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CRÔNICA

Só um caminhão

Confira a crônica deste domingo, 20

ró-Ã*
Por ró-Ã*
Uma confissão do pai antes de morrer: crônica expõe homofobia da Salvador antiga
Uma confissão do pai antes de morrer: crônica expõe homofobia da Salvador antiga - Foto: Túlio Carapiá | Editoria de Arte A TARDE

Não sei por onde anda Toinho e faz tempo que nos vimos pela última vez. Numa das raras ocasiões em que conversamos, ele me revelou, com a maior honestidade, um traço de caráter que as pessoas costumam esconder: sua incompetência em guardar segredos. “Não me conte nada, eu passo adiante” – avisa. Se o indivíduo insiste, paciência: logo a confidência se tornará pública e não terá sido por falta de alerta.

Minha mãe, ao contrário, era um túmulo selado a sete chaves. Embora eu tenha herdado essa característica, às vezes divulgo intimidades alheias através de meus textos, só que ninguém vai saber de quem se trata; tenho o cuidado de alterar tudo o que possa levar a uma identificação. Tomo ciência de babados peludíssimos por meio de amigos cujas línguas coçam e sabem que podem confiar em mim.

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O seguinte relato partiu de meu pai, 1927-2021. Creio ser algo que o incomodava e um dia resolveu se livrar um pouco do peso. Fiquei muito comovida e voltamos ao assunto em várias oportunidades. Se refere ao nosso vizinho de porta quando eu tinha menos de oito anos. Não me recordo dele nem de sua família, apesar de me lembrar vividamente de outros habitantes do prédio, como o cara que fumava cachimbo e mancava de uma perna, o morador do subsolo amante de plantas e a moça de quem ganhei a querida vira-lata Lady, companheira indestrutível dos meus seis aos 23 anos. Sobreviveu a inúmeros e diversos infortúnios, morrendo aos 17, atropelada de novo, dessa vez quando dormia embaixo de um carro.

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Pois então: o vizinho era um cidadão reservado, com esposa e duas filhas, tão discreto que dele não guardo memória. No ambiente de trabalho, porém, se tornava bicha louquíssima, desmunhecando sem vergonha e paquerando abertamente todos os homens que achava atraentes. Corajoso! Era a década de 60. Seu comportamento gerava piadas, desprezo e agressões por parte dos colegas. Ganhou apelido depreciativo e era constantemente intimado a parar com a viadagem ou eu lhe cubro de porrada, filadaputa!!!

Mas ele fazia mal a alguém, meu pai?

Não, não fazia.

Ou seja: aos 92 anos, Thomaz admitia que a criatura era inofensiva, apesar de claramente incomodar as profundezas dos machos. Meu Deus, que vida infeliz. A uma certa altura, se separou da mulher, que levou as filhas para o Piauí. Arranjou emprego no interior da Bahia e, aos 50 e poucos, morreu esmagado por um caminhão, cujo motorista não teve tempo de frear quando ele se atirou em sua frente.

Desde quando soube do caso, sinto uma dor enorme pela inadequação que esse homem precisou suportar todos os dias, culminando no ato de se destruir com tamanha bruteza. Como se de nada valesse, conforme lhe foi comunicado a vida inteira. Penso no esforço que empreendeu tentando se enquadrar, ao casar e constituir família, enquanto sua alma exigia caminhos que a colocavam à mercê da fúria dos adaptados. Melhor um caminhão transformando seu serzinho de merda em massa amorfa.

Cultivo a desconfiança de que todos os que o levaram ao suicídio eram cristãos tementes a Deus. Meu pai teria a desculpa de ser ateu, porém não era um dos que o agrediam; devia, imagino, dar suas risadinhas, e é possível que jamais o tenha defendido. No entanto, a lembrança desse homem o perturbou ao longo da vida ou não teria desabafado comigo. Talvez como forma de lhe pedir perdão, desejando que um dia eu escrevesse o pouco que sei de sua história e a muita dor que imagino.

Assim, eis aqui, Cadu ***, este tributo do vizinho e colega a você, somado à vergonha que decerto carregava por sua omissão. Mas quantos de nós não já testemunharam injustiças e se fizeram de joão-sem-braço? Alguns, pelo menos, têm a honradez de admitir sua covardia.

Pode ter sido à toa meu zelo em modificar elementos identificadores aqui; todas as personagens já estão mortas, além do que, hoje em dia, o ódio escancarado de que Cadu foi vítima não ocorreria num ambiente razoavelmente civilizado da Salvador de 2026.

Esta é, portanto, uma crônica desatualizada, contradizendo sua própria definição – embora, originalmente, as crônicas tratassem de fatos históricos. E a intolerância e a maldade são históricas e fatos, além de humanas.

*ró-Ã é autora de Dor de facão & brevidades

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