MUITO
Por que assumir a bissexualidade ainda é tão complicado para algumas mulheres?
Leia a crônica deste domingo, 18


Não sei quem é bissexual, se todas as mulheres, se aquelas que escrevem, se apenas as que se dedicam à escrita feminina, se ela mesma, Hélène, ou se a bissexual sou eu, categoria com que me identificaria sem grandes problemas, não fosse sua trágica desvalorização, em se tratando de mulheres de quase 40, como é o meu caso. Não me entendam mal, mas deixei de me declarar bi, pois as mulheres que me interessam automaticamente perdem qualquer tipo de interesse que porventura teriam, por motivo das bis estarem sempre enroscadas em um pau, fato que pessoalmente não posso negar, afinal, sou casada com um, e os homens, bem, os homens não me interessam muito, mas eles passam a demonstrar interesse, porque vislumbram a possibilidade de transar com mais de uma mulher e eu não tenho a mínima paciência.
Não bastasse, ainda tem a patrulha cerrada exercida por minhas amigas sobre a minha heterossexualidade, impedindo que eu me declare qualquer coisa diferente de bi festinha ou hetero, sob pena de ser denunciada para o grande público e, quando eu digo grande, não estou supervalorizando minha experiência, estou me referindo a um bar lotado, durante um show de Drag, ou a uma sala de aula com mais de 50 colegas de curso, algumas delas lindíssimas, diga-se de passagem. Ah, tem ainda o problema de acharem que sou o date ou o casal das queridas amigas lésbicas e, nesse momento, sou obrigada a ser veemente ao negar e a assumir minha preferência por homens, afinal, elas querem o flerte e eu, casada, não quero e não devo atrapalhar. O problema dessa veemência toda, porém, é que fica óbvia a cara de pena da pessoa para quem me declaro, que pensa: “Coitada, essa daí recebeu o bilhete e não leu”, que eu tenho que suportar com dignidade fingida, pois dignidade mesmo não temos.
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Esse valor intrínseco de que fala o dicionário, no verbete dedicado ao significado da palavra dignidade, se distancia tanto de mim, quando diante delas, que me vejo apartada de qualquer traço dessa personalidade que considero minha, mas que tão facilmente me escapa, como se nunca houvesse estado lá, me deixando muda, esvaziada de palavras – receptáculo para o que desconheço, para elas, suas palavras, suas teorias, qualquer migalha que queiram me oferecer e que eu possa passar a chamar de minha, minha própria personalidade agora transformada em outra até que, finalmente separadas, eu passe a ser novamente alguém que reconheço e nego, pois ao olhar no espelho da outra e reconhecer nele alguém que poderia ser e não sou, que nunca serei, que fui apenas por aquele instante insignificante, passo a desejá-la e a sentir sua falta, como se um dia ela tivesse de fato sido minha.
E então, a solidão. O desejo que nunca se realiza por completo e está sempre em movimento, do ápice ao poço, para se encher novamente de água, de gozo, travessias vertiginosas, diria Hélène, apaixonadas estadias efêmeras dentro do outro, da outra; habitar, ela me diz, para observar e amar mais de perto, se deixar impregnar e partir. Abraçar para passar ao infinito, deixando-as ecoar aqui dentro – mil línguas que não conhecem nem o muro nem a morte. Possuída pela vida de outras, me vejo despida de mim, um recomeço a cada incursão em terreno desconhecido, medos e angústias a serem sempre sofridos e transpostos, para que o aqui nunca seja o mesmo, para que o texto nunca se fixe no branco da página como uma sentença unívoca e infértil. Ela é bissexual, para que eu seja no plural.


