Nordeste, conforme dados do Inca. “O Brasil tem capacidade de produzir evidências relevantes em Oncologia, mas precisamos ampliar a participação de diferentes regiões, fortalecer a infraestrutura de pesquisa e garantir que os resultados sejam aplicáveis à nossa realidade.
O futuro desta especialidade médica não está apenas no desenvolvimento de tratamentos cada vez mais sofisticados, mas na nossa capacidade de produzir evidências relevantes, incorporar a inovação de forma responsável e garantir que os benefícios da ciência cheguem aos pacientes, independentemente de sua região ou condição social”, avalia a Dra. Andreia.
O avanço do conhecimento sobre a biologia dos tumores, do sistema imunológico e das alterações genéticas que levam ao câncer tem permitido desenvolver tratamentos cada vez mais direcionados e individualizados.
“Hoje, temos uma expansão significativa da imunoterapia, das terapias-alvo, dos anticorpos conjugados e das estratégias de Medicina de precisão”, pontua, considerando que essas abordagens podem aumentar a eficácia do tratamento. Entretanto, pondera, é importante lembrar que o benefício varia de acordo com o tipo de tumor, o estágio da doença e as características de cada paciente.


