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Arqueólogos descobrem que humanos já ficavam "chapados" há 3 mil anos

Achado ocorreu no complexo funerário conhecido como Tunnug 1, na Sibéria

Rodrigo Tardio
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Maconha pode ser utilizada para fins medicinais e já ajuda diversos pacientes no mundo
Maconha pode ser utilizada para fins medicinais e já ajuda diversos pacientes no mundo - Foto: Divulgação | Polícia Federal

​Uma tumba milenar localizada no extremo sul da Sibéria, na Rússia, transformou-se em um marco para a história arqueológica e antropológica do consumo de substâncias alteradoras da mente.

Datado de aproximadamente 2.800 anos atrás, o local abrigou membros da aristocracia dos citas — um conjunto de tribos nômades de origem iraniana que dominaram as estepes da Eurásia entre o século 9 a.C. e o século 3 d.C.

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​A descoberta, cujos resultados foram publicados na revista Science, empurra para trás a linha do tempo científica que comprova o uso recreativo ou ritualístico da cannabis.

Até então, o registro mais concreto de maconha consumida por efeitos psicoativos vinha de vestígios químicos em braseiros de madeira na China, datados de 2.500 anos atrás.

Sítio de Tunnug 1

​O achado ocorreu no complexo funerário conhecido como Tunnug 1, composto por montes artificiais (tesos) erguidos para sepultar figuras de destaque da sociedade cita.

Embora esse povo não tenha deixado registros escritos estruturados, sepulturas complexas como esta funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo.

​No interior da estrutura, além de ossos humanos espalhados e reservas de cavalos sacrificados — uma prática comum em rituais funerários da nobreza da época —, os arqueólogos desenterraram quase mil sementes de cannabis, datadas por volta de 790 a.C.

​As sementes recuperadas eram pequenas e guardavam semelhança com as variedades de cannabis selvagem que brotam naturalmente por toda a Ásia Central, descartando a necessidade de importação de regiões mais quentes.

Contudo, para a comunidade científica, a mera presença física das sementes em um túmulo não bastava para cravar o consumo.

Assinatura química no cabelo humano

A grande virada na investigação veio com a análise de um fio de cabelo humano preservado e datado do mesmo período.

Diferente de outros tecidos biológicos, o cabelo resiste bravamente ao tempo e age como um arquivo permanente: à medida que cresce, substâncias que circulam pela corrente sanguínea ficam retidas na estrutura capilar, criando um registro químico de longo prazo.

​Submetido a rigorosas análises químicas, o fio revelou a presença de canabinol — um composto que se forma quando o THC (o princípio psicoativo da maconha) sofre oxidação —, além de vestígios do próprio THC.

A detecção dessas moléculas forneceu a prova definitiva de que o indivíduo não apenas manuseou a planta, mas consumiu a substância e experimentou os seus efeitos psicoativos.

​Embora os pesquisadores não consigam determinar com exatidão o método de ingestão — se a planta foi fumada ou se as sementes foram ingeridas de forma direta —, a certeza do consumo alterador da mente é incontestável.

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Milenar relação com a humanidade

​A presença das sementes em um sepultamento tão elaborado indica forte carga cultural. Para os cientistas, a planta provavelmente desempenhava um papel central em rituais fúnebres ou em práticas de sacrifício.

​"Se você pretende sacrificar um ser humano, talvez seja mais fácil não ter tanta resistência. E a cannabis poderia ser usada para sedar as pessoas", disse Gino Caspari, arqueólogo envolvido na descoberta, em declaração à New Scientist.

​É fundamental separar o uso psicoativo do histórico agrícola mais amplo da planta. A humanidade cultiva a cannabis há pelo menos 12 mil anos, desde a domesticação inicial na China com foco na extração de fibras de cânhamo e óleo.

No entanto, o achado na Sibéria corrobora que a humanidade busca na planta os efeitos de alteração da consciência há quase três milênios.

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cannabis sibéria tumba milenar

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