EM PAUTA
Turismo baiano aposta em eventos, cultura e interiorização de janeiro a janeiro
Confira mais uma reportagem especial do 'Turismo em Pauta'


Por conta de sua riqueza patrimonial, cultural, imaterial e histórica, a Bahia trabalha com 52 segmentos turísticos, possibilitando uma mobilização no setor durante os 12 meses do ano, e não só no verão. No entanto, mesmo sendo um concorrido destino marcado pela força da sua cultura, ancestralidade e culinária, estratégias para driblar a sazonalidade do turismo estão no radar de órgãos públicos, entidades ligadas à área e produtores culturais.
A diversificação de ofertas do turismo e sua interiorização estão entre as ações que mais contribuíram para aumentar o fluxo e tempo de permanência do turista no Estado, com um crescimento de 7% do setor no primeiro semestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2025, segundo a Secretaria de Turismo do Estado (Setur-BA).
O aumento na arrecadação de impostos sobre os equipamentos turísticos da Bahia com o crescimento do turismo nos primeiros seis meses do ano é comemorado pelo o secretário estadual de Turismo, Maurício Bacelar.
“No primeiro semestre de 2025, arrecadamos R$ 1,5 bilhão de ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação) no setor e, este ano, R$ 1,6 bilhão.”
Dentre os equipamentos que colaboram para a redução da sazonalidade do turismo na Bahia, Maurício Bacelar destaca a rota do cacau, na Costa do Cacau, no Sul da Bahia, consolidando a “Estrada do Chocolate” como um roteiro turístico temático na Rodovia BA-262, que liga Ilhéus e Uruçuca. Outro roteiro que incrementa o turismo baiano fora da chamada “alta estação” é o turismo de avistamento de baleias Jubarte, que ocorre entre julho e novembro, no Litoral da Bahia.
Destaque, ainda, para as visitas aos terreiros de candomblé, através do Projeto Agô Bahia, criado pela Setur-BA para valorizar as religiões de matriz africana e fortalecer o afroturismo em Salvador e na Região Metropolitana.
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A diversificação de oferta de voos para a Bahia e a divulgação dos destinos e eventos corporativos, realizados principalmente entre abril e agosto, também colaboram para atrair turistas para além do verão.
“Os congressos e seminários sediados no nosso Estado funcionam como vitrines para os segmentos turísticos e movimentam hotéis e outros setores de prestação de serviços”, pontua Bacelar, ressaltando o reconhecimento da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) do trabalho de incentivo ao turismo durante todo o ano, realizado pelo governo estadual.
O presidente da ABIH-BA, Wilson Spagnol, considera que, na maioria dos destinos turísticos baianos, há uma natural sazonalidade da demanda e que ter uma agenda forte e consolidada com grandes eventos é uma das estratégias mais eficazes para aumentar o fluxo de visitantes nos períodos mais críticos.
“Grandes eventos, sejam eles culturais, esportivos, corporativos ou religiosos, funcionam como catalisadores da demanda turística, não apenas para os meses de baixa temporada, mas também durante o verão e outras épocas de maior procura”, reforça.
Muitas cidades baianas, acrescenta o dirigente da ABIH, dependem de grandes eventos já consolidados, a exemplo do Festival de Inverno Bahia, em Vitória da Conquista; do Festival de Lençóis; da Feira Literária de Cachoeira (Flica); da Festa da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira; do Festival Música em Trancoso; da Vaquejada de Serrinha; e da Maratona Salvador.
“Muitos deles lotam as cidades onde estão sendo realizados e movimentam a rede hoteleira local e a economia como um todo”. Ele ressalta que a entidade realiza diversas ações promocionais e de capacitação de agentes, operadores e profissionais do Turismo, “mas falta, ainda, um plano mais amplo e integrado entre poder público e iniciativa privada com o intuito de trazer mais visitantes, especialmente nos períodos de baixa temporada.”
Calendário permanente
O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (ABAV-BA), Rogério Ribeiro, afirma que manter um calendário permanente de eventos culturais, religiosos, esportivos, gastronômicos, ecológicos, de aventura e de negócios é uma das principais ferramentas para reduzir a sazonalidade.
“A agenda cria um motivo específico para o turista escolher determinada cidade em determinado período, e isso movimenta toda a cadeia: agência de viagens, transporte, hotel, restaurante, guia de turismo, comércio e os serviços locais”.
Os números, ressalta o dirigente da ABAV-BA, mostram que existe espaço para esse movimento. “Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a atividade turística na Bahia cresceu 6,6% em 2025. Em maio daquele ano, por exemplo, o crescimento foi de 12,5% na comparação com maio de 2024. E em 2026 o cenário continua positivo: somente nos dois primeiros meses do ano, a Bahia recebeu cerca de 60 mil turistas internacionais, com crescimento de 13,2% em janeiro e 22,4% em fevereiro.”
Rogério reforça que o calendário de eventos permite ao agente de viagem trabalhar o destino com antecedência, transformando uma festa literária, um festival de música ou um evento religioso em um produto turístico, envolvendo passagem, hospedagem, traslado, passeios e experiências.
Os números de ocupação hoteleira, ressalta, mostram que existe uma diferença significativa entre os períodos de alta demanda e os meses tradicionalmente mais fracos, principalmente no turismo de lazer. “Por isso, defendemos que o calendário turístico seja tratado como uma ferramenta estratégica de desenvolvimento. Não basta divulgar o evento; precisamos transformar o evento em produto turístico e fazer com que as agências de viagens participem dessa comercialização”.
Para aproveitar a diversidade de destinos espalhados nas 13 zonas turísticas da Bahia, Rogério enfatiza que a estratégia é unir evento, promoção, conectividades aérea e rodoviária, hospedagem e comercialização pelas agências de viagens.
“Quando isso acontece, deixamos de ter simplesmente uma festa e passamos a ter um produto turístico capaz de gerar emprego, renda e movimentação econômica para o município”, analisa, destacando que a ABAV apoia ações de captação de eventos e venda de produtos das secretarias estaduais de Turismo e da Cultura.
Interiorização do turismo: importante ação para driblar a sazonalidade do setor
O cenário de fortalecimento do turismo em diferentes regiões das 13 zonas turísticas da Bahia vem promovendo a descentralização do setor e movimentando a economia dos municípios. O presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso, observa que, há pouco mais de duas décadas, o Estado era promovido apenas como destino o litoral. “Lugares como a Chapada Diamantina eram deixados de lado. A interiorização do turismo, então, promove renda e desenvolvimento com melhoria das estradas, instalação de aeroportos e criação de uma infraestrutura necessária para o turista visitar o lugar.”
Ainda que o volume de tributos em pousadas e restaurantes pequenos não seja significativo, o presidente da UPB ressalta que a geração de renda e a empregabilidade têm valor para os trabalhadores desses estabelecimentos. que vivem na cidade. “São essas pessoas que vão, depois, com seus salários, comprar no comércio local, reformar sua casa, sustentar sua família”,

Em Ilhéus, o Festival Internacional do Chocolate e Cacau – Chocolat Festival é um exemplo de interiorização do turismo na Bahia. Considerado o maior evento internacional de cacau e chocolate da América Latina, o evento ocorre no mês de julho, tendo a última edição recebido mais de 90 mil visitantes.
O secretário de Turismo de Ilhéus, Maurício Tavares, afirma que a prefeitura tem adotado uma política pública de elaboração e promoção do calendário turístico anual e integrado, com a distribuição de um material promocional robusto com informações para a comercialização do destino, entregue ao trade e às grandes operadoras do Brasil.
Segundo o secretário, o turismo em Ilhéus como vetor econômico da região vem sendo potencializado pelas políticas públicas criadas pela atual gestão. “O impacto é sistêmico e atinge em cheio a cadeia produtiva do turismo de diversos segmentos, como o de economia criativa, experiência, negócios, rural, étnico, náutico, emprego e oportunidades, com forte aquecimento na contratação de mão de obra temporária e qualificada.”
Além do Festival Internacional do Chocolate e Cacau, a Secretaria de Turismo de Ilhéus apoia eventos consolidados que movimentam toda a cadeia produtiva, cultural e hoteleira, como a Puxada do Mastro e a Lavagem da Escadaria de São Sebastião (janeiro); o Carnaval Cultural (fevereiro); o Meu São João Amado (junho); o Festival de Inovação de Ilhéus (julho); e o Agosto de Jorge e ExpoCacau (agosto), bem como o Ilhéus Run (circuitos de corridas temáticas que atraem corredores de todo o Brasil, ao longo do ano).

Observação de aves
Destino internacional para observação de aves (birdwatching) e de ecoturismo, com dezenas de cachoeiras e trilhas em relevo serrano, o Lajedo dos Beija-Flores, localizado no município de Boa Nova, no Sudoeste da Bahia, abriga parte da biodiversidade da Mata Atlântica e da Catinga.
Esse santuário com mais de 460 espécies de aves atrai apaixonados por fotografia de natureza e a prática de contemplar, escutar e identificar pássaros livres em seu habitat natural. “Transformamos esse lugar em um importante produto turístico para a Bahia”, destaca o secretário de Turismo do Estado, Maurício Bacellar.

O turismo de experiências sensoriais no interior baiano tem como um de seus mais fortes representantes a Rota dos Cafés Especiais do Planalto da Conquista, lançada pela Secretaria de Turismo do Estado (Setur-BA), em parceria com prefeituras locais. O roteiro de 54 quilômetros é integrado a 22 fazendas de agroturismo entre Vitória da Conquista e Barra do Choça, oferecendo vivências sobre o cultivo, colheita e degustação de cafés premiados, ou seja, do grão até o café na xícara, com variedades como Catuaí, Bourbon e Topázio.
Rota de turismo religioso, o Caminho Diamantino de Santa Dulce dos Pobres compreende 135 quilômetros que liga sete municípios da Chapada Diamantina, incluindo Mucugê e Boa Vista do Tupim. Nesse destino, o visitante une fé católica, trilhas na natureza e apoio às comunidades locais.
“O trajeto expande a tradicional peregrinação local de Boa Vista do Tupim em um grande roteiro regional estruturado pelo governo estadual, em parceria com as prefeituras”, explica o gestor da pasta de Turismo do Estado.
Em Mucugê, o turismo é estimulado durante o ano todo, a partir da criação de um calendário ativo de janeiro a dezembro, com eventos que vão do esporte, com corridas de mountain bike e trekking, passando pela literatura com a Feira Literária de Mucugê (Fligê), que foi encerrada nesse último domingo, e pela música, com o Festival de Corais.
“Conseguimos, assim, trazer visibilidade nacional à nossa cidade, garantindo um fluxo de turismo constante, movimentando a nossa economia, ofertando trabalho, contribuindo com o setor privado e difundindo todos os potenciais do município”, afirma a prefeita Ana Medrado.
A gestora conta que a dedicação ao turismo na cidade visa proporcionar aos visitantes “experiências e memórias inesquecíveis” com o que o município produz de melhor, como o São João e o Festival de Forró. “Temos a compreensão da importância de valorizarmos e fortalecermos a identidade cultural local, de aproveitarmos nossos relevos e belas paisagens, nossa terra com inúmeros potenciais produtivos e de enaltecermos um grande diferencial da nossa população.”
A economia criativa, completa Ana Medrado, também recebe o apoio municipal, tendo em vista a qualidade da terra e o roteiro das frutas vermelhas. “Essa atividade conta com o nosso incentivo e divulgação para figurar entre mais um dos nossos grandes atrativos”, relata, destacando que incluiu na programação cultural de Mucugê a visitação da Vinícola UVVA, “que atrai visitantes do mundo inteiro, amantes de um vinho que se destaca pelo seu terroir diferenciado.”
Rio de Contas, na Chapada Diamantina, também passou a integrar, oficialmente, a vitrine de roteiros diversificados e ampliados da Setur-BA, com destaque para o ecoturismo, a herança histórica e o turismo de base comunitária.

Dentre as ações voltadas a novas experiências está o famtours (viagens de familiarização com agentes de viagens e operadores para comercializar os produtos locais do destino). A qualificação profissional visando elevar o padrão dos serviços oferecidos no município conta com o suporte do Programa Qualiturismo Bahia, com a oferta do curso de Camareira/Arrumação, Limpeza e Higienização, realizado pela prefeitura, em parceria com o governo estadual.
Já os municípios de Cipó, conhecido pelas suas águas termais medicinais, e Jandaíra, que abrange o famoso distrito de Mangue Seco, também estão no radar da Setur-BA para o fomento de rotas locais. Cipó, no caso, recebeu ações para a elaboração de diagnósticos e planos de melhoria na infraestrutura turística e atendimento ao visitante. Em Jandaíra, o órgão estadual promoveu a inserção de novos roteiros para atrair operadores de viagens e incrementar o fluxo de turistas na região.









