CRÔNICA
Tempo de fermentação sobre o eixo da Terra
Aos 30, 40 ou 50: existe idade certa para realizar sonhos?


Entre o Sol que se levanta na minha varanda e o mesmo que vai se pôr atrás dos prédios na minha janela dos fundos, 12 horas se passam; outras 12 sustentam estrelas no céu. Cada estação dura três meses. Para completar o movimento de translação, a Terra leva 365 dias e ainda sobram algumas horas (que formam o ano bissexto a cada quatro anos). Menos conhecida, a nutação, pequena oscilação do eixo terrestre, demora mais de 18 anos e meio. Já o movimento cônico de precessão acontece somente a cada 25.800 anos. Vinte e cinco mil. Na natureza, as coisas levam tempo.
Com a gente não é diferente. Para começar, em geral, são cerca de nove meses desde a concepção até a primeira respiração. Outros nove para ficar de pé, balbuciar palavras. Ir ao banheiro sozinho exigirá mais alguns anos, bem como aprender a ler e escrever. Autonomia mesmo demora. E não adianta ter pressa. É só no tempo certo que as coisas acontecem. Feito massa de pão que se põe pra fermentar, joga-se um paninho por cima e espera fazer efeito.
Mas, aos oito anos, desejamos entrar na turma dos que têm dez, no dia seguinte. Aos 11, não vemos a hora de chegar aos 13 e nos sentirmos plenamente na adolescência. Aos 15, já estamos de saco cheio de ser apenas adolescentes e almejamos a tal maioridade. Aos 20 e poucos, oscilamos entre ter certeza de sermos donos do mundo ou de que o mundo não foi feito pra nós. O tempo nunca parece suficiente.
A partir dos 35, é quando a gente começa a querer pisar no freio. Será que dá pra ir mais devagar? Será possível alongar o tempo? A gente vive desejando encolhê-lo ou esticá-lo à nossa própria vontade. E aquilo que queremos, em geral, é pra logo. Esperar por meses? Anos? O tempo não para de avançar e só o que a gente mais quer parece não chegar. Esquecemos de que nada é pra já – como bem nos lembra aquela canção.
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É só depois dos 40 que, lentamente, a massa do pão começa a crescer. E então descobrimos que não é só uma questão de meses ou anos; levamos décadas para nos tornarmos quem realmente somos. Tempo de fermentação. De repente, tudo o que foi vivido até então se torna apenas preparação, ensaio. Subir ao palco mesmo, pra valer, é algo que talvez só vá acontecer aos 45 do segundo tempo. Aos 50, 63 ou 74. A grande missão da vida de alguém pode vir depois dos 80.
Quem foi que disse que a vida precisa estar feita até os 30 ou 40? Que a realização profissional ou vem cedo e acompanhada do dinheiro ou não virá? Que, se não houve grandes feitos, projetos e resultados, então, nada foi feito? Muitas vezes, nada foi feito mesmo, no particípio passado, nada terminado. Está tudo se fazendo. Em processo e continuidade. Ainda que pareça tarde.
Jovens que fomos, pensamos até saber quem somos, do que gostamos, o que não queremos, temos verdades quase absolutas espalhadas entre nossas tantas dúvidas. Mas é só quando as pegadas já cobrem boa parte da estrada, com os fios da maturidade começando a crescer, que então nos damos conta do quanto não fazíamos ideia. E do quanto a vida sempre é capaz de surpreender.
Tudo o que foi pensado, planejado, talvez não faça mais sentido ou agora ganhe outros. O que tanto foi sonhado pode não ser mais, e a maior realização talvez venha de algo que jamais se sonhou. A gente não se sabe bem. A gente se descobre pelo caminho. A cada rotação da Terra e seus outros tantos movimentos, vemos mudar os dias, os anos, mas mudamos nós. O mistério da vida se abre aos poucos. Por enquanto, ainda não sei.
*Luisa Sá Lasserre é autora do livro de crônicas "Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)


