MÚSICA
Após emoção com Olodum, cantor de origem chinesa se muda para Salvador e lança EP
Frank Song Jr. lança EP em Salvador com influências chinesas e afro-brasileiras


O cantor, compositor, multi-instrumentista e performer estadunidense Frank Song Jr. lança neste sábado, 2, em Salvador, seu terceiro EP, Slow Down. O trabalho será apresentado em um evento no Espaço Fusion, no Pelourinho, das 18h às 23h, com show intimista, apresentação do audiovisual do projeto, performances circenses e set de TecnoPlanta.
Produzido em Salvador por uma equipe formada por profissionais LGBTQIAPN+, o EP atravessa temas como sexualidade, liberdade e saúde mental, aproximando referências da música tradicional chinesa, R&B, jazz e ritmos afro-brasileiros.
Criado entre o Sul dos Estados Unidos e Li Ling, cidade rural de Hunan, na China, Frank encontrou em Salvador um espaço para aprofundar uma trajetória marcada por diferentes referências culturais. A relação com a cidade começou em janeiro de 2025, quando veio pela primeira vez para a capital baiana. A experiência de viver o Carnaval foi decisiva para a escolha de se mudar.
“Eu sabia que eu precisava viver em outro lugar, mas ainda não sabia aonde. Quando eu cheguei aqui, quando escutei Olodum, quando eu vi aquela multidão na rua no Carnaval, eu chorei de emoção. A corporeidade, a riqueza cultural, o modo como as pessoas se relacionam, se comunicam, eu entendi que aqui era um lugar onde eu precisava morar, mergulhar, conhecer melhor”, conta Frank.
Fonte de cura

A relação de Frank com a música começou ainda na infância, influenciada pelas memórias dos avós chineses, que trabalhavam no campo durante o verão e cantavam à noite em Li Ling durante o inverno. Aos sete anos, ele começou a estudar violino nos Estados Unidos e, posteriormente, aprendeu piano, teclado e violão de forma autodidata. Na adolescência, aproximou-se da música clássica, participou de orquestras e desenvolveu também a atuação como cantor.
Mais tarde, artistas como Whitney Houston e Erykah Badu o aproximaram de sonoridades como jazz, R&B, folk e soul. Durante a pandemia, porém, Frank se afastou da música para concluir sua formação em Medicina Holística e iniciar uma residência. Foram dois anos longe dos palcos, período que acabou dando origem à faixa que batiza o novo EP.
“Fiquei dois anos afastado da música e isso fez muito mal à minha saúde mental. Foi a partir daí que escrevi Slow Down, a música título do meu EP. A música para mim é uma fonte de cura”, afirma.
Depois da pausa, o artista se mudou para Nova York e voltou a se apresentar em bares e pelo projeto Sofar Sounds. Foi nesse período que conheceu Nathan Dies, produtor brasileiro radicado nos Estados Unidos, que gravou o EP no estúdio Flying Paca e o incentivou a conhecer a Bahia. A sugestão dialogava com a pesquisa musical que Frank já desenvolvia e com seu interesse por diferentes tradições culturais.
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Encontro de referências
A chegada a Salvador ampliou uma pesquisa que já fazia parte da trajetória de Frank. Antes de se estabelecer na cidade, o artista começou a estudar dança com a professora e coreógrafa Quênia Ribeiro, com quem conheceu aspectos da história do samba no Rio de Janeiro e na Bahia.
As primeiras experiências de gravação em Salvador aconteceram em agosto de 2025, no Estúdio 12 por 8, no Rio Vermelho. Frank conta que aquele momento foi decisivo para sua escolha de permanecer na cidade. Ao explicar aos músicos o significado e a importância cultural de uma das músicas que estava gravando, percebeu uma conexão que considera rara.
“Foi um momento profundo para mim, porque pude vivenciar o talento, a conexão e o espírito dos músicos baianos”, lembra. Segundo ele, os músicos também encontraram suas próprias formas de compreender a composição. “Senti como os músicos realmente se conectaram com o significado da música e como eles tinham seu próprio contexto cultural e espiritual para entender minha música, a magia e as tradições por trás da arte”.
A experiência fez Frank querer aprofundar a relação com os artistas locais. “Eu soube que precisava ficar e continuar trabalhando com artistas aqui em Salvador”, afirma. A intenção era conhecer melhor “a rica sabedoria cultural da Bahia, que cultiva a conexão espiritual e a expressão artística”.
Essa troca também aparece na sonoridade de Slow Down. Uma das faixas foi trabalhada com a DJ baiana Tecnoplanta, a partir de uma conversa sobre as referências culturais dos dois artistas. A música já trazia instrumentos, sons e samples relacionados ao dialeto e à música de Hunan. Tecnoplanta acrescentou elementos ligados às tradições árabes e afro-diaspóricas baianas.
Construção coletiva

Produzido em Salvador, o projeto conta com a direção executiva e produção executiva de Thalieta Crodì, direção de arte e roteiro de Brisa Brasileiro, direção de fotografia de Klismann Schramm e Xavier e edição e montagem dos visualizers de Polém Acácio. A equipe trabalhou na construção de uma narrativa visual sobre as marcas de ter crescido como filho de imigrantes, especialmente a relação entre pobreza, insegurança financeira e uma busca constante por sucesso.
A partir dessa experiência, desacelerar aparece como uma possibilidade de cura. “Eu e minha família merecemos libertação e paz”, afirma. Para traduzir essa ideia, a equipe criativa trabalhou com simbologias, cores, locais de gravação e figurinos. “O mundo moderno muitas vezes nos força a agir rapidamente e ir além de nossas possibilidades. Precisamos encontrar momentos para refletir sobre o poder curativo de desacelerar.”
A cultura queer também atravessa esse processo. Para Frank, ela é um espaço de encontros, laços e fortalecimento, além de estar ligada à experimentação artística, à luta contra opressões e à cura. Em Salvador, toda a equipe envolvida na produção audiovisual do EP é formada por profissionais LGBTQIAPN+.
Acolhimento
Produzir no Brasil também modificou a relação do artista com a própria identidade cultural. Criado entre as culturas chinesa e estadunidense, Frank passou parte da carreira produzindo músicas a partir de suas experiências como artista asiático e queer nos Estados Unidos. Segundo ele, racismo, incompreensão e fetichização fizeram parte desse percurso.
No Brasil, afirma ter encontrado mais segurança para compartilhar sua identidade e sua cultura. “Sinto um respeito muito maior pelo meu trabalho aqui no Brasil. Sinto-me seguro para me expressar e expressar minha arte. Sinto-me seguro para compartilhar minha cultura com as pessoas aqui no Brasil”.
Após o lançamento, o artista pretende circular com Slow Down por espaços culturais de Salvador e outras cidades brasileiras. A proposta é ampliar, por meio da música, da arte e da performance, o intercâmbio entre suas raízes chinesas, sua experiência nos Estados Unidos e as referências encontradas na Bahia.
Os próximos passos já estão definidos. Um novo álbum está gravado e tem lançamento previsto para 2027. Produzido por Fernando Tavares e gravado no Estúdio 12 por 8, em Salvador, o trabalho conta com a participação da cantora baiana Aiace em uma das faixas e será o primeiro álbum de Frank produzido inteiramente no Brasil.
Lançamento do EP “Slow Down” de Frank Song Jr. Hoje, das 18h às 23h / Espaço Fusion (Rua do Bispo, 9, Pelourinho) / Para convidados
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


