OPINIÃO
Aquecimento e risco
Confira o Editorial desta sexta-feira


O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente traz uma conclusão inquietante, capaz de recarregar antigas profecias. O planeta vai ultrapassar a meta de 1,5°C de aquecimento global do Acordo de Paris: o cenário mais otimista prevê 1,8°C acima dos níveis pré-industriais.
A constatação representa muito além de um alerta científico, resgatando tanto quanto possa recuar no tempo as premonições de sábios que viam o futuro. Trata-se do maior mea culpa de toda a aventura humana sobre a Terra, pois lança sua sombra sobre os quatro cantos do planeta refém de seus estúpidos inquilinos.
A comunidade internacional confessa em coro – “errei” – , ao agir com velocidade quelônia diante da maior ameaça da história, sem glórias de mártir ferido. Governos não cumpriram a palavra de reduzir emissões e acelerar a transição energética a fim de evitar “choro” e “ranger de dentes”, previstos em Matheus.
Houve avanços, mas insuficientes para conter a dependência dos combustíveis fósseis e o crescimento da poluição, restando os selos de fogo e o eclipse. Agora, já nem se pode recorrer à clarividência dos séculos de Nostradamus, pois a prioridade é a redução da intensidade e a duração do excesso de aquecimento.
Cada décimo de grau adicional aumenta o risco de eventos climáticos extremos, ameaça ecossistemas e agrava impactos na saúde e na produção de alimentos. O abastecimento de água e a economia estão em risco devido a pequenas elevações de temperatura, desencadeando o derretimento acelerado de mantos de gelo.
A injustiça climática denuncia o egoísmo predominante de uma espécie perdida: o Nepal, berço do Buda, conta seus mortos mesmo sem sequer fazer sinal de fumaça. As alterações na Amazônia se somam às perturbações em sistemas oceânicos necessários para a regulação climática, como um anjo – mau – surgindo no mar.
Está em qualquer profecia que o mundo se acaba um dia, projetando a arte divinatória dos místicos reforçada hoje pela ciência: não há mais cenário seguro.