CRISE MIGRATÓRIA
Espanha envia Exército após onda migratória e mortes no enclave de Ceuta
Milhares de pessoas cruzaram a fronteira a nado; centros de acolhimento entraram em colapso


Centenas de migrantes viajaram vindos de Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta, na África, juntando-se aos mais de 1.500 que fizeram o mesmo percurso ao longo dos últimos dias. A situação culminou em uma emergência humanitária que deixou nove mortos confirmados e levou o governo de Madri a anunciar o envio urgente das Forças Armadas.
Ceuta e o outro enclave espanhol em território marroquino, Melilla, representam as únicas fronteiras terrestres diretas que a União Europeia possui com o continente africano.
Diante das entradas em massa ao longo do dia — com pessoas pulando a cerca da fronteira ou nadando pelo mar até o território de 18,5 km² —, o Ministério do Interior da Espanha confirmou o envio do Exército para reforçar a atuação da Guarda Civil e reestabelecer a segurança na cidade autônoma.
Além do envio das Forças Armadas, o governo espanhol anunciou o reforço imediato da Guarda Civil local com mais 70 agentes, que se somam aos 80 destacados previamente. O contingente de emergência também conta com equipes de mergulhadores e embarcações do Serviço Marítimo da guarda costeira.
Agentes da Guarda Civil mantêm vigilância permanente na entrada de migrantes nas proximidades do posto fronteiriço ao sul de Ceuta.
Esta já é considerada a maior entrada de pessoas em Ceuta desde maio de 2021, quando mais de 10 mil migrantes cruzaram a fronteira a partir de Marrocos em apenas 48 horas.
Nas praias do enclave, o rastro do fluxo é visível com inúmeras boias circulares e peças de roupa abandonadas por quem conseguiu chegar a nado.
"Estamos diante de uma situação de emergência absoluta, humanitária e social. Os centros de acolhimento estão completamente colapsados e superlotados", alertou o prefeito-presidente de Ceuta, Juan Vivas, em entrevista à televisão pública espanhola (TVE).
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A travessia marítima cobrou um preço alto. As autoridades espanholas confirmaram a recuperação dos corpos de nove migrantes que morreram afogados ao tentar alcançar a costa de Ceuta a nado.
Para conter o avanço da crise, o governo espanhol alinhou medidas diretas com Rabat:
- Devolução imediata: Acordo firmado com Marrocos para repatriar "o mais rápido possível" todos os cidadãos que entraram ilegalmente no enclave;
- Presença do Executivo: O presidente do Governo, Pedro Sánchez, e o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, agendaram visita oficial a Ceuta para acompanhar as operações;
- Ações diplomáticas: Articulação com autoridades marroquinas e internacionais para restabelecer a normalidade nos postos de fronteira.
"O Governo da Espanha está totalmente empenhado em dar uma resposta imediata à situação em Ceuta. Estamos mobilizando todos os recursos necessários", declarou Pedro Sánchez.

"Colaboração exemplar" entre Espanha e Marrocos
O Ministério do Interior fez questão de ressaltar a "colaboração exemplar" entre Espanha e Marrocos no combate às redes de tráfico de pessoas, apontadas como as principais responsáveis pelas incitações de invasão em massa.
Fontes do Ministério das Relações Exteriores da Espanha também descartaram qualquer atrito diplomático recente com Marrocos, desvinculando o episódio de recentes movimentações geopolíticas na região.
O cenário atual, contudo, rememora o ápice da crise de maio de 2021, quando o relaxamento dos controles fronteiriços por parte de Marrocos ocorreu em meio a um atrito diplomático grave — gerado após a Espanha ter acolhido, para tratamento médico, o líder da Frente Polisário do Saara Ocidental, apoiado pela Argélia.
Aquela crise diplomática só foi redefinida em 2022, quando Madri alterou historicamente sua posição sobre o Saara Ocidental, passando a apoiar o plano de autonomia proposto por Marrocos para a ex-colônia espanhola.
Apesar da pressão pontual sobre o enclave de Ceuta, a principal rota de entrada de migrantes irregulares na Espanha continua sendo a perigosa travessia pelo Oceano Atlântico em direção ao arquipélago das Ilhas Canárias.


