ROCK ‘N’ ROLL NA RUA
Lenda do rock baiano anuncia show gratuito nas ruas de Salvador
Show gratuito no Rio Vermelho vai virar cena de documentário sobre o rock baiano


A banda soteropolitana The Honkers é um daqueles fenômenos que só o resiliente e renitente rock baiano é capaz de proporcionar: estilisticamente, é uma salada. Está na cena há quase 30 anos. O vocalista já ficou pelado no meio de um show, no maior festival mainstream da cidade (aquele mesmo, que se repete a cada verão). Se apertaram em um Santana Quantum até a Argentina para fazer dois ou três shows. Tem fãs devotados. Para contar essa história, o cineasta Rodrigo Araújo vem filmando um documentário há dois anos. E no dia 8 próximo, a banda vai fazer um show gratuito no meio da rua para filmar as últimas cenas do doc.
Será em um fim de tarde de domingo, na Travessa Basílio de Magalhães, no Rio Vermelho, em frente ao bar Área 51 (já tem até gente chamando o local de ‘Novo Calypso’, mas abafa o caso).
No palco – ops, na rua – o célebre Rodrigo Sputter Chagas, o cantor, poeta beat baiano e líder da banda, vai fazer o que sabe fazer melhor: tocar o caos e, aqui e ali, receber alguns convidados, entre os muitos ex-membros e amigos da banda. Ao seu lado, os fiéis Felipe Brust (guitarra e backing vocal), PJ (guitarra), Tripa 77 (baixo) e Thilindão (baixo).
“Rodrigo (Araújo, o diretor do doc) fala que já temos quase 30 anos de banda, e na teoria, ele não tá mentindo. Em abril de 1997 eu montei a banda junto com um amigo, quando soube que ele procurava um vocalista pra uma banda de punk/ska. Nesse mesmo ano, chamei PJ, porque eu sempre quis montar uma banda com ele. PJ é uma lenda da Cidade Baixa, meu mestre/professor. Também nesse mesmo ano conheci Thiago (Thilindão) e chamei ele. Mas somente em junho de 1998 quando Brust entrou, que viramos banda de verdade, começamos a ensaiar e planejar o primeiro show”, relata Sputter.
Esse primeiro show, como quase tudo que os Honkers costumam fazer, foi bombástico: ocorreu em outubro de 1998, em uma casa bem em frente ao Parque Costa Azul, que pertencia ao pai de Brust, havia sido vendida e logo depois, foi demolida – inclusive metade do trabalho da equipe de demolição foi feito nessa noite – pela banda e pelo ‘animado’ público que compareceu.
“Creio que você foi nesse show (sim, este repórter estava lá). Foi na casa de Brust. Tava a galera dos Dead Billies, Cascadura, Rogério BigBross, Ricardo Spencer, uma rapa de gente e de bandas da cena. Mas depois de tanto tempo e tanto álcool, entre outras coisas, pode ter feito muita gente esquecer. Tanto que essa é nossa piada interna: ninguém viu esse primeiro show”, diverte-se o cantor.
Naquele período inicial, entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, a banda estava bem ativa: fez muitos shows no lendário Calypso e outros cantos, viajou para o Sudeste (onde quase destruíram uma boate na Rua Augusta, em São Paulo), gravaram uns dois ou três CDs e fizeram a mítica viagem de carro até a Argentina (há relatos detalhados na Internet, vale a pena buscar).
Dos anos 2010 para cá, a banda começou a ter hiatos maiores entre shows e gravações, e assim veio se mantendo, mas sempre que marca um show, a rapaziada fã comparece. “Esse filme, da produtora Malta, nasce do desejo de explicitar a pesquisa musical e a trajetória dessa banda, com essa sonoridade tão única e tão peculiar aqui em Salvador”, diz o outro Rodrigo – Araújo, diretor do documentário.
“Ele tem sido filmado nos últimos dois anos, de maneira totalmente independente. A Malta e a banda já tem parcerias antigas na produção de videoclipes e de curtas-metragens. A previsão é lançar no início do ano que vem, em um momento em que a banda está próxima de completar 30 anos. Esse show existe em função da gravação do filme, quando será gravada a última cena, que será na rua”, acrescenta o cineasta.
Leia Também:
Amor e o mundo estranho
Sputter conta que esse show foi uma sugestão dele, e que Araújo topou na hora: “O show vai ser pra isso. Tive essa ideia e falei com Rodrigo e ele adorou. Tocar na rua, essa coisa mais despojada, punk, do it yourself”.
“Esperamos captar toda a insanidade de um show dos Honkers, na rua, final da tarde, mas com pessoas de todas as idades lá, participando. Tem gente que me contou que vai levar o filho, a sobrinha, a tia, o avô. Minha mãe está com Alzheimer, mas ainda se lembra da banda e quer ir. Enfim, é um show do Honkers família. Mas não espere nada de tradicional e conservador”, espezinha o vocalista.
Segundo Sputter, mais do que sobre uma banda de rock underground, este será um filme sobre... amor.
“Sim, ele fala principalmente do amor. Do amor pela música, pelas canções, de amizade (e suas dificuldades ao longo do tempo, pois é um casamento de várias pessoas num projeto de vida) e do amor à arte. Apesar de toda depressão, tristeza, dificuldade, esse amor às canções faz com que chutemos toda a energia ruim pra longe”.
“Fazemos música para não enlouquecer num mundo cada vez mais estranho. Mas essas pessoas estranhas a esse mundo estranho encontram na arte, nas canções, o seu templo de salvação. Tentamos arrebanhar almas, mas sem dogmas, pra chutar a caretice e a chatice pra lá, pra bem longe. Um belo chute de coturno na caretice reacionária, pois o rock ‘n’ roll nasceu, e ainda é, a desconstrução de uma sociedade que não aceita pessoas diferentes. E as canções transformam essas diferenças em coisas especiais”, conclui Sputter.
The Honkers / Dia 08/11 (domingo), 17h / Em frente ao bar Área 51 Travessa Basílio de Magalhães, 90 - Rio Vermelho) / Couvert solidário


