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Quanto custa ser fisiculturista? Atletas baianos revelam desafios da profissão
Fisiculturismo vai além da academia e impõe desafios financeiros e de saúde


Aos 14 anos, Edvan Palmeira treinava no quintal de casa, no distrito de Abóbora, em Juazeiro, com equipamentos improvisados. Sem uma academia por perto, ele e um amigo de infância construíram halteres e uma barra de cimento para se exercitar. Anos depois, o baiano chegaria ao quinto lugar do Mr. Olympia, principal competição de fisiculturismo do mundo. Entre o interior baiano e os palcos internacionais, há uma história de disciplina, sacrifícios e dificuldades financeiras que ajuda a entender um esporte de alto custo, com treinos e dietas rígidos.
O resultado esportivo de destaque, porém, não garantiu estabilidade financeira para Edvan. Hoje, o atleta vive do fisiculturismo, mas sua renda vem de diferentes frentes, como patrocínios, consultorias, produção de conteúdo na internet e participações em eventos. “O cartão profissional, por si só, não garante um salário", afirma. "E ganhar uma competição também não significa que o valor recebido virou lucro”. Alimentação, preparação, acompanhamento de saúde, passagens e hospedagem pesam no orçamento.
Sua trajetória também exigiu mudanças. Depois de começar a competir em Salvador, Edvan se mudou para São Paulo em busca de melhores condições para desenvolver a carreira. A experiência mostra como o potencial esportivo nem sempre é suficiente. O atleta precisa de acesso a profissionais especializados, recursos para viajar e oportunidades de patrocínio.
O fisiculturista Vitor Porto, de Camaçari, conhece esse percurso. Influenciado pelo irmão mais velho, estreou no esporte em 2013. Demorou oito anos para fechar seu primeiro patrocínio e se mudou para São Paulo para se dedicar integralmente ao esporte. Em 2026, conquistou títulos profissionais e terminou o Mr. Olympia na quarta colocação, seu melhor resultado na competição.
Nem tudo, porém, foi uma sequência de vitórias. Em 2025, depois de cair do quinto para o oitavo lugar no Olympia, Vitor precisou rever a preparação. “Foi o momento que mais amadureci e cresci profissionalmente e como pessoa”, afirma. A experiência o fez repensar decisões e lidar com a pressão por resultados.
Renúncias
O físico que aparece no palco é resultado de uma preparação que pode durar meses. Treinamento, alimentação, descanso e acompanhamento profissional precisam funcionar em conjunto. No alto rendimento, a rotina é organizada em torno das exigências da categoria e da data da competição.
O baiano Eric Wildberger começou a se interessar pelo fisiculturismo ao folhear revistas de musculação dos irmãos mais velhos. Competiu pela primeira vez em 2014 e, depois de conquistar resultados na Classic Physique – categoria do fisiculturismo que valoriza um físico musculoso, simétrico e proporcional – decidiu migrar para a Open, que permite maior desenvolvimento muscular.
A mudança exige adaptações. Para ganhar massa e se preparar para competir, Eric precisa aumentar o volume de comida e ajustar o treinamento. O compromisso, entretanto, não se limita à academia. “Tudo que fazem é voltado para alcançar o melhor resultado possível”, diz. “Sono, alimentação, treino, controle de estresse, cuidados, abdicação, custo, pressão, é tudo alto”.
Para quem compete, há despesas com treinadores, alimentação, consultas, exames, inscrições e viagens. E existe um aspecto pouco visível para o público: o corpo apresentado no palco é preparado para um momento específico, não necessariamente uma condição que possa ser mantida durante o ano inteiro.
A profissional de Educação Física, Virgínia Almeida, passou seis anos envolvida com preparações e também já competiu. Hoje, está afastada dos palcos. A decisão teve relação com os custos, a necessidade de priorizar outras áreas da vida e a pouca participação de atletas em sua categoria, que dificultava avaliar sua competitividade. “Continuo buscando evolução, mas respeitando o tempo dessa construção”, afirma.
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Equilíbrio

Nem todo praticante pretende seguir carreira. Para alguns, o fisiculturismo se torna uma maneira de organizar o cotidiano, manter a disciplina e buscar satisfação com a própria aparência. É o caso do baiano Igor Paes, que já competiu, mas hoje dedica mais atenção à carreira de influenciador.
Ele conta que a rotina ficou menos rígida depois de se afastar das competições. A alimentação ganhou flexibilidade e deixou de responder a uma data de apresentação, embora o treinamento continue sendo parte central de sua vida. “Eu amo esse estilo de vida”, afirma. “O esporte me ensinou muita coisa que eu trago para minha vida, que é uma questão de disciplina”.
Ele reconhece que competir exige uma dedicação difícil de conciliar com outras prioridades. O esporte, diz, não lhe oferece atualmente o retorno financeiro necessário para que seja sua única atividade. A distinção é importante: a rotina de um atleta profissional, submetido a critérios específicos de avaliação, não precisa ser reproduzida por quem frequenta a academia em busca de saúde ou bem-estar.
Cobrança
O endocrinologista Gabriel Bastos, que trabalha com redução de danos para pessoas que usam anabolizantes, diferencia a reposição hormonal indicada para tratar uma deficiência diagnosticada do uso de doses elevadas com finalidade estética ou de aumento de desempenho. O problema, explica, está na ausência de indicação, nas quantidades muito superiores às produzidas naturalmente pelo organismo e na combinação de substâncias.
“Não existe uma dose segura para o uso de anabolizantes com finalidade estética", afirma Gabriel. A resposta varia entre indivíduos, e o acompanhamento médico não elimina os riscos. Entre os possíveis efeitos estão alterações no colesterol, aumento da pressão arterial e mudanças na estrutura do coração, com maior possibilidade de arritmias, tromboses, infarto e acidente vascular cerebral. Também podem ocorrer alterações hormonais e reprodutivas, problemas no fígado e mudanças de humor.
Em homens, o uso pode reduzir a produção natural de testosterona e prejudicar a fertilidade. Em mulheres, pode causar engrossamento da voz, aumento de pelos e alterações menstruais. Parte dessas mudanças pode ser irreversível. Há ainda riscos relacionados à procedência dos produtos, que podem estar contaminados.
Na reta final de uma competição, outros fatores podem agravar a situação. Gabriel explica que alguns atletas recorrem a diuréticos, restrição alimentar intensa e desidratação para alcançar o condicionamento desejado. Essas práticas podem alterar os níveis de eletrólitos, como o potássio, essenciais para o funcionamento do coração, aumentando o risco de arritmias e complicações renais.
Para o médico, o atendimento profissional deve acolher quem já usa anabolizantes, sem julgamento, e oferecer informações para que a pessoa compreenda os riscos e avalie alternativas. “O médico que fecha a porta, ele não elimina o uso, ele só vai eliminar o cuidado”, afirma.
A psicóloga Milena Bahia chama atenção para o momento em que a rotina de treinos e alimentação passa a ocupar o espaço de outras relações, interesses e atividades. A pessoa pode deixar de sair, evitar refeições com amigos ou organizar toda a vida em torno do medo de perder o físico conquistado.
Além dos prejuízos à qualidade de vida, a preocupação excessiva com o tamanho dos músculos pode estar relacionada à vigorexia e à distorção da imagem corporal. A busca por um corpo maior deixa de ser um objetivo entre outros e passa a definir o valor que a pessoa atribui a si mesma. “Acreditar que um corpo musculoso é sinônimo de saúde, tanto física quanto mental é uma armadilha", afirma Milena.
Caminho
Na Bahia, a preocupação com a saúde convive com a busca por melhores condições para desenvolver carreiras. Eric avalia que o estado tem potencial, mas a visibilidade dos atletas ainda é baixa e as grandes marcas se concentram em São Paulo. Os custos de preparação e deslocamento para as principais competições também limitam oportunidades.
Edvan pondera que deixar a Bahia não deveria ser uma exigência para todos. “A Bahia tem profissionais competentes e atletas com potencial", diz. "O que precisa melhorar é o acesso contínuo a essas condições, especialmente para quem vive no interior”. Vitor concorda e aponta a falta de investimento, de academias com equipamentos adequados e de eventos como obstáculos para quem quer chegar ao alto rendimento. “A Bahia hoje tem muitos atletas incríveis, porém não se tem muito investimento para lapidar esses atletas”, afirma.


