DE LEITOR A REMADOR
Brasileiro que repetiu feito de Amyr Klink detalha travessia de 136 dias no Atlântico
Raphael Garcia construiu o barco, partiu da Namíbia e chegou a Salvador, repetindo a travessia


Antes de passar 136 dias sozinho em um pequeno barco a remo no meio do Atlântico Sul, Raphael Garcia nunca tinha remado. Nunca havia visto de perto um barco daquele tipo e, fora as idas à praia durante o verão, nem sequer tinha experiência com o mar, chegando a enjoar com o balanço das ondas.
Mesmo assim, no dia 8 de abril de 2026, deixou Lüderitz, na Namíbia, a bordo do Sater, e começou uma travessia que terminaria somente quatro meses e meio depois, na Bahia Marina, em Salvador.
No sábado, 22 de agosto, a viagem chegou ao fim depois de 136 dias. Nos momentos finais, porém, Raphael teve pouco espaço para comemorar antecipadamente: para vencer as correntes na entrada da Baía de Todos-os-Santos, remou por cerca de 36 horas praticamente sem parar.
Separados por 42 anos
Quando finalmente subiu no píer, tendo escrito sua própria história nas águas, encontrou uma surpresa no cais - Amyr Klink, que fez em 1984 a travessia que inspirou toda a história de Raphael, estava à sua espera.
"Foi, digamos, a cereja no topo do bolo da viagem. Coroou a viagem da melhor maneira possível. Eu jamais imaginaria que ele viria aqui para se encontrar comigo", conta Raphael.
O encontro ligou duas viagens separadas por 42 anos. Em 1984, Amyr saiu do mesmo porto de Lüderitz e atravessou sozinho o Atlântico Sul em um barco a remo, chegando à Praia da Espera, em Itacimirim, depois de aproximadamente 100 dias.
Na época, Amyr transformou a experiência no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, que inspirou diversos aspirantes a remadores a pensarem em tentar a travessia. Um deles, Raphael, que hoje é o primeiro a conseguir refazer o percurso.

As primeiras páginas
Nas palavras do próprio Amyr, Raphael não foi o primeiro nem será o último a ler o livro e querer tentar a travessia. Em seu escritório, em São Paulo, o navegador já recebeu algumas dúzias de jovens que leram os 100 Dias e quiseram refazer a viagem.
Muitos interessados chegavam com planos de divulgação, patrocínio e equipe, mas sem o elemento principal: o barco. Raphael, no entanto, começou valorizando as coisas certas.
"O Rafael fez uma coisa bacana. Ele, quietinho, na Nova Zelândia, fez o barco, trouxe, levou exatamente para o mesmo cais de onde eu saí, e eu torço para que ele tenha uma chegada feliz. Ele mostrou que tem competência", afirmou.

Para o próprio Raphael, a ideia foi amadurecendo aos poucos. A ideia surgiu do livro, mas foi refletida por cerca de quatro meses até que ele decidiu estabelecer um prazo para estudar o projeto e começou a escrever um documento.
"Eu falei: 'bom, preciso de um plano'. Em algumas horas, eu já tinha várias páginas escritas de pesquisa, um rascunho. E aí a ideia foi tomando forma", contou.
"Conforme eu desmembrei o desafio, vi que tinha umas áreas em que eu ia ter que aprender várias coisas, porque eu não sabia. Eu nunca tinha remado, eu nunca tinha estado no mar", relatou.
Uma das descobertas decisivas foi a navegação celestial. Mesmo em uma expedição realizada em plena era do GPS, Raphael decidiu aprendê-la como recurso de segurança.
"Quando eu comecei a estudar navegação celestial, se eu não me engano, foi um dos momentos decisivos em que eu falei: 'eu gostei muito disso, e essa viagem vai acontecer'", relembrou.

A ausência de experiência marítima não significava, porém, que Raphael fosse completamente estranho a desafios de longa duração. Aos 21 anos, realizou sozinho uma viagem de bicicleta de 1,5 mil quilômetros em torno da Tasmânia, na Austrália. Foram 43 dias pedalando, com paradas em parques para fazer trilhas antes de seguir viagem.
"Eu pedalava uns 80, 100 quilômetros por dia. Você vai se movendo com o seu corpo, e dura bastante. Quarenta e três dias pedalando é bastante tempo", lembrou.
Naquela ocasião, a experiência também começou praticamente do zero: "Eu sabia pouquíssimo de bicicleta. Eu nunca tinha trocado um pneu e, para você ter noção, eu não sabia nem usar as marchas da bicicleta direito. Eu só fui, tinha um sonho grande e acabei indo. E fui muito feliz na viagem".
No ano seguinte, em 2015, veio outro desafio: aproximadamente 3 mil quilômetros entre Bariloche e Ushuaia, na Patagônia, percorridos em 75 dias. No caminho, Raphael fazia trilhas que chegavam a durar uma semana.
A Patagônia adicionou frio, chuva, vento e isolamento à experiência. "Fisicamente, essa viagem demandou muito mais que a da Tasmânia. Foi um desafio físico muito maior do que mental. E, como essas viagens deram certo, eu tinha muita confiança em fazer essa viagem a remo", disse.
Havia, porém, uma diferença fundamental: "São viagens parecidas, apesar de que no mar você não tem parada. Você está cansado viajando de bicicleta, você para, desce da bicicleta e acabou. Se você quiser desistir, você para em qualquer momento. No mar você não tem essa escolha".
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Aprender a remar sozinho
Assim, Raphael decidiu dividir a preparação em pilares: a construção do barco, a familiarização com o mar, a preparação física e o aprendizado do remo. O primeiro grande receio apareceu justamente durante esse processo: o enjoo.
"Eu enjoo muito fácil. Não precisa nem ter onda, eu já enjoo muito. Sou uma das piores pessoas que eu conheço para enjoar", contou. Ele estudou causas, adaptações, medicamentos e a possibilidade de o organismo se acostumar à movimentação.

No processo, uma conversa com o próprio Amyr ajudou: "Um conforto muito grande que me deu foi quando eu conversei com o Amyr Klink e ele mesmo falou que o enjoo é temporário, que depois de alguns dias ele passaria".
Raphael fez um curso de vela e começou a realizar pequenas viagens costeiras pela Nova Zelândia, onde vive. A preparação marítima culminou em uma travessia offshore entre a Nova Zelândia e Tonga.
"Levamos muito mais tempo do que precisava, tivemos vários perrengues. Mas para mim foi uma preparação muito boa", contou.
Aprender a remar, por outro lado, foi mais improvisado. Ele tentou ingressar em clubes de remo na Nova Zelândia, mas não conseguiu. Comprou então um barco costeiro, um livro sobre remo olímpico e encontrou vídeos na internet.
"Eu instalei uma GoPro no barco e ficava me assistindo. Eu me autoavaliava com o que eu tinha aprendido e tentava melhorar mais e mais a cada semana", disse.
Sem treinador, desenvolveu uma lógica própria: "Eu tinha uma ideia de que, se eu conseguisse remar por muito tempo sem ter lesões, eu conseguiria cruzar o Atlântico, por mais que eu não fosse muito eficiente".
O barco perfeito
Planos feitos, treinamento em curso, era hora de fazer o barco. O Sater, batizado em homenagem ao cantor Almir Sater, precisava sobreviver ao tipo de situação em que um pequeno erro pode significar o fim da travessia.
Uma das características fundamentais era a capacidade de se desvirar caso capotasse, e para isso, Raphael utilizou como referência justamente a embarcação de Amyr. O desenho curvado e com extremidades pontiagudas permitia que o barco recebesse melhor as ondas.
Funcionou: em toda a viagem, Raphael não capotou nenhuma vez. Além disso, também era necessário planejar a entrada de água. A região onde o remador permanece foi projetada para drenar o líquido e a embarcação foi dividida em compartimentos isolados.

"Se entra água num compartimento, ele é isolado dos outros. Não vai afetar o resto do barco", explicou. Entre 1984 e 2026, contudo, talvez nenhuma transformação seja tão grande quanto a capacidade de saber exatamente onde o remador está.
Raphael consultava o GPS diariamente, às vezes de hora em hora, para compreender o efeito das correntes e corrigir imediatamente o curso.
"Eu sei exatamente onde estou e consigo ver se estou remando na direção certa, se a corrente está me levando 20 graus ao norte de onde eu quero ir. Você consegue ser muito mais ativo do que reativo", disse.
"Ele (Amyr) fazia navegação celestial quando conseguia, quando o mar permitia, quando o céu permitia. Talvez isso acontecesse uma semana depois de ele querer. Às vezes ele ficava uma semana sem saber onde estava", refletiu.
Há ainda dispositivos de emergência capazes de transmitir um sinal por satélite a centros internacionais de resgate. Se acionasse o equipamento em uma situação de perigo real, explica Raphael, a solicitação poderia chegar à Nova Zelândia, onde estava registrado, e ser encaminhada aos responsáveis pela área na África do Sul ou no Brasil.
"Você ter esse conforto eu acho uma das principais diferenças. Hoje, qualquer coisa que você joga no Google, você tem a resposta. Na época do Amyr isso não existia", apontou.

Hoje, Amyr acredita inclusive que o excesso de comunicação pode criar problemas próprios. "Eu acho que temos um perigo, que é o excesso de conectividade, que acaba gerando ansiedade, expectativa", opina.
Amyr também vê na escassez uma marca decisiva de sua geração. Quando saiu da África, não havia GPS, rastreadores ou equipamentos modernos de dessalinização. Por isso, segundo ele, muito do aprendizado vinha de imaginar antecipadamente o que poderia falhar.
"No mar, mais importante do que aprender com exemplos de sucesso é aprender com os erros, principalmente dos outros, porque barco é um bicho que afunda. Então você não tem espaço para errar muito", afirma.
Foi estudando naufrágios e travessias fracassadas que Klink percebeu que os grandes problemas raramente eram os que habitavam o imaginário popular.
"As razões não eram as tempestades, a fúria do oceano, a exaustão física. Eram falhas de planejamento, de preparação simples", diz.
Tempestades, umidade e a corrente de Benguela
Uma vez no mar, então, Raphael tinha mais possibilidades de abandonar a travessia do que Amyr - mas garante que não cogitou. "Eu não desistiria da viagem, a não ser que eu estivesse quase morrendo", afirmou.
Assim, ele se manteve firme do início ao fim, vivendo na prática os desafios de sua própria história. As primeiras semanas, ao deixar a região da corrente de Benguela, foram as piores.
"Tive muitas tempestades. Às vezes eu tinha duas tempestades na mesma semana, então tinha pouquíssimos dias para remar entre elas", relembrou. Algumas duravam quatro ou cinco dias. Raphael permanecia confinado na cabine, sem conseguir remar.
"E tudo vai ficando úmido. Sua roupa, você mesmo, papéis, mochilas, tudo que você tem ali vai umedecendo, vai molhando. E você não pode fazer nada", conta.

Quando finalmente conseguia sair da cabine, havia poucos dias até a chegada de outra frente ruim. O vento o empurrava para o norte enquanto ele precisava avançar para noroeste, e ao corrigir o barco, passava a receber ondas de dois ou três metros lateralmente.
"É muito difícil remar. O seu progresso é muito devagar. As correntes te jogam para cima, então você não progride muito para oeste. É muito fácil sair da rota", diz.
Inimigo e amigo em um só
O desafio, então, era se relacionar com o maior adversário durante os 136 dias - o próprio Atlântico. "Em muitos momentos foi o mar. Você tem uma impressão de que ele está tentando te matar a qualquer momento. Você não pode se acomodar, não pode se distrair, porque ele cria situações para te pegar a todo momento", diz.
Mesmo em dias relativamente tranquilos, uma onda isolada poderia surgir e virar o barco ou inundá-lo. "Eu diria que o meu maior amigo também foi o mar, porque foi ele que me proporcionou toda essa viagem, tudo que eu vi foi o mar também. Então foi uma relação de ódio e amor", explicou.
A solidão, por outro lado, praticamente não apareceu, como o próprio Amyr também sentiu. Antes da viagem de 1984, Klink imaginava que o ponto central do oceano seria também o momento de maior isolamento. Quando finalmente atravessou a metade da carta do Atlântico, percebeu o contrário.
"Eu falei: 'nossa, eu nunca estive tão perto dos amigos que eu tenho dos dois lados do oceano'. Era o momento da equidistância entre os amigos que eu deixava e os amigos que eu ia reencontrar", lembra.
Para ele, atravessar também significa caminhar de um grupo de pessoas em direção a outro: "Em toda travessia você deixa uma parte das pessoas que você conhece para trás e caminha de encontro a outra parte. Essa é uma sensação recorrente, eu acho, para todo mundo que faz uma travessia".

E foi justamente o que aconteceu com Raphael. "Eu não tenho muito problema em passar muito tempo comigo mesmo. Consigo me distrair bem comigo mesmo", disse.
Raphael não levou música nem podcasts, embora outras pessoas tenham recomendado. Enquanto remava, deixava a cabeça seguir caminhos próprios.
"Ficava pensando em várias coisas. Escrevia o meu livro mentalmente, depois fazia as anotações à noite. Às vezes ensaiava algumas palestras na cabeça e deixava a mente pensar no que quisesse", lembra.
Nas tempestades, lia. Levou seis livros e terminou todos, entre as histórias que vivia com outras companhias. "Eu vi golfinhos, tartaruga, baleia, tubarão, peixe-lua, peixe-espada. Vi muito, muito bicho", lembra.
Depois de aproximadamente um mês, conta, o desconforto inicial desapareceu: "Você tem que fazer do mar sua casa e se acostumar que vai se encher de sal, se encher de água. Você não tem muito do que fugir. Esse é o ambiente".
Oito famílias de baleias
Uma vez feito casa, o mar passou a oscilar como alguém a quem se ama mas, por outro lado, com quem se convive a todo tempo. Hostil e, ao mesmo tempo, maravilhoso, entregando a Raphael os momentos que ele considera mais extraordinários da viagem.
Ele encontrou oito grupos de baleias, e em uma das primeiras aparições, os animais passaram repetidamente pelo Sater. "Elas ficavam indo e voltando e passando muito perto do barco. Meio que, de certa forma, queriam me conhecer ali, saber o que estava acontecendo", lembra.
Na última passagem, calcula Raphael, uma baleia chegou a cerca de dez centímetros da embarcação: "Você ter um animal tão gigantesco, de 15, 20 metros, perto de você, e você ser um ser insignificante ali... elas podem fazer o que quiser com você".
"Ver baleias de perto, num momento frágil num barco a remo, talvez seja uma das coisas mais especiais que pode acontecer na sua vida", diz.

Nos dias calmos, a experiência assumia outra dimensão. Raphael havia projetado uma embarcação baixa justamente para poder observar o mar durante as longas jornadas de remo.
Em um barco a remo, o corpo olha para trás enquanto a embarcação avança na direção oposta. Assim, em manhãs sem nuvens, ele assistia ao sol nascer enquanto remava.
"Você tem o céu completamente azulado, o mar também com azul mais escuro, e aí nasce aquela bolota vermelha no horizonte, sem mais nada. Só está você ali num barco a remo. Você se sente o rei do Atlântico", sorri.
O corpo depois de 136 dias
Entre ódios e amores, então, o oceano deixou suas marcas. No início da viagem, Raphael remava cerca de oito horas por dia. Depois passou a dez, e por fim, chegou a 12 horas diárias.
Na reta final, foram 36 horas. "Minha mão, mais ou menos depois de alguns meses, assumiu o formato natural de quando você rema, que é sua mão fechada. Parece uma mão de águia fechada, segurando um peixe. Quando eu durmo, esse é o formato que minha mão agora fica. Vou ver se consigo reverter isso", percebe.
As pernas sofreram o efeito contrário: "Você não anda no barco. Você não consegue andar. Se conseguir dar um passo, o barco já acaba". Apesar do uso das pernas no movimento do remo, panturrilhas e coxas perderam volume.
Enquanto isso, braços, abdômen e tronco ficaram mais fortes. O corpo também escureceu depois de meses exposto ao sol, diferentemente da época de Amyr, justamente pelas várias transformações ambientais.

"Há 20 anos, 30 anos, não tinha ocorrência estatística de ventos acima de 100, 110 nós. Hoje é super comum. Há 30 anos eu passava dias e dias trabalhando no barco na Antártica sem camisa. No sol. Ou pelado, às vezes. Hoje, se você ficar uma hora com a pele exposta, é hospital", diz Amyr.
"Eu nunca usei, na travessia há 40 anos, nem creme. Hoje, se você não passar um protetor solar, não dá, resume.
As dores, por sua vez, eram constantes para os dois. Um problema na região posterior da coxa fez com que Raphael, algumas vezes, interrompesse o movimento para tentar massagear ou até golpear a própria perna.
"Muita dor na mão, dor na perna. Mas você tem que ignorar completamente. Você não tem opção, você tem que continuar. Então tem que ignorar essas dores", afirma.
A alimentação era baseada em comida desidratada. No início, quase não sentia fome. No final, precisava se controlar: "Eu comia igual um leão. Tinha que me controlar para não comer a comida dos outros dias".
Dormir também nunca foi fácil. Para evitar entrada de água, a cabine precisava permanecer fechada, fazendo com que ele se sentisse sufocado na parte de dentro.
Raphael acordava em intervalos de uma ou duas horas, mas diz não ter sentido exaustão provocada pela falta de sono. "Por mais que eu não dormisse, sempre que conseguia dormir era um sono muito profundo", lembra.
O último obstáculo
Raphael remou em direção ao fim, e encontrou nele a pior provação, como o próprio Amyr já havia previsto. Enquanto Raphael ainda estava no mar, Klink explicou ao A TARDE que o litoral norte da Bahia oferece poucos pontos realmente protegidos para a aproximação de uma pequena embarcação.
"É o último dia no mar, é a parte mais tensa de uma travessia num barco a remo, porque você tem que chegar num lugar abrigado", disse. A preocupação tem raízes na própria viagem de 1984. Ao estudar outros remadores, Klink se decepcionava com navegadores que completavam a distância oceânica, mas terminavam rebocados antes de encostar efetivamente em terra.
"Ele não fez o ato final da obra dele, que seria jogar a âncora na areia, descer em pé ou amarrar o barco num cunho", conta, ao lembrar o francês Gérard d'Aboville, uma de suas referências.
Isso influenciou diretamente o próprio projeto: "Foi uma das coisas que mais me motivou a chegar num lugar onde tivesse outros barcos, chegar num lugar seguro, jogar o ferro, ver que unhou, e aí sim descer na areia".

Raphael descobriria por conta própria a dificuldade de completar esses últimos quilômetros. "Eu levei quase três dias para conseguir entrar na Bahia, porque os ventos e as correntes me jogavam para cima", lembra.
Durante o dia, avançava. Depois, era novamente deslocado. "Quando eu estava quase chegando, a corrente me jogava para cima. E eu não conseguia progredir", disse.
A solução apareceu quando o vento finalmente virou: "Percebi que eu teria que remar de noite, porque aí eu anulo o efeito da corrente".
Raphael havia acordado por volta das quatro da manhã, e remou praticamente todo aquele dia. Ao perceber, no pôr do sol, que finalmente tinha vento favorável, decidiu não parar mais.
"Eu percebi que, remando sem parar até o dia seguinte, conseguiria terminar a viagem. Foi o que eu fiz", contou. Assim ele se seguiu por cerca de 36 horas, até que chegou à Bahia Marina um pouco antes do meio-dia.
"Agora eu sei por que ele não fez de novo"
Quando Raphael enfim encontrou Amyr, comentou uma dúvida que havia carregado durante parte da viagem. Durante anos, se perguntou por que alguém que havia vivido experiência tão extraordinária não escolhera repeti-la.
A resposta apareceu no próprio Atlântico: "É uma viagem muito demandante. Ela demanda muito de você. Às vezes você acorda e não quer remar. E você tem que remar. Dia calmo ou dia bravo, você tem que remar todo dia".

Raphael percebeu também o preço físico. "Ela destrói um pouco do seu corpo. Você fica muito cansado e tem que continuar", disse.
Por isso, ao encontrar Klink no píer, brincou que finalmente entendia. Para Amyr, a repetição da rota por Raphael provocou outro sentimento.
"Eu fico lisonjeado quando alguém se inspira. Muita gente fala: 'fui morar em Paraty por sua causa, me tornei velejador por sua causa'. É bacana quando um projeto que na época foi muito questionado, polêmico, serve de inspiração para os outros", conta.
Passageiro do mar
Depois de 136 dias, Raphael chegou com dores nos dedos, unhas descolando e dificuldade para fechar completamente as mãos - mas chegou bem.
"O principal sentimento foi de alívio e alegria muito grande de chegar, de ter conseguido chegar bem, sem grandes problemas, com saúde. A chance de a viagem não dar certo é muito grande", diz.
"Tem muitos detalhes, muita coisa pode dar errado. Você pode sair da rota e não conseguir voltar, ser atropelado por navios ou algum equipamento crucial quebrar", completa.
Ao olhar para a pessoa que entrou no Sater em Lüderitz e aquela que desembarcou em Salvador, Raphael escolhe uma mudança menos física - a paciência.

"Eu ficava muito nervoso no começo da viagem, bravo de não conseguir remar, de ter muitas tempestades. E aí percebi que não adiantava ficar bravo, porque nada ia mudar", lembra. Assim, ao longo do oceano, deixou de tentar impor seu calendário.
"Eu era muito mais um passageiro ali, pedindo passagem para o mar, do que um motorista", conta. Foi justamente essa lição que precisou colocar em prática na entrada da Bahia, quando passou quase três dias sendo empurrado para longe de onde queria chegar.
"É o principal de tudo: você ter paciência. Uma hora as coisas mudam e os ventos viram a seu favor", diz.
Quarenta e dois anos antes, Amyr havia aprendido algo semelhante. Para ele, o oceano exige antes de tudo que o navegador aceite não ser a autoridade daquele ambiente.
"É um processo onde a gente tem que ser humilde e observador. E onde a gente é o tempo inteiro um aprendiz, e não um professor ou doutor", afirma.
Raphael chegou à mesma conclusão por outra rota. Depois de 136 dias tentando avançar para oeste, descobriu que, no fim das contas, atravessar o Atlântico significava resistir, fazer do mar sua casa e, enfim, saber esperar que o próprio oceano permitisse a passagem.


