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Especialistas sugerem atitudes para proteger crianças e adolescentes dos riscos digitais
Debate voltou a ser destaque após lives do Discord serem suspensas


"Like não é amor", de acordo com a psicóloga baiana Laíse Brito. Ela resume um alerta que ganhou urgência nas últimas semanas, depois que a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo da plataforma de comunicação online Discord no Brasil. A medida foi motivada pelo caso de uma adolescente de 13 anos que morreu durante uma live em julho, e reacendeu o debate sobre os riscos da vida digital na infância e na adolescência.
O caso reacendeu um debate que já vinha ganhando corpo desde a entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, novo marco legal de proteção de menores no ambiente virtual. A TARDE reuniu especialistas e responsáveis por menores para ajudar a decifrar os limites entre a responsabilidade das plataformas e o papel dos pais neste contexto.
Segundo a advogada Alessandra Tanure, especialista em direito digital voltado à proteção de direitos de personalidade de crianças e adolescentes, o episódio do Discord expôs uma mudança de patamar na forma como as plataformas devem se responsabilizar pelos riscos que oferecem. "O ECA Digital muda o patamar de responsabilidade das plataformas", explica. "A legislação estabelece uma lógica de prevenção, com medidas adequadas e proporcionais aos riscos que aquele serviço oferece a crianças e adolescentes".
A ANPD apontou falhas na proteção de menores na funcionalidade de vídeo do Discord e determinou, de forma cautelar, a suspensão dos recursos até que a empresa comprove que consegue evitar novos casos como o ocorrido em julho.
Para Alessandra, a atuação da agência tem limites claros, mesmo diante da gravidade do caso. "As medidas precisam ser fundamentadas e proporcionais aos riscos identificados, sempre respeitando direitos como privacidade e liberdade de expressão", avalia.
Ainda segundo Alessandra, a suspensão não pode significar uma censura ampla à plataforma, mas um ajuste pontual, direcionado exatamente ao recurso que representava risco. "A proteção também passa pela família", afirma.
O ECA Digital estabelece que pais e responsáveis devem orientar e acompanhar de forma ativa e contínua a experiência digital de crianças e adolescentes. O ideal é que os pais acompanhem contatos com estranhos, exposição pública e conteúdos de risco. Os
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principais riscos que hoje cercam crianças e adolescentes no ambiente digital, de acordo com especialistas, são interações abusivas, conteúdos impróprios, exploração por golpes e violação de privacidade.
Enquanto o direito discute os limites entre plataformas e famílias, a psicologia observa os efeitos dessa exposição precoce no desenvolvimento emocional. Para Laíse, o problema começa na própria lógica de crescimento social que as telas atropelam.
A profissional explica que o saudável é que a criança amplie o próprio círculo de convívio aos poucos, primeiro na família, depois na escola, ambientes que controlam o ritmo dessa exposição ao mundo. As redes sociais quebram essa gradação.
"Pegar essa mesma criança e expor em redes, onde sabemos que circula todo tipo de pessoa e como elas se comportam quando aprovam e quando rejeitam, é um kit problemático que talvez gere prejuízos por décadas", diz.
No consultório, ela relata ver com frequência crescente três situações associadas ao uso excessivo de telas em cérebros ainda em maturação: distorção da imagem corporal, transtornos alimentares e uma necessidade exagerada de aprovação e validação externa.
Segundo Laíse, elogios como "maravilhosa" ou "perfeita" vindos de desconhecidos nas redes não substituem vínculos reais, mas criam uma ficção de pertencimento que pode custar caro à saúde mental de quem ainda está formando sua identidade.
A psicóloga chama atenção ainda para um recorte que raramente aparece nesse debate, o das desigualdades que se intensificam dentro da própria exposição digital. "As intersecções potencializam o sofrimento", explica. "Quanto mais retinta a pele da criança, mais vulnerável ela estará dentro dessa dinâmica, e o gênero também é um marcador de avaliação".
De acordo com ela, isso explica a ausência de crianças afeminadas ou trans em campanhas publicitárias voltadas ao público infantil: "A nossa sociedade estruturou um padrão hegemônico e quer performar esse padrão em todas as idades, classes e raças".
Para Laíse, isso reflete uma exigência estética que trata o corpo infantil quase como mercadoria, uma repetição atualizada de padrões coloniais de controle sobre corpos negros e dissidentes.
Caminho intermediário
Diante desse cenário, a recomendação da psicóloga é direta: o ideal seria que crianças não tivessem perfis em redes sociais. Como essa realidade já não é mais viável para boa parte das famílias, ela orienta um caminho intermediário, com controle diário do tempo de tela, monitoramento do conteúdo acessado e limitação dos dias de uso, sempre combinado com estímulo a esportes, leitura, atividades manuais e o contato físico da brincadeira. "São elementos insubstituíveis para um desenvolvimento emocional saudável".
Do outro lado dessa equação estão famílias que já vivem no cotidiano os dilemas descritos pelas especialistas. Aryadilla Sacramento é mãe de Ryan Sacramento, de 12 anos, faixa preta e bicampeão brasileiro de karatê, que também participa de campanhas publicitárias e desfiles de moda.
O perfil do menino nas redes foi criado em 2019, quando ele tinha cinco anos, para compartilhar seus treinos. Segundo Aryadilla, o acompanhamento constante da família tem evitado situações de risco. "Sempre monitoramos o perfil, e nunca presenciamos o risco por não permitir exposição excessiva do dia a dia", conta.
Ela relata que os únicos bloqueios necessários até hoje foram para convites de plataformas de jogos, e credita a ausência de vícios ao fato de o filho ter uma rotina preenchida por outras atividades. "Por aqui, lidamos de forma muito tranquila com as redes. Então, os novos moldes de uso com o ECA Digital não nos assustaram muito".
Caroline de Carvalho, mãe de Helena de Carvalho, de 11 anos, também administra o perfil da filha desde que ela começou a produzir conteúdo, ainda aos três anos, no YouTube.
Hoje, é Caroline quem responde a comentários e organiza toda a rotina de postagens, deixando a exposição da menina restrita a um espaço de tempo bem definido. "Helena não possui acesso ao Instagram dela, eu que administro todas as postagens, que respondo os comentários", explica.
A produção de conteúdo, segundo ela, fica reservada ao sábado e ao domingo. "Durante a semana ela se dedica integralmente aos estudos", diz. Durante o fim de semana, mãe e filha planejam juntas as publicações da semana seguinte, incluindo o que gravar e quais parcerias aceitar.
Esta atenção dos pais é fundamental, de acordo com Alessandra. "Pais presentes e disponíveis são necessários e insubstituíveis", resume a advogada. Laíse concorda, e acrescenta que a proteção passa também pelo que ocupa o tempo da criança fora da tela.
Uso saudável
Para as escolas, a orientação das especialistas caminha na mesma direção, com formação continuada sobre uso saudável de tecnologia, canais de escuta para casos de assédio ou aliciamento entre estudantes, e parceria com as famílias para que os limites combinados em casa não se percam no ambiente escolar.
O caso Discord deixou claro que nenhuma dessas camadas de proteção funciona sozinha, de acordo com as especialistas. As plataformas respondem pelo que projetam e permitem em seus próprios ambientes, os pais respondem pelo acompanhamento cotidiano, e a sociedade, aos poucos, aprende a lidar com uma infância que já nasce em rede.
De acordo com Laíse, o desafio não é afastar crianças e adolescentes da tecnologia, mas garantir que aquele elogio efêmero, vindo de quem não as conhece de verdade, nunca ocupe o lugar do afeto real: "Isso não é carinho, parceria, é apenas um elogio efêmero de pessoas que não as conhece enquanto seres que têm outros valores para além do superficial".

