CRIME ORGANIZADO
Raio-X das facções: o mapa das novas conexões entre o Rio de Janeiro e a Bahia
Presença do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro no estado importou rivalidades históricas do Rio e intensificou disputas por território

O crime organizado brasileiro vive um novo momento de reorganização, impulsionado pela expansão territorial de grandes facções para além de seus estados de origem. No centro desse movimento estão três grupos historicamente dominantes no Rio de Janeiro: Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigo dos Amigos (ADA). Desses, dois já ultrapassaram as fronteiras fluminenses e passaram a atuar diretamente na Bahia, alterando o equilíbrio entre facções locais e intensificando disputas violentas.
No Rio de Janeiro, além dessas organizações, o controle territorial também é fragmentado por milícias armadas e pelo jogo do bicho, que mantêm influência histórica em diferentes regiões. Ainda assim, CV, TCP e ADA seguem como os principais símbolos do narcotráfico carioca, com o Comando Vermelho ocupando posição de maior força.
Na Bahia, a presença do CV e do TCP não é apenas pontual. A chegada dessas facções importou rivalidades antigas do Rio, agravando conflitos já existentes no estado e aprofundando a fragmentação do crime organizado.
A chegada do CV e a divisão do crime na Bahia
A entrada do Comando Vermelho em território baiano ocorreu de forma agressiva, com a proposta de retomar áreas antes controladas pelo Bonde do Maluco (BDM), facção criada na Bahia que, ao longo dos anos, manteve alianças estratégicas com grupos de fora do estado.
Inicialmente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, o BDM passou a se aproximar também do Terceiro Comando Puro, criando um novo arranjo criminoso. Esse movimento intensificou disputas locais ao incorporar rivalidades históricas originadas nas favelas cariocas.

Como resultado, o crime organizado na Bahia passou a se dividir em dois grandes blocos. De um lado, o chamado bloco “tudo2”, liderado pelo Comando Vermelho. Do outro, o bloco “tudo3”, formado pela aliança entre o Bonde do Maluco, o PCC e, mais recentemente, o TCP. A polarização elevou o nível de violência e ampliou a disputa por territórios estratégicos.
Já o Amigo dos Amigos (ADA), apesar de sua importância histórica no Rio de Janeiro, não possui registros consistentes de atuação na Bahia.
Comando Vermelho: da Ilha Grande à liderança nacional
O Comando Vermelho surgiu em 1979, no antigo Presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, unidade marcada por extrema violência e conhecida como “Caldeirão do Diabo”. O local reunia presos comuns e políticos durante a ditadura militar e acabou se tornando o berço da facção.

Inicialmente chamada de Falange Vermelha, a organização teve como uma de suas figuras centrais William da Silva Lima, o “Professor”, condenado por crimes como assaltos a banco, sequestros e extorsões. A partir da década de 1990, o CV consolidou sua força e passou a dominar vastas áreas do Rio de Janeiro.
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Estudos recentes apontam que a facção controla mais da metade das áreas ocupadas por grupos armados no Grande Rio. Em 2023, o CV concentrava cerca de um quinto dos territórios da capital, metade da Baixada Fluminense e quase a totalidade do Leste Metropolitano.
Atualmente, o grupo é considerado a maior facção do Rio e uma das maiores do país. Seu funcionamento lembra estruturas mafiosas, com domínio da cadeia do tráfico de drogas, controle de armamentos e uso crescente de tecnologia, como a fabricação clandestina de armas e o emprego de drones em confrontos armados.
TCP: ascensão, simbologia e expansão
O Terceiro Comando Puro surgiu em 2002, após o enfraquecimento do antigo Terceiro Comando, que havia se formado no fim dos anos 1990 como oposição direta ao CV. A reorganização ocorreu depois de conflitos internos e rebeliões no sistema prisional fluminense.
Hoje, o TCP é a segunda maior facção do Rio de Janeiro e mantém domínio sobre áreas estratégicas, como o chamado Complexo de Israel, na Zona Norte da capital. A região reúne comunidades como Parada de Lucas, Cidade Alta e Vigário Geral, onde símbolos religiosos passaram a marcar o território da facção.

O grupo se destaca não apenas pela violência, mas também pelo uso da religião como instrumento de controle social, com líderes que se apresentam como evangélicos e utilizam discursos religiosos para legitimar autoridade. A facção também se beneficiou, em determinados momentos, de alianças com milicianos, o que impulsionou sua expansão.
Atualmente, o TCP controla cerca de 10% do território da capital fluminense e mantém influência relevante na Baixada Fluminense, embora tenha presença menor no Leste Metropolitano.
ADA: de rival histórico à perda de influência
O Amigo dos Amigos surgiu em 1998, após uma ruptura violenta dentro do Comando Vermelho (CV), marcada por traições e assassinatos entre lideranças. Durante os anos 2000, a facção chegou a disputar áreas importantes no Rio, mas perdeu força ao longo do tempo.
Hoje, o ADA é a facção de menor influência entre as três, controlando uma pequena parcela da capital fluminense e sem presença expressiva em outras regiões metropolitanas. Diferente de CV e TCP, não há indícios de sua atuação estruturada na Bahia.
Expansão nacional e impacto regional
A presença de facções cariocas na Bahia evidencia um fenômeno mais amplo: a nacionalização do crime organizado. Ao importar alianças, métodos e rivalidades, esses grupos ampliam sua influência e tornam os conflitos mais complexos, afetando diretamente a segurança pública.
Na Bahia, o avanço do CV e do TCP não apenas redesenhou o mapa do crime, como também intensificou disputas locais, consolidando um cenário de blocos rivais e violência persistente — um reflexo direto das guerras travadas há décadas nas periferias do Rio de Janeiro.
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