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"MEU OXIGÊNIO É A MOTO"

Especialista das motos: conheça o baiano mecânico e piloto de Enduro

Ricardo Neto foi campeão do Campeonato Brasileiro de Enduro de Regularidade e agora mira o Graduado

Marina Branco
Por
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Muitos motociclistas que vivem pelas ruas das cidades veem suas motos como meios de transporte. Alguns outros, no entanto, têm a motocicleta como parte de sua própria identidade.

Para Ricardo Neto, a relação com as duas rodas começou ainda na infância, no interior da Bahia, e atravessou todas as fases de sua vida. Com o tempo, virou esporte, profissão, negócio e, hoje, combustível para um projeto esportivo que mira voos ainda maiores.

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Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Filho de caminhoneiro, Ricardo cresceu cercado pelo universo dos motores. Carros, caminhões e motocicletas sempre despertaram seu interesse, mas foi a convivência com a bicicleta e os esportes radicais que o aproximou definitivamente do mundo off-road.

"Eu era apaixonado por automobilismo. Meu pai era caminhoneiro, eu sempre fui envolvido com caminhão, carro e moto. Minha paixão era motor. Quando tinha um evento de trilha na minha cidade e eu via aquelas motos, aquilo era um sonho. Eu pensava: um dia vou andar em uma moto dessa", conta.

Na adolescência, enquanto praticava mountain bike em Maracás, passou a conviver com grupos de trilheiros da região. Aos 15 anos, fez a transição definitiva para as motocicletas. Primeiro vieram as manobras radicais, conhecidas como wheelie, depois, as trilhas e, em seguida, as competições.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Moto como profissão

Ao se mudar para Salvador em busca de estudo e oportunidades profissionais, Ricardo encontrou justamente nas motocicletas sua porta de entrada para o mercado de trabalho.

Seu primeiro emprego foi em uma concessionária do setor, onde durante anos, construiu experiência técnica e gerencial até se tornar gestor de concessionária. Paralelamente, aprofundava sua participação no universo off-road e conhecia pilotos que já disputavam competições na capital baiana.

Assim, a paixão foi crescendo em duas frentes simultaneamente, dentro e fora das pistas. "Eu costumo falar que respiro moto. Acordo pensando em moto. O dia inteiro é moto. Às vezes minha esposa reclama porque eu passo o dia trabalhando com isso e, quando chego em casa, continuo vendo vídeos sobre moto", brinca.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Hoje, Ricardo é proprietário de uma oficina especializada e atua como profissional da mecânica em suspensões off-road, área considerada uma das mais importantes para o desempenho e a segurança de uma motocicleta em terrenos irregulares.

Sua formação inclui especializações pela Race Tech e pela WTech, referências nacionais no segmento. "Não existe velocidade sem controle. E quem controla a moto é a suspensão. Uma suspensão bem preparada representa 70% ou 80% da segurança do piloto", explica.

"Como eu sou piloto e preparador, consigo unir a sensibilidade da pista ao conhecimento técnico. Quando sinto alguma necessidade na moto, consigo entender exatamente o que precisa ser ajustado", conta.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Esse domínio mecânico, claro, transcendeu os serviços e se transformou em um diferencial competitivo. Enquanto muitos atletas dependem exclusivamente de equipes técnicas para interpretar o comportamento da motocicleta, Ricardo consegue compreender e ajustar o equipamento a partir da própria experiência prática.

Empilhando medalhas

O ingresso oficial de Ricardo nas competições aconteceu em 2018, e logo em sua primeira temporada no Enduro, Ricardo conquistou o título da categoria. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos nos campeonatos estaduais e nacionais.

Entre os principais resultados da carreira estão o título no Enduro FIM, pódios consecutivos no Campeonato Baiano de Regularidade nas categorias Novato, Intermediário e Graduado, além da conquista de uma etapa do Campeonato Brasileiro de Enduro de Regularidade.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Com diversos troféus e medalhas, Ricardo evoluiu por várias categorias, saindo da Novato, passando pela Intermediária e alcançando a Graduado, considerada a porta de entrada para a elite do esporte.

"Ser campeão da Graduado significa subir para a Elite como campeão. É o sonho de qualquer piloto que está nessa fase da carreira", afirma. O resultado mais marcante de sua carreira veio justamente nessa categoria, em uma etapa do Campeonato Brasileiro disputada em Senhor do Bonfim.

A prova exigiu dois dias de competição, aproximadamente 300 quilômetros percorridos e um terreno extremamente técnico, repleto de pedras e obstáculos naturais. "Foi uma prova muito dura. Exigia resistência o tempo inteiro. Eu consegui vencer os dois dias de competição. Foi uma das conquistas mais importantes da minha carreira", conta.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Outra lembrança marcante aconteceu em Aracaju, durante uma etapa sob chuva intensa em que o percurso precisou ser alterado e diversos pilotos acabaram se perdendo no trajeto, incluindo Ricardo, que ficou isolado em uma área de difícil acesso por várias horas.

"Foi uma situação em que precisei ter muito controle emocional. Eu já estava exausto, cansado, sem saber exatamente onde estava. Consegui sair daquela situação e terminar a prova. É uma experiência que nunca esqueci", relembra.

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Lesões e persistência

A carreira, no entanto, também foi marcada por momentos difíceis fora das pistas. Em 2020, durante um treinamento, Ricardo sofreu uma fratura no úmero esquerdo, e a gravidade da lesão chegou a gerar dúvidas sobre a recuperação completa dos movimentos necessários para pilotar.

"Foi meu primeiro acidente realmente grave", lembra. O período de recuperação exigiu meses de fisioterapia e dedicação, e pouco tempo depois de retornar, uma nova lesão surgiu. Desta vez, uma fratura na clavícula.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

"No primeiro acidente, todos me incentivaram a voltar. No segundo, houve resistência. Minha família ficou muito preocupada e não queria que eu retornasse, mas pessoalmente, nunca pensei em desistir. Sempre pensei que iria voltar", garante.

O retorno foi tão significativo que acabou eternizado na pele: Ricardo fez uma tatuagem em homenagem à recuperação e à volta às pistas. "Era uma forma de marcar aquele momento. Eu tinha a possibilidade de não voltar a andar de moto, mas consegui", celebra.

Família nas pistas

A vontade de voltar, para ele, era tanto pela paixão pelo esporte e pela moto, quanto pela família que encontrou no Enduro, que deu a ele amizades duradouras e aproximou famílias inteiras.

Um dos exemplos mais marcantes aconteceu durante a disputa de um campeonato em 2019, em que ele brigava diretamente pelo título com outro piloto. A rivalidade, porém, nunca ultrapassou os limites da competição.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

"Hoje ele é um dos meus melhores amigos. A gente disputava o campeonato, mas sempre houve respeito. O vínculo que criamos ficou para a vida", conta.

No ambiente do Enduro, é comum encontrar pais e filhos competindo em diferentes categorias, famílias acompanhando as etapas e amizades construídas ao longo de décadas.

"O Enduro agrega muito a família. A gente conhece pessoas que acabam se tornando amigos para a vida toda", comenta.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

Esse apoio também vem de casa, de diversas formas. Enquanto a mãe acompanha as competições com ansiedade, a esposa, Carol, tornou-se uma das maiores incentivadoras da carreira.

"Minha mãe prefere nem saber quando estou correndo. Ela só quer que eu mande uma foto quando a prova termina. Já minha esposa me apoia muito, me incentiva a treinar e ainda cobra resultado depois das corridas", conta.

Próximos passos

Atualmente, Ricardo concentra suas atenções no Projeto 2026, iniciativa que tem como principal objetivo a conquista do Campeonato Baiano de Enduro de Regularidade na categoria Graduado.

Para ele, conquistar esse título seria um passo definitivo rumo à Elite da modalidade, já mirando em ampliar sua presença no cenário nacional. Depois de conquistar uma etapa do Brasileiro em Senhor do Bonfim, ele pretende disputar uma temporada completa da competição.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação

"Meu objetivo é ser campeão também no Brasileiro. É um campeonato longo, exige logística, deslocamentos por várias cidades do país e muita organização, mas é o próximo passo", sonha.

Para quem começou observando motos passarem pelas trilhas de uma pequena cidade do interior baiano, a jornada já parece extraordinária - mas Ricardo ainda acredita que o melhor está por vir.

"Hoje eu vivo aquele sonho que eu tinha quando era criança. Vivo isso dos dois lados: como profissional e como piloto. Meu oxigênio é a moto", diz.

Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade
Ricardo Neto, piloto de Enduro de Regularidade - Foto: Divulgação
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Enduro moto Motociclismo

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