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Luto pet: por que a morte de um animal de estimação pode causar tanta dor?
Após perder duas cachorrinhas, veterinária baiana revela dor e sentimento de culpa


Em outubro do ano passado, a médica veterinária baiana Vaneska Brito entregou a cachorrinha Lola, de 10 anos, a um passeador que a conhecia havia anos. Era um passeio planejado por ela, que Lola amava. Durante a caminhada, o animal teve hipertermia, a temperatura do corpo disparou, e morreu.
Pouco mais de um mês depois, foi a vez de Juju, outra cachorrinha de 6 anos, que sofreu uma parada cardiorrespiratória na volta de uma viagem a Itacimirim. Vaneska tentou reanimá-la no caminho e conseguiu duas vezes. Na terceira, Juju não resistiu. "O lado veterinário, para mim, no momento do luto das minhas cadelas, não me ajudou em nada, muito pelo contrário, só me trouxe mais desespero".
Amanhã, 2, Dia de Finados, o calendário convida a lembrar quem morreu. Mas há perdas que não ganham velório, flores ou folga no trabalho. Na psicologia, são os chamados lutos não reconhecidos: dores que a sociedade não valida e que, por isso, costumam ser atravessadas em silêncio.
O conceito, de acordo com a psicóloga Juliana Correia, autora de um livro sobre o tema, tem origem nos Estados Unidos. Se o vínculo é visto como menor (um cachorro, um bebê que não nasceu, um ex-marido, por exemplo), a perda também é. "E aí, é comum não oferecer rede de suporte", diz Juliana. Sem apoio, o luto pode colocar a saúde em risco, já que exige acolhimento para lidar com consequências físicas, cognitivas e emocionais.
Vaneska conhece bem essa lógica. "Sempre vai ter aquelas pessoas que acham que eram só cachorros", afirma. Para ela, "o luto pet é muito minimizado", inclusive no trabalho, onde a morte de um bicho raramente rende folga. A veterinária pondera que, no seu caso, as pessoas se mostraram compadecidas, talvez por terem sido duas perdas seguidas. Ainda assim, precisou de quatro a cinco meses de terapia de luto, porque se culpava pela morte de Lola. "Foi o que me ajudou", conta.
Além da morte
Mas luto não é só morte. Segundo Juliana, tudo o que rompe o chamado mundo presumido, a vida como a pessoa imaginava que seria, enluta. O mesmo vale para a ruptura de vínculos, como a aposentadoria, que transforma a identidade, diz a especialista.
É nessa categoria que a analista de recursos humanos Paula Buck Galvão, 42 anos, situa o vitiligo. A primeira mancha apareceu há dez anos, na mão direita, durante a licença-maternidade da primeira filha. Depois de uma consulta sem diagnóstico, uma dermatologista deu nome ao que ela tinha. "Isso é vitiligo, mas essa doença não te representa", lembra Paula do que ouviu.
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As manchas avançaram devagar, sobretudo pelas mãos, até chegarem ao rosto, há cerca de três anos. "Eu considero que tive meu primeiro luto, de me olhar no espelho e ver primeiro as manchas e não eu", diz. Veio o medo de que tomassem o rosto inteiro, a maquiagem para proteger e disfarçar, e o fim do sol como gostava. Mas Paula não se esconde: nas reuniões com colegas de trabalho, abre a câmera e mostra as mãos.
Por muito tempo, ela se viu sozinha nesses pensamentos, mas diz que nunca sentiu a dor minimizada por quem convive com ela, a família, o marido e a médica. Neste ano, uma conversa numa recepção de pediatria a ajudou a ressignificar. Uma menina perguntou sobre as manchas brancas em sua mão. Paula explicou, e a criança sorriu: "Elas combinam com você". "Eu entendi, pelos olhos daquela criança, como enxergar beleza em mim", conta. Para ela, é um luto de deixar de ser quem já foi um dia, física e emocionalmente.
Individual
Por que algumas pessoas atravessam melhor do que outras? A psicóloga baiana Lais Villasboas responde com fatores de risco e de proteção: morte violenta, vulnerabilidade social, histórico de depressão e perdas simultâneas pesam contra. "Um dos fatores protetivos mais importantes para qualquer experiência de luto e de perda é rede de apoio", afirma.
Lais também desconfia da palavra "superação", que considera "perigosa". Hoje, diz, a psicologia se preocupa menos com um ponto final e mais com a forma como a pessoa vive o processo, que ela compara a uma colcha de retalhos de memória, afeto e narrativa. O caminho, de acordo com a especialista, não é linear: há dias de dor e dias em que uma lembrança engraçada arranca risada.
Juliana lembra que o modelo das cinco fases, ainda o mais conhecido do público leigo, deu lugar ao chamado modelo dual, em que a pessoa oscila entre a perda e a continuidade da vida. Ela também fala em integração. "Não tem como acelerar um processo de luto", ressalva, lembrando que as licenças de luto são curtas e que se espera produtividade como se nada tivesse acontecido.
O sinal de alerta, segundo Juliana, nem é só o tempo, critério que os próprios pesquisadores discutem. É a perda de funcionalidade: quando a pessoa deixa de oscilar entre visitar a perda e seguir a vida, e passa meses sem conseguir sair de casa ou trabalhar. Isso, explica, já é transtorno de luto prolongado.
Este mês, Juliana lança o livro de ficção O anel que tu me destes, pela Lucto Editora, título que remete à cantiga de roda. Na trama, Teresa recebe a notícia da morte inesperada do ex-marido e, tateando no escuro das próprias emoções, tenta entender o que foi perdido e se tem direito de se enlutar. “Alguns lutos são óbvios, outros não. Todos doem”, resume.
Falar a respeito, ajuda, defende Lais. "Nós somos seres de narrativa", diz. "Para elaborar um luto, é preciso que a gente possa contar uma história sobre o luto". E contá-la em primeira pessoa, porque cada um perde de forma única: quando um pai morre, lembra, cada filho perdeu o seu.
Vaneska deu esse passo agora. Para esta matéria, foi a primeira vez que falou do assunto e, mesmo emocionada, disse que precisava disso. Um ano depois, a dor segue viva. "A gente aprende a conviver com a ausência".


