CHEIA DE GÁS!
Marina Lima celebra 71 anos com show histórico na Concha Acústica
De 'Fullgás' a hits inéditos: o que esperar do retorno de Marina Lima a Salvador neste domingo


“Eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar”. Quando Marina Lima cantou essa frase, talvez já houvesse nela algo que atravessaria sua carreira inteira. Uma certa impossibilidade de ficar parada, de permanecer muito tempo dentro da mesma forma, de aceitar que uma canção, um corpo ou uma artista precisam obedecer ao tempo em que foram criados. Aos 71 anos, completados nesta quinta-feira, 17, a cantora, compositora e arranjadora continua fazendo música no próprio ritmo, interessada no que ainda pode experimentar e transformar em canção.
É nesse ritmo, entre tantos outros, que Marina chega à Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste domingo, 20, às 19h. Integrante do projeto Concha Para Todos, o show marca a passagem por Salvador da turnê Marina Lima 70, criada em celebração às sete décadas da artista. No repertório, sucessos como Fullgás, À Francesa e Uma Noite e Meia dividem espaço com canções de Ópera Grunkie, seu trabalho mais recente.
Seu tempo
Se Fullgás transformou em canção uma espécie de estado permanente de combustão, Marina parece ter levado essa ideia para a própria carreira. Desde o primeiro álbum, Simples Como Fogo, lançado em 1979, a cantora se manteve atenta às mudanças ao redor e também às próprias inquietações. Nos anos 1980, tornou-se uma das vozes centrais do pop brasileiro e emplacou músicas que permaneceram na memória de diferentes gerações. Ao longo das décadas seguintes, continuou incorporando referências e linguagens ao trabalho.
Essa disposição também aparece na maneira como Marina lida com a passagem do tempo. A idade não funciona como fronteira para sua criação. Ela nunca precisou parecer jovem para permanecer contemporânea. Seu trabalho se mantém atento ao que acontece ao redor porque a artista continua disponível para ser atravessada pelo presente.
Ópera Grunkie é parte dessa trajetória. Lançado em março deste ano, o álbum reúne músicas inéditas e parcerias com Laura Diaz, Ana Frango Elétrico e Adriana Calcanhotto, aproximando Marina de outras gerações e de uma produção musical em constante transformação. O próprio termo “grunkie”, criado pela cantora, define pessoas que ela associa à liberdade, inteligência, talento e coragem.
O disco também ocupa um lugar particular na trajetória de Marina por ser o primeiro álbum de inéditas lançado após a morte de seu irmão, Antonio Cícero, em 2024. Poeta, filósofo e letrista, Cícero foi um dos principais parceiros da cantora e participou da construção de algumas das canções mais marcantes de sua carreira. A parceria entre os irmãos atravessou décadas e deixou na obra de Marina uma camada de intimidade que ultrapassa a composição.
Nas letras, Marina abre espaço para desejos, inseguranças, excessos e contradições, criando uma relação de proximidade também com quem a escuta. No show, na mesma noite o público pode atravessar Paraísos Artificiais e, depois, encontrar a cantora cantando Billie Eilish. Tudo isso faz parte de uma única artista guiada pela liberdade e disposição de experimentar.
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Uma história com Salvador
Essa abertura para o novo também se relaciona com uma história antiga. Marina guarda uma ligação com Salvador desde os primeiros anos de carreira, quando esteve na cidade para divulgar seu primeiro disco. Na época, ainda tinha pouco mais de 20 anos e passou pelas rádios baianas, além de conviver com primos que moravam na Cidade Baixa.
“Eu tenho uma relação mágica com Salvador”, conta. A lembrança não se limita aos primeiros passos profissionais. Para Marina, a cidade também está ligada à descoberta da música brasileira, algo que a acompanhou desde a adolescência.
“Quando voltei ao Brasil [depois de morar nos EUA durante a infância], adolescente, com 12 anos mais ou menos, a primeira coisa que me instigou foi o Gil e seu violão. E aí veio Gal, Bethânia, Caetano... Entendeu? Tudo isso sempre me atraiu e me influenciou também”, relembra.
A conexão se estendeu ao longo das décadas. Em junho de 2025, Marina esteve na mesma Concha Acústica com a turnê Rota 69, em um show comemorativo aos 45 anos de carreira. Agora, pouco mais de um ano depois, retorna ao mesmo palco com uma nova fase do trabalho. A repetição do endereço reforça uma relação que a cantora descreve como mútua.
“Sempre senti um interesse mútuo, uma conexão muito forte com Salvador e a música baiana”, conta a artista.
Para todos
O retorno acontece dentro do Concha Para Todos, projeto que desde 2024 promove shows na Concha Acústica com ingressos a preços populares. A iniciativa já recebeu artistas como Camisa de Vênus e Zélia Duncan e aposta na reaproximação entre o equipamento cultural e o público soteropolitano.
Para Marina, voltar à cidade continua tendo um significado especial. “É sempre um prazer voltar a Salvador porque tem a ver com uma parte importante da minha vida. Tenho ido menos, mas sempre fico fascinada toda vez”, afirma.
Aos 71 anos, ela chega à Concha com um repertório que carrega décadas de história e um disco que aponta para o que ainda está por vir. Entre uma coisa e outra, permanece a liberdade que atravessa sua obra e Marina parece estar justamente onde sua trajetória sempre a colocou, disposta a mudar sem abandonar o que a torna reconhecível. O tempo passa, as referências mudam, novas canções aparecem e ela segue cheia de gás.
CONCHA PARA TODOS: MARINA LIMA 70 / DOMINGO (20), 19H / CONCHA ACÚSTICA DO TCA (AV. ALBERTO PINTO, 11 - CAMPO GRANDE) / R$ 120 (INTEIRA 3° LOTE), MEIA ESGOTADA / INGRESSOS À VENDA NA BILHETERIA DO TCA


