Busca interna do iBahia
HOME > MUITO

CRÔNICA

Tempo de fermentação sobre o eixo da Terra

Aos 30, 40 ou 50: existe idade certa para realizar sonhos?

Luisa Sá Lasserre*
Por Luisa Sá Lasserre*
O tempo de cada coisa: a vida também precisa fermentar
O tempo de cada coisa: a vida também precisa fermentar - Foto: Editoria de arte A TARDE

Entre o Sol que se levanta na minha varanda e o mesmo que vai se pôr atrás dos prédios na minha janela dos fundos, 12 horas se passam; outras 12 sustentam estrelas no céu. Cada estação dura três meses. Para completar o movimento de translação, a Terra leva 365 dias e ainda sobram algumas horas (que formam o ano bissexto a cada quatro anos). Menos conhecida, a nutação, pequena oscilação do eixo terrestre, demora mais de 18 anos e meio. Já o movimento cônico de precessão acontece somente a cada 25.800 anos. Vinte e cinco mil. Na natureza, as coisas levam tempo.

Com a gente não é diferente. Para começar, em geral, são cerca de nove meses desde a concepção até a primeira respiração. Outros nove para ficar de pé, balbuciar palavras. Ir ao banheiro sozinho exigirá mais alguns anos, bem como aprender a ler e escrever. Autonomia mesmo demora. E não adianta ter pressa. É só no tempo certo que as coisas acontecem. Feito massa de pão que se põe pra fermentar, joga-se um paninho por cima e espera fazer efeito.

Tudo sobre Muito em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Mas, aos oito anos, desejamos entrar na turma dos que têm dez, no dia seguinte. Aos 11, não vemos a hora de chegar aos 13 e nos sentirmos plenamente na adolescência. Aos 15, já estamos de saco cheio de ser apenas adolescentes e almejamos a tal maioridade. Aos 20 e poucos, oscilamos entre ter certeza de sermos donos do mundo ou de que o mundo não foi feito pra nós. O tempo nunca parece suficiente.

A partir dos 35, é quando a gente começa a querer pisar no freio. Será que dá pra ir mais devagar? Será possível alongar o tempo? A gente vive desejando encolhê-lo ou esticá-lo à nossa própria vontade. E aquilo que queremos, em geral, é pra logo. Esperar por meses? Anos? O tempo não para de avançar e só o que a gente mais quer parece não chegar. Esquecemos de que nada é pra já – como bem nos lembra aquela canção.

Leia Também:

CRÔNICA

A carne mais barata do mercado ainda trabalha aos domingos
A carne mais barata do mercado ainda trabalha aos domingos imagem

CRÔNICA

Só um caminhão
Só um caminhão imagem

CRÔNICA

Por que temos tanta preguiça de pensar?
Por que temos tanta preguiça de pensar? imagem

É só depois dos 40 que, lentamente, a massa do pão começa a crescer. E então descobrimos que não é só uma questão de meses ou anos; levamos décadas para nos tornarmos quem realmente somos. Tempo de fermentação. De repente, tudo o que foi vivido até então se torna apenas preparação, ensaio. Subir ao palco mesmo, pra valer, é algo que talvez só vá acontecer aos 45 do segundo tempo. Aos 50, 63 ou 74. A grande missão da vida de alguém pode vir depois dos 80.

Quem foi que disse que a vida precisa estar feita até os 30 ou 40? Que a realização profissional ou vem cedo e acompanhada do dinheiro ou não virá? Que, se não houve grandes feitos, projetos e resultados, então, nada foi feito? Muitas vezes, nada foi feito mesmo, no particípio passado, nada terminado. Está tudo se fazendo. Em processo e continuidade. Ainda que pareça tarde.

Jovens que fomos, pensamos até saber quem somos, do que gostamos, o que não queremos, temos verdades quase absolutas espalhadas entre nossas tantas dúvidas. Mas é só quando as pegadas já cobrem boa parte da estrada, com os fios da maturidade começando a crescer, que então nos damos conta do quanto não fazíamos ideia. E do quanto a vida sempre é capaz de surpreender.

Tudo o que foi pensado, planejado, talvez não faça mais sentido ou agora ganhe outros. O que tanto foi sonhado pode não ser mais, e a maior realização talvez venha de algo que jamais se sonhou. A gente não se sabe bem. A gente se descobre pelo caminho. A cada rotação da Terra e seus outros tantos movimentos, vemos mudar os dias, os anos, mas mudamos nós. O mistério da vida se abre aos poucos. Por enquanto, ainda não sei.

*Luisa Sá Lasserre é autora do livro de crônicas "Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

crônica da muito

Relacionadas

Mais lidas