“EU DEVO TUDO À MAR GRANDE–SALVADOR”
Aos 70 anos, Desirée cruzará sozinha Mar Grande-Salvador encerrando um ciclo
Nadadora histórica da prova, Desirée Dalia fará neste domingo, 25, uma travessia solo entre Mar Grande e Salvador

Por Iarla Queiroz

Neste domingo, 25, Desirée Dalia, de 70 anos, entrará no mar para uma travessia diferente de todas as outras que já realizou. Fora da edição oficial da Mar Grande–Salvador, a nadadora fará o percurso sozinha, em um roteiro especial de ida e volta, como homenagem à prova que marcou sua história no esporte.
A proposta não é competir, nem disputar posições. A travessia tem caráter simbólico e pessoal. Segundo Desirée, o objetivo é encerrar um ciclo construído ao longo de mais de três décadas de relação com a Mar Grande–Salvador.
“Eu devo tudo à Mar Grande–Salvador. Tudo vem dela”, resume.
A prova que molda atletas — e vidas
Disputada há décadas na Baía de Todos-os-Santos, a Travessia Mar Grande–Salvador é reconhecida como uma das provas mais desafiadoras das águas abertas no mundo. São mais de 12 quilômetros entre a Praia do Duro, em Mar Grande, e o Porto da Barra, em Salvador, enfrentando correntezas intensas e mudanças constantes do mar.
Para Desirée, o desafio sempre foi mais do que físico.
“Ela me deu resiliência. Você acha que está chegando, vem uma maré e puxa para trás. Não chega. Tem que continuar nadando”, explica. Segundo a nadadora, a dinâmica da prova influenciou diretamente sua forma de tomar decisões e lidar com obstáculos fora do esporte.

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Do acaso à natação de alto rendimento
Formada em Economia, Desirée iniciou sua relação com o esporte ainda na corrida de rua, participando de provas em diversos estados e de várias edições da São Silvestre. A natação entrou em sua vida em 1984, de forma inesperada, durante uma competição no Norte-Nordeste.
“Perguntaram quem sabia nadar. Eu disse que sabia”, relembra. Sem técnica apurada, mas com aptidão física, começou nadando provas curtas. O desempenho evoluiu rapidamente, impulsionado pela confiança de seus treinadores, até que o esporte passou a ocupar papel central em sua vida.

A primeira Mar Grande–Salvador e a virada
A estreia na Mar Grande–Salvador aconteceu em 1991 e foi marcada por condições extremas. Uma tempestade reduziu drasticamente o número de concluintes, especialmente entre as mulheres.
“Quando terminei, eu disse que nunca mais faria uma Mar Grande–Salvador”, conta.
A promessa não se sustentou. A partir dali, a travessia passou a ser presença constante em sua trajetória esportiva.
A atleta comentou sobre o a diferença de idade entre os outros competidores, reforçando que idade não é um obstáculo. "Eu fiz a travessia com 36 anos e era a mais velha. Até hoje, fiz com 65, 66, 67, 68 e continuo sendo mais velha", relembra.

Recordes, títulos e longevidade esportiva
Desirée Dalia é hoje a recordista da Travessia Mar Grande–Salvador, com 29 participações e 25 títulos de categoria. Em 2023, aos 68 anos, ficou em 3º lugar no geral master feminino. Em provas de piscina, é recordista brasileira e sul-americana nos 1.500 metros livre, além de recordista baiana em diversas modalidades.
Mesmo após os 60 anos, manteve desempenho de alto nível, figurando entre as melhores colocações em provas de longa distância, como a Travessia Itaparica–Mutá, onde completou 16 km em pouco mais de cinco horas.

Como será a travessia solo deste domingo
A travessia de Desirée está prevista para começar às 3h, com concentração às 2h30, no Porto da Barra. O percurso será realizado em aproximadamente oito horas, com ida e volta entre Salvador e Mar Grande.
Serão duas embarcações de apoio: uma técnica, com o professor Rogério Arapiraca — ex-técnico da seleção brasileira e de atletas como Ana Marcela Cunha e Allan do Carmo — e outra com suporte médico, equipe de emergência e apoio pessoal. A travessia contará ainda com transmissão ao vivo.

Encerramento de ciclo e legado
Dona da Academia Dalia Acqua Sport há 28 anos, professora de Educação Física e referência na formação de atletas de águas abertas em Salvador, Desirée afirma que a travessia deste domingo simboliza um fechamento consciente de etapa.
“Eu não pretendo fazer a Mar Grande–Salvador para sempre. Eu queria saudar a travessia”, afirma.
Aos 70 anos, Desirée Dalia não atravessa o mar para competir. A travessia, agora, é sobre reconhecer a importância de uma prova que ultrapassou o esporte e se tornou parte central de sua história.

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