CRÔNICA
O que um motorista de aplicativo me ensinou em um dia difícil
Doente, entrei em um carro e encontrei uma bênção inesperada


Naquele dia, o carro por aplicativo demorou um tempão para chegar. Eu tentei entender, porque estava nas imediações da Avenida Paralela e o trânsito ali, no horário da manhã, é de um ritmo molusco. Finalmente o automóvel chegou, velho, com a pintura descascando, dirigido por um motorista enorme, barba por fazer, aspecto desleixado. Assim que entrei, ele disparou:
— Você não viu as mensagens que te enviei?
— Desculpe, estou meio doente hoje. Estou indo para casa descansar.
Eu não aguentava mais ficar na rua. Meus olhos quase fechavam, ardidos com a claridade, talvez resultado da mesma virose que fazia o corpo doer. Entramos no tráfego e o marmanjo a princípio cantarolou algo, depois debochou dos motoqueiros que faziam ultrapassagens arriscadas e, depois, do nada, começou a falar da família.
— Todo mundo quer ter razão, todo mundo está certo, mas quem sustenta tudo, família, filho? Eu! Isso ninguém quer saber. Na hora da verdade, tiram o corpo fora.
No banco de trás, eu fazia questão de concordar. Só queria que ele adiantasse a viagem e evitasse entrar em temas espinhosos como religião ou política. O motorista tinha queixa do irmão, que possuía uma lanchonete, como ele próprio possuía. Então os dois eram concorrentes e desafetos. Desconfiava dos amigos, pois eram “vacilões exibidos". Para completar, desprezava as soluções oficiais para os problemas sociais – problemas que ele enfrentava, aliás.
— Malditos intelectuais. A cadeia está cheia deles.
A certa altura, apontou um grupo de pessoas em situação de rua.
— Olha ali, se você me deixar naquele meio, eu fico numa boa. A rapaziada só quer o mais simples, um jeito para viver.
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Aquela conversa tão natalina no meio do ano me soou incrível. Contei que conhecia algumas mulheres que vagam pelo Centro da cidade, e isso o motivou a dizer que já estivera preso em diversas colônias penais da Bahia. Explicou que foi envolvido numa armadilha de falsos companheiros, compareceu à Justiça sem advogado e trocou desaforos com o promotor, por isso foi colocado “de castigo” por dois anos. E que valeu a pena.
Foi por dentro daquele acaso que cheguei ao meu destino, mantendo cumplicidade com o cocheiro. Eu me perguntava porque justamente em um momento de vulnerabilidade encontrei aquele sujeito, um urso, e enxerguei alguma razão nos seus feitos. Havia sintonia. Ocorre que estar doente também é estar um pouco fora do mundo, então é interessante algum chamado da realidade.
Depois que a nossa carruagem atravessou um mar de carros, depois de tanto relato, me vi na obrigação de lhe dar uma gorjeta no aplicativo. Mas o que me comoveu mesmo foi a minha própria voz trêmula na despedida:
— Deus o acompanhe!
Ele sorriu com um olhar bonacheirão e desajeitado. E eu fui para casa ainda exausto, andando devagarinho, me sabendo abençoado pelo absurdo.
*Franklin Carvalho é autor do romance Tesserato – A tempestade a caminho (Ed. Noir), entre outros livros


