
Por Marina Branco
Qualquer grande conquista é tratada com estranheza se vier com facilidade. Nenhum título da NBA, maior liga de basquete do mundo, é vencido em poucos passos. Nenhum craque do bola laranja se torna um astro com poucos jogos. Nenhuma luta por prêmios tão valiosos é conquistada de maneira simples. E, se alguém sabe disso, é Davi Chagas, de 15 anos.
"Nada é tão simples. Mas você vai ficar bem". A frase dita por um menino que precisou abrir mão do dia a dia, das paixões e dos sonhos para conquistar a vida resume a maturidade e a esperança de quem começou uma história como tantas outras, mas soube se agigantar no esporte e no cotidiano para escrever na própria vida uma história de filme.
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O jovem atleta de basquete viu a rotina de treinos, escola e sonhos com a bola laranja ser interrompida por uma sequência de dores, cirurgias, diagnósticos agressivos e sessões de quimioterapia.
Partindo de uma lesão inexplicável sofrida quando jogava os maiores campeonatos do início de sua carreira e se organizava para levar o time que conheceu na escola para o profissional, Davi descobriu um câncer que o afastou de seu sonho, mas não de sua vida.
Por fora, Davi Chagas parece o tipo de adolescente que não combina com a palavra "fragilidade". Falando rápido, brincando com tudo, expondo o que muitos esconderiam por vergonha, rindo de si mesmo com uma naturalidade que desarma qualquer ambiente, e se autointitulando "o matador de câncer", Davi conhece o tamanho da luta que vive, e parece saber o caminho para vencê-la.

O sonho do basquete
Antes do hospital, dos exames e das madrugadas com dor, a vida de Davi tinha uma paixão muito clara - o basquete. Sem escolinha ou técnico, ele se apaixonou pelo esporte por uma televisão, em uma memória infantil tão específica que parece cena de filme.
"Eu lembro que eu estava num restaurante… lembro que o ventilador parecia tipo um míssil", ele conta. "Estava passando uma competição de enterrada na televisão. Eu achei legal, nem comi a comida (do restaurante). Fiquei só assistindo o dia todo. Depois, pedi a minha mãe para comprar uma bola pra mim, porque queria jogar basquete", explica.
Logo, a bola que ele pediu aos sete anos se transformou em idas com o pai à quadras de basquete na orla de Salvador, quase sempre no Jardim dos Namorados, para começar a treinar. A paixão, então, cresceu, e não coube mais nas quadras públicas da capital baiana.

Assim, no início de 2024, ele decidiu começar sua trajetória - e começou como dá para começar quando você é insistente, curioso e não depende de ninguém. "Eu aprendia no YouTube, assistindo vídeo e tal, tutoriais, e o pessoal da quadra também me ensinava o básico", relembra.
O que era brincadeira foi virando hábito, e o hábito virou identidade. Logo, na escola, o basquete virou o grande protagonista dos intervalos, dos amigos e, eventualmente, dos testes para a seleção escolar.
"Eu comecei a jogar muito nos intervalos com o pessoal de lá. Aí os garotos da seleção falaram pra eu tentar fazer o teste… fiz o teste e entrei pra seleção", relembra.

O time que quase não perdia
Agora com uma seleção, o primeiro campeonato da trajetória de Davi foi o JCPPAR, o maior evento esportivo entre escolas e parceiros de Salvador e Região Metropolitana. Por lá, a campanha teve gosto de revelação.
Mesmo recém-formado com apenas um ano de existência, o time não perdeu um jogo sequer no torneio, e conseguiu chegar às eliminatórias baianas dos Jogos Escolares Brasileiros, o JEBs - e tudo deu certo.

"A gente venceu… por muita cagada, porque os times eram muito melhores", conta Davi, rindo. Chegaram, então, patrocínios, como o da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia, e o caminho começou a se desenhar para a disputa dos JEBs em Recife.
A disputa em Recife mostrou aos meninos o potencial e nível de profissionalização dos times de outros estados, e fez com que eles voltassem a Salvador decididos a subir de nível no esporte.

A partir dali, a ideia era sair do basquete só do colégio. Treinar mais. Buscar escolinhas. Ganhar repertório. O time, então, entrou na Mover Esportes, que traz a experiência da NBA para Salvador através da NBA Basketball School.
"A gente treinou lá, conseguiu dar uma melhorada. Não vencemos, mas chegamos na final (do JCPPAR) pelo menos, e conquistamos a medalha de vice-campeões no meu primeiro torneio", lembra Davi.

Foi um salto em pouco tempo, que levou o time, que já estava de saída para outras escolas, a buscar um novo lugar para jogarem juntos. Tudo ia dando sinais de crescimento. Mas, quando ele achava que as coisas iam se alinhar, o corpo começou a dar sinais estranhos.
A lesão no joelho e o "pedacinho" de algo pior
Antes do câncer, veio o joelho. Um incômodo que parecia "apenas" desgaste, surgido do nada, que atrapalhava corridas, jogos e treinos. Jeane, olhando para trás, interpreta como se a vida tivesse "tirado as coisas aos poucos", preparando o terreno para a luta que viria pela frente.
Davi tentou se fortalecer. Fez academia, rotina para se recuperar e, em meio ao esforço, percebeu um problema novo: um caroço no testículo. Aos poucos, o carocinho virou dor. A dor virou inchaço. E o inchaço assustou.
"Em junho, julho… começou a doer muito. O testículo começou a inchar, ficou gigante. Foi quando, na escola um dia, eu mal conseguia andar com as pernas fechadas, e falei com minha mãe", conta Davi. Com histórico de hérnia na família, Jeane, que já sabia que o filho estava com o inchaço, acendeu um alerta e a corrida se iniciou.
Corrida contra o tempo
A família buscou ajuda rápida. Um médico, amigo do pai de Davi, chefe em urologia, passou a orientar, pedir exames, avaliar com urgência. Inicialmente, um antibiótico sem resultados descartou a possibilidade de uma infecção bacteriana ou viral.
Veio então o pedido para que Davi fizesse um cartão do SUS e fosse ao hospital. Lá, veio a frase que ninguém quer ouvir: "Provavelmente é um tumor". No entanto, ainda existia a tranquilidade de saber que, se fosse maligno, a cura seria facilmente atingida com cirurgia, sem impedir Davi de ser pai nem tirar nenhuma função de seu corpo.

Surge, então, uma das marcas mais fortes da personalidade de Davi: a leveza ao lidar com a dor. Em vez de se esconder, ele criou apelidos e piadas. "Ele brinca dizendo que nasceu normal, foi evoluído pra três bolas e foi rebaixado pra ser monobola", ri a mãe.
Assim, a cirurgia aconteceu rapidamente, a biópsia indicou malignidade e foram pedidos exames complementares (imuno-histoquímica) e novos exames de imagem. Quando o diagnóstico se fechou, a história virou outra.
"Metástase": a palavra que tirou o ar
A família foi encaminhada para triagem oncológica. Davi ficou do lado de fora enquanto a mãe entrava em uma sala com quatro médicos, uma assistente social e uma psicóloga, e começava a chorar já sabendo o que viria.
Davi tinha um câncer agressivo, com metástase. "Quando ela falou metástase, eu não conseguia respirar… pra mim, era uma sentença, acabou pro meu filho", conta a mãe. A equipe explicou que não era necessariamente isso e que, apesar de já haver metástase, havia possibilidade de tratamento efetivo.

Diagnosticado, Davi foi a um retiro de jovens da igreja que frequentava, voltou à escola, e marcou uma consulta. Na saída da escola, disse a um amigo que logo voltaria - mas não voltou.
Na triagem, recebeu o pacote que muda qualquer adolescência: internar no mesmo dia, perder o cabelo, interromper a escola, o culto dos jovens, abandonar o esporte e passar a viver no hospital.
"Sempre tem gente que tá pior do que você. Tem gente com o pulmão inteiro coberto, amputação, outros órgãos…", reflete Davi. E, em meio ao caos, ele solta uma frase que Jeane diz não esquecer: "Nada é tão simples… mas você vai ficar bem".
As primeiras quimios
Davi começou as primeiras sessões de quimioterapia. Logo na primeira internação, viveu o primeiro colapso, e enfrentou inflamação no peritônio, íleo inflamado, e dores a ponto de alucinação.
Ele parou de andar, em uma imagem que em nada parecia com o menino que brilhava em quadra. Junto a isso, chegaram os pedidos médicos por isolamento do menino que tanto gostava de estar com os amigos.
Jeane e Davi se isolaram juntos. A mãe parou de trabalhar, e passou semanas com o filho no quarto de hospital, se adaptando à vida de infecções, imunidade baixa, máscaras, restrições de comida e vida.

Ida a Barretos
Dentro do hospital, tudo começou a piorar. Uma máquina era usada para todos os pacientes e, quando quebrava, levava diversas pessoas à reincidiva - o retorno do câncer muito mais agressivamente.
Em meio a esse medo, surgiu para Davi a possibilidade de se transferir para um hospital em Barretos, interior de São Paulo, referência em oncologia. Nesse momento, foi justamente ele o maior incentivador da mãe.
"Ele me disse que preferia passar um ano em Barretos do que ter uma adolescência de um menino doente em casa, e ainda me 'lembrou' que, se ele não melhorasse, a doença poderia matar ele, como se eu não soubesse", lembra, rindo, Jeane.


Barretos foi uma porta aberta para a vida de Davi. Por outro lado, a partida do jovem e dos pais marcou a separação da família, que precisou deixar as duas irmãs do menino para trás, em uma família distante fisicamente, mas unida pela vida do mais novo.
Antes de ir, uma festinha e um culto na igreja receberam os amigos de Davi como uma surpresa, se despedindo na torcida pelo "até logo" tão dito naquele dia. Ele ia para uma nova chance, e levava consigo o sonho de voltar.



Lá, Davi pôde se matricular em uma escola novamente, voltar a encontrar pessoas e fazer um tratamento que focava em mantê-lo vivendo, não apenas sobrevivendo. O mesmo vale para a alimentação, que troca proibições por realismo.
"O paladar muda. O que ele amava, passou a odiar… às vezes até água ele não consegue engolir… então o que ele conseguir comer, é lucro", conta Jeane. Surge, então, a necessidade por suplementos caríssimos, e sempre em três tipos diferentes.
"Ele sempre foi magro e tá perdendo muito peso. E se ele entrar na sonda, é mais uma porta de infecção", explica a mãe.
Luta contra o dinheiro
A mãe, cabelereira, deixou seu salão em Salvador e foi à Barretos sem renda alguma para cuidar do filho. O pai, vendedor autônomo, também. A família precisava, sem dinheiro chegando, manter uma casa em Barretos para os três e a filha do meio, que logo foi para São Paulo, e uma em Salvador, para a mais velha.
Surgiu, então, a possibilidade de uma casa de apoio, onde os quatro viveriam em um mesmo quarto, dividindo utensílios com outras famílias - impraticável para as necessidades imunológicas de Davi.
Precisando ficar ainda mais um ano em Barretos para que Davi termine o tratamento, alcance a remissão e, com esperança, a cura, a família segue buscando ajuda e recursos para manter o tratamento de Davi.
Assim, surgiram as rifas e vaquinhas, como uma chance de continuidade para a família que segue lutando pela melhora, pela cura e, principalmente, pela sobrevivência.
O futuro de Davi
Fica, então, a luta e a esperança de quem vive um obstáculo muito mais difícil do que qualquer um vivido em quadra, mas sabe enfrentá-lo com vontade, vida, esperança, bom humor e, principalmente, amor.
A família segue lutando, buscando recursos e chances de continuar cuidando do filho. A mãe segue no hospital. A irmã mais velha e os amigos seguem esperando por ele em Salvador. Davi segue sonhando em viver.
O basquete, símbolo do que foi interrompido, fica na espera. Fica na televisão que ele viu naquele restaurante, esperando que o atleta que surgiu naquele dia volte para as quadras, para casa e, principalmente, para a vida que todo jovem merece ter.
Link da vaquinha para ajudar Davi
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