INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
“Assassinos” e “Jesus”: terreiro Bantu é alvo de ataque em Salvador
Templo religioso teve portões e paredes pichados, no sábado, 19

Por Andrêzza Moura

Era manhã do sábado, 17, quando Tatá Mutá Imê foi surpreendido pela notícia de que seu terreiro, no bairro Cajazeira 11, em Salvador, havia sido pichado com palavras de ódio religioso. Pela primeira vez, em 33 anos de história, o espaço sagrado amanheceu violado e com as marcas da intolerância pintadas em vermelho.
Nos portões de acesso ao Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza - templo religioso de tradição Bantu -, localizado na Rua Geraldo Brasil, e nas paredes da fachada, as palavras "Assassinos" e "Jesus" marcavam o tom do ataque covarde e silencioso, possivelmente, praticado nas primeiras horas da madrugada.
"Eu levantei umas seis e meia, tomei banho, e aí fui até a cozinha da roça [terreiro], que é um pouco mais abaixo, e quando eu cheguei lá, uma filha de santo que tinha acabado de chegar, me perguntou: 'meu pai, você já viu a pichação que fizeram na entrada da roça?' Eu disse não. Ela falou: 'pois é! está lá uma pichação, é melhor você subir e ver”, contou Tata Mutá Imê , como ficiou sabendo do crime.
Ele relembra que, ao subir até a entrada do terreiro, o impacto foi imediato. “Eu chamei um filho meu de santo e nós fomos até lá em cima. Quando a gente chegou lá e abriu o portão, estava lá escrito assassinos no plural. Cobrindo o letreiro do nome do terreiro, o portãozinho de entrada de pedestre, também todo pintado de vermelho. E o portão maior, onde entram os carros, escrito Jesus”, descreveu.
Mas, foi a palavra “assassinos”, escrita em destaque, que lhe provocou mais revolta e perplexidade. “Quando eu vi, eu tomei um choque! Porque a palavra assassinos no plural é muito chocante. Eu fiquei me perguntando: assassino por quê? Eu assassinei quem? Quem são os assassinos?”, questionou o sacerdote.

Para Tatá Mutá Imê, o ato revela ódio e ignorância religiosa. “Os assassinos são o povo de Deus, que faz um trem desse, que invade um terreiro sagrado, um território sagrado para pichar por conta do ódio, o ódio religioso, a ignorância”, afirmou, em tom de indignação.
Crime coletivo
O Tateto acredita que o ataque não foi cometido apenas por uma pessoa. “Não foi coisa de uma pessoa só, foi coisa de duas, três, quatro pessoas, que conseguiram fazer daquele jeito”, aponta.
Apesar da violência simbolica, o sacerdote reforça que nunca houve qualquer conflito com a vizinhança ou outros grupos religiosos e, por isso, não tem noção de quem possa ter praticado o crime. “Nunca, nunca, nunca. São 33 anos ali [na rua/ bairro], só fazendo trabalho social”, destacou.

Ele ressaltou ainda que sempre manteve uma relação de respeito com os vizinhos, tomando cuidado, inclusive, para realizar as atividades no terreiro em horários que não os incomodem. “As minhas festas começam cedo, quatro, cinco horas da tarde. Antes das nove [horas da noite], já acabou. A gente nunca teve desavença ali com ninguém”, reafirmou.
Tata Mutá Imê fez questão de destacar que o episódio ganha um significado ainda mais simbólico, já que ocorreu poucos dias antes do dia 21 de janeiro - data que marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil. "Em pleno século XXI, quase no dia contra a intolerância religiosa, essas figuras fazem isso...”, lamentou.
União, luta e justiça
Mesmo diante do ataque, ele afirma não sentir medo. “Eu não tenho medo. Eu vou convocar meu povo, o povo de santo, a gente vai partir pra cima”, reforçando que a reação será por meio da mobilização e da luta por justiça.

O caso foi registrado na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin), na tarde desta segunda-feira, 19. O Portal A TARDE entrou em contato com a Polícia Civil, por meio da assessoria de comunicação, para obter mais informações sobre as investigações. O órgão afirmou que apura o fato como "crimes de dano e intolerância religiosa".
"A Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) investiga uma ocorrência dos crimes de dano e intolerância religiosa, ocorridos em um templo religioso, no bairro de Cajazeiras XI, na manhã de sábado (17). Segundo informações da ocorrência, o muro do templo foi pichado com ofensas de cunho religioso, além de danificar um equipamento eletrônico. Diligências são realizadas para esclarecer a autoria dos crimes", diz a nota da PC.
Denúncias de racismo e intolerância religiosa podem ser feitas pelo site delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/ ou diretamente na Decrin. A unidade fica localizada na Rua Padre Luiz Figueira, no final de linha do Engenho Velho de Brotas, em Salvador.
Repúdio
Em nota de repúdio, a Frente Nacional Makota Valdina, em parceria com o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, classificou o ataque como racismo religioso e crime de ódio. O texto afirma que a pichação com as palavras “Assassinos” e “Jesus” representa uma violação direta à liberdade religiosa e à dignidade das religiões de matriz africana.
O documento também destaca que o Estatuto da Igualdade Racial e a Constituição Federal garantem o livre exercício da fé e exigem a responsabilização dos autores. “Exigimos que os responsáveis sejam identificados e punidos conforme a lei”, afirma um trecho da nota.
Nota na íntegra
"A Frente Nacional Makota Valdina juntamente com o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza na representação do sacerdote Tata Mutá Imê vem a público manifestar seu mais veemente repúdio ao ato de racismo religioso e intolerância ocorrido no último sábado, quando as paredes de entrada de nosso espaço sagrado foram pichadas por supostos evangélicos* com as palavras “Assassinos” e “Jesus”.
Tal ação não é apenas uma ofensa à nossa comunidade religiosa, mas configura um ataque direto à liberdade de crença, ao direito constitucional de culto e à dignidade das religiões de matriz africana. Trata-se de um crime motivado por ódio religioso, que reforça estigmas, incita a violência simbólica e perpetua o racismo estrutural historicamente imposto aos nossos povos.
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Ressaltamos que o Estatuto da Igualdade Racial do município, assim como a Constituição Federal, repudiam e combatem atos de discriminação e intolerância religiosa, assegurando a todas e todos o direito ao livre exercício de sua fé, sem perseguições ou ataques.
Diante disso, exigimos que os responsáveis sejam identificados e punidos conforme a lei, e que as autoridades competentes tomem as providências necessárias para garantir a segurança, o respeito e a justiça".
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