OPINIÃO
O sol e a peneira
Confira o editorial do jornal A TARDE desta segunda


Seria temer errar apostar na opção mais fiel ao fato, se é mais irresponsável ou perigosa a vacilante postura da administração pública sobre desastres do clima. Ignorar ondas de calor é escolher repetir tragédias. O país tem recursos, conhecimento científico e capacidade institucional para agir.
O Brasil já enfrentou um aquecimento acima da média global. Por isso, a adaptação pede a cooperação imediata entre municípios, estados e governo federal, superando cenário polarizado por projetos de poder antagônicos e irreconciliáveis.
A ameaça continua tratada como incômodo ao passageiro, quando na verdade representa a possibilidade concreta de desastres mortíferos ambientais. O contexto é proporcional aos números alarmantes – 50 mil mortes registradas entre 2000 e 2020.
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A chegada de um novo e poderoso El Niño, prevista para intensificar as condições climáticas, reforça a urgência de enfrentar o problema com seriedade. Teme-se no Nordeste a redução das chuvas já escassas, intensificando secas e labaredas.
No Centro-Oeste, a estação chuvosa chega atrasada; no Sudeste, aumenta a irregularidade climática; e no Sul, eleva-se o risco das temidas enchentes. Trata-se de um choque climático assustador para regiões sem os quais não verás país nenhum: agricultura, energia, transporte, abastecimento e moradia.
O calor extremo agrava doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, afetando trabalhadores, comprometendo a produtividade e pressionando o sistema de saúde. Ainda assim, o país insiste em assimilar a alta temperatura por suas viagens turísticas, associando o tempo quente à identidade dos trópicos.
É o caso de migrar a expressão “tapar o sol com a peneira” do Reino literário das metáforas para uma facticidade inequívoca, de onde vem a escolha dos possíveis. Os fatos são a urbanização desordenada, a desigualdade social e as mudanças climáticas, tornando milhões de brasileiros vulneráveis.


