OPINIÃO
A última compaixão
Confira o editorial deste domingo


Setembro Verde é uma campanha de compaixão sobre a doação de órgãos, mas na Bahia ela precisa ser, sobretudo, um chamado à última responsabilidade. O estado ocupa hoje o pior índice nacional de recusa familiar para doação: 67%, contra uma média brasileira de 45%, um resultado para corar de vergonha.
Em 2025, o índice baiano já era alto, 59%, e continua crescendo. Os números do Registro Baiano de Transplantes (RBATx 2026) revelam milhares aguardando na fila por viver mais e melhor, enquanto a recusa impede a chance.
A fila de espera é um retrato da urgência. São 4.202 pessoas aguardando transplantes, das quais 1.831 esperando por córneas. O desespero humano. De janeiro a julho, foram 617 transplantes. A média de doadores efetivos por milhão de habitantes é de 14,7 na Bahia, enquanto a média nacional está em 20,3.
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A recusa familiar é o principal obstáculo, motivado pela fantasia de “corpo íntegro”, como se depois do enterro não viesse a decomposição. Seria, talvez, “a última quimera” de “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, na tentativa de ocultar a verdade biológica da morte, predominante e irretocável.
Religiões produzem esperança diante da igualdade absoluta de todos os corpos, a derrota das ilusões humanas e a materialidade absurda da existência finita. A saída para restabelecer os fatos como são é disseminar informação confiável por todos os meios possíveis, incluindo o antigo e eficiente método de dialogar.
Ações educativas, depoimentos de transplantados, rodas de conversa e mobilização comunitária ajudam a desfazer mitos e aproximar o tema das famílias. O Hospital São Rafael, por exemplo, promove no dia 9 uma roda de conversa com médicos, líderes religiosos, representantes da sociedade e pacientes transplantados.
A decisão final é da família, quando o doador já não fala. Cada um de nós deve manifestar sua vontade em vida, se possível por escrito.


