ELEIÇÕES
Voto feminino chega a 53% do eleitorado baiano mas mulheres são minoria no poder
Cidades com até 55% de eleitoras escancaram abismo de gênero na política da Bahia


Embora representem 53% do eleitorado baiano, correspondendo a 5,9 milhões aptas a votar nas eleições de outubro, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-BA), as mulheres ainda são minoria nos espaços de decisão. Como em 2022, não haverá candidatura feminina ao Governo da Bahia neste ano. A última vez que uma mulher disputou o executivo estadual foi em 2018 e a primeira vez que uma candidata concorreu ao cargo foi em 1986, sem vitória.
Conquista histórica que representou um marco na construção da democracia brasileira, o voto feminino no país é resultado de mobilização social, embate de ideias e perseverança de grupos que enfrentaram barreiras culturais e institucionais. “A participação das mulheres no processo eleitoral, não só como parte do eleitorado como também ocupando os espaços de decisão e representatividade, é fundamental para o fortalecimento do sistema democrático”, pontua a secretária de Planejamento, Estratégia, Inovação e Eleições do TRE-BA, Luciana Bichara.
A servidora pública e publicitária Helenira Meira, especialista em Educação, Gêneros e Direitos Humanos pela Universidade Federal da Bahia, afirma que a sub-representação feminina na política é resultado de “uma estrutura patriarcal que ainda orienta a sociedade e segue reproduzindo desigualdades, mantendo os espaços de poder ocupados majoritariamente por homens, enquanto as mulheres precisam travar uma luta constante para acessar esses e permanecer neles”.
A violência política de gênero, enfatiza Helenira, constitui um dos principais obstáculos à participação feminina. “As mulheres enfrentam ataques, deslegitimação de competências, assédio, ameaças, notícias falsas e tentativas de silenciamento, práticas recorrentes que visam nos afastar da vida pública ou limitar nossa atuação. Tudo isso se soma a uma realidade em que elas já acumulam múltiplas jornadas e responsabilidades na vida privada, sendo constantemente exigidas a dar conta de todos os desafios impostos socialmente”, discorre.
A disparidade entre homens e mulheres na política é constatada no comando dos partidos políticos. Das 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), este ano, apenas três são presididas por mulheres, representando apenas 10% de todas as agremiações partidárias.
“Muitas mulheres não recebem apoio adequado, formação política, recursos financeiros ou visibilidade, chegando às eleições em condições desiguais de disputa. Sem enfrentar esse problema estrutural, a paridade política seguirá sendo mais um ideal distante”, pontua Helenira.
Cenário desafiador
A antropóloga Naíra Gomes lembra que estudos publicados durante a pandemia de covid-19 apontaram que nações lideradas por mulheres obtiveram resultados mais positivos na gestão da crise sanitária, especialmente em relação a crianças e idosos, por conta do investimento em políticas voltadas ao bem-estar social.
“Este é um importante dado para percebermos que as mulheres à frente de processos de poder, estratégia e decisão costumam incidir na direção do direito coletivo”, afirma a CEO da É pra Caber, empresa especializada em consultorias, formações, projetos e soluções institucionais em áreas como direitos humanos, diversidade e inclusão.
O cenário é ainda mais desafiador para as mulheres negras, aponta Naira. “Angela Davis (escritora, filósofa e ativista estadunidense) afirma que estar na base da pirâmide não é confortável, não é o lugar que queríamos estar. E não há avanços sem que esta base se movimente. Os poderosos, ricos e brancos não estão interessados nas pautas relacionadas a elas, a exemplo da reforma tributária”, afirma, pontuando que as ‘chefas’ de famílias periféricas, com tripla jornada de trabalho, são as que mais sentem no bolso o peso dos impostos.
As mulheres, que são a maior parte do eleitorado, reflete a antropóloga, precisam demonstrar força para combater narrativas machistas e misóginas que desaprovam ou desestimulam o voto feminino. “É um discurso retrógrado que vem sendo repercutido publicamente, mas que não vai nos silenciar. Estar dentro das instituições, ocupando cargos de estratégia, de coordenação, de direção, de execução, é um direito das mulheres assegurado legalmente.”
A pedagoga Ró Valentim, moradora de São Francisco do Conde, resgata dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que sinalizam o município com a maior proporção de pessoas negras no Brasil (94%, sendo que 49,9% se autodeclararam pretas e 44,1%, pardas) para recordar que a cidade já foi referência, também, na forma de administrar, tendo à época a prefeita negra Rilza Valentim. “Em um país em que o racismo estrutural e a misoginia parecem não ter data para acabar, São Francisco do Conde tem sido um ‘quilombo’, com a representação negra buscando seu protagonismo na história”, destaca
Ela, que em 2024 viveu a experiência de ser vereadora e ter sido candidata à prefeita, fala dos desafios enfrentados por ser mulher. “Mais do que ninguém, sabemos as dificuldades a que passamos pela ausência de algumas políticas públicas que nos favoreçam. O apoio que recebi de deputadas engajadas na luta das mulheres foi de grande importância para que eu pudesse ter o direito de concorrer às eleições”, recorda.
A esse panorama, se somam, ainda, as mulheres indígenas e as LBTQIAPN+, entre outros grupos historicamente marginalizados, “que enfrentam barreiras adicionais marcadas pelo racismo, pela discriminação e pela exclusão estrutural”, como reforça Helenira Meira.
Ampliar a participação das mulheres na política, acrescenta a publicitária, “exige não apenas garantir acesso, mas também assegurar condições reais de permanência, segurança, desenvolvimento e protagonismo, elegendo mulheres comprometidas com a defesa dos direitos sob as perspectivas de gênero, raça e classe, e que atuem na proteção e no fortalecimento da democracia”.
Lídia Rodrigues: “votar e ser votada são duas coisas bem diferentes”
Ainda jovem, nos anos de 1970, época de ditadura militar no Brasil, a então professora e bancária Lídia Ferreira Rodrigues já se incomodava com a falta de independência da grande maioria das mulheres, a quem era “permitido” votar, contudo, “submetidas aos interesses da sociedade patriarcal”. Também podiam se candidatar, “quando era necessário preservar o capital político dos coronéis ou chefes políticos, principalmente no interior mais conservador”, destaca Lídia, hoje diretora da União de Mulheres de Vitória da Conquista e integrante do Conselho Consultivo da União Brasileira das Mulheres.
Engajada no propósito de contribuir na campanha para eleger um maior número de mulheres, Lídia afirma que direitos e salários iguais, políticas públicas equitativas nos espaços privado e público, fim da violência contra a mulher e direito de se candidatar em igualdade de condições e de financiamento continuam sendo as principais bandeiras femininas.
“Qualificar o voto, hoje, passa, também, pelo rompimento da atuação do poder econômico no processo eleitoral e da construção de projeto de nação participativo, democrático e soberano, para que trabalhadores e trabalhadoras possam votar em quem, realmente, represente seus anseios”, avalia.
Lídia assinala que as mulheres só se deram conta de que não tinham direitos e muito menos autonomia há poucas décadas do final do século 20. Era uma época, ressalta, que falar em candidaturas populares e/ou femininas significava transgressão.
“Votar e ser votada eram duas coisas bem diferentes”, observa. Frequentar escolas e universidades, entretanto, permitiu às mulheres não só lutarem pela democratização do país, como se organizarem para enfrentar as desigualdades de participação no processo democrático.
Voto feminino nos maiores colégios eleitorais da Bahia
- Salvador - Nº de eleitores – 1.951.716/ Feminino – 55% (1.082.642)
- Feira de Santana - Nº de eleitores – 434.532/ Feminino – 55% (240.467)
- Vitória da Conquista - Nº de eleitores – 264.091/ Feminino – 54% (143.267)
- Camaçari - Nº de eleitores – 210.363/ Feminino – 54% (114.291)