CRÔNICA
A carne mais barata do mercado ainda trabalha aos domingos
Confira a crônica de Antonia Damásio


Hoje é domingo. Pede passeio. Ou passeata. Pássaros pousam nos ninhos. O sol rasga o céu do inverno. Reparo em dois adolescentes que caminham com passos trôpegos, enquanto buscam entender a que altura estão do Condomínio Pedra do Sal. Carregam mochilas idênticas, como os ibejis. E seguem na contramão da praia onde, possivelmente, surfam os filhos dos defensores da escala 6x1.
O noticiário coloca em perspectiva a mais nova bilionária do mundo. Uma brasileira nata. O decodificador de cenários acende um alerta. Qual seria o mérito de uma herança? Um corte tipo circuncisão.
Os defensores da meritocracia provam seus coquetéis enquanto aguardam a queima de carnes no churrasco. A única trilha sonora possível é Elzita. A carne mais barata do mercado continua sendo aquela que se oferece aos domingos, feriados e dias santos.
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Da minha nau de privilégios me diz exceção para confirmar a regra. Uma preta que nasceu na periferia e segue observando a vida da pretitude de Salvador. Abordo os garotos, tentando oferecer-lhes alguma ajuda. Eles não receberam a exata localização da festa. Não são convidados e me contam que vieram trabalhar de garçom num evento. Chorei por dentro. Meu filho também trabalha aos domingos, muito eventualmente. Ele organiza eventos e tem 35 anos. Sua adolescência já vai longe. Naquela época ele só estudava e curtia a vida com os amigos.
Aponto aos meninos o caminho mais rápido para chegarem ao condomínio. Entendo que aquela lida auxilia no orçamento da família e uma diária pode fazer toda diferença. Tive vontade de perguntar se eles se alimentaram. Eles estavam a ponto de experimentar a diferença radical: a salmoura da desigualdade. Ela não tem o molho. É azeda e afiada. Corta também a minha pele, malpassada. E sangra.
*Psicanalista


