OPINIÃO
Violência por essência
Cenário alarmante revela crescimento de agressões a pessoas com deficiência


A indignação resulta de uma sensação extrema de injustiça, tornando-se causa eficiente de mudança de um paradigma quando altera sua substância em um agente de ação imediata. Esta pode ser uma das interpretações viáveis para a escalada da violência contra pessoas com deficiência em Salvador, alcançando 13% a mais de denúncias no período de um ano.
O cuidado com a validação de dados sugere uma questão à guisa de ressalva: aumentaram mesmo os ataques ou melhorou o mecanismo de oitiva dos registros de agressão? Caberia, nos acréscimos, um outro complicador: seriam os episódios de tal forma frequentes a ponto de mesmo o índice encontrado ficar aquém de dar conta da realidade?
Independentemente do exame possível, baseado em acuidade, a divulgação da estatística pelo Ministério dos Direitos Humanos já sustenta a pauta de manchete d’A TARDE. Imune aos cânones de números abstratos, a situação encontrada corresponde a corpos empurrados, mentes humilhadas, vidas isoladas de cidadãs e cidadãos agredidos.
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Um cenário estarrecedor, porém aparentemente fidedigno ao espírito violento do nosso tempo, sob uma redoma constituída de egoísmo na qual a compaixão é cada dia mais rara. O contexto conduz à constatação de dois outros móbiles do caráter humano contemporâneo: as essências de maldade e seu "upgrade", a crueldade: o prazer de ser mau.
Inequívoco demonstrativo do processo de extinção das oportunidades de ascese é o caso de Cláudio Rafael Landeiro, agredido e abandonado sem dó nem piedade. Estela França, mãe de três jovens com deficiência intelectual, descreve o medo de conviver em uma sociedade movida por forças cegas, gerando desconfiança, desprezo e impaciência.
Seu filho foi chamado de "vagabundo" ao ocupar um assento prioritário, revelando o quanto a ignorância mobiliza comportamentos desprovidos de empatia. O inferno, neste viés, deixou de ser apenas os outros, como na célebre frase; os diabos, agora, somos todos nós, quem pratica e quem permite estes cotidianos absurdos.


