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Feminicídio em Salvador expõe rotina trágica de violência doméstica

Entenda as três fases do ciclo da violência doméstica que aprisionam as vítimas

Madson Souza
Por Madson Souza
Mais de 270 mulheres buscam atendimento por dia após novas agressões no Brasil
Mais de 270 mulheres buscam atendimento por dia após novas agressões no Brasil - Foto: Ilustrativa

A cada três mulheres no país atendidas após serem vítimas de violência doméstica, duas relataram que aquela não havia sido a primeira agressão. Os dados demonstram a reincidência desses crimes como uma constante presente em 66,2% desses casos. Os dados são do Atlas da Violência 2026, pesquisa elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) a partir de protocolos do Ministério da Saúde de 2024.

Os números apresentados desenham um panorama cruel que se repete diariamente na Bahia e no Brasil como no crime cometido ontem, quando Wendell Souza da Silva, 31, assassinou Ariane Silva Fonseca, de 28 anos, no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador. O criminoso foi preso em flagrante pela Polícia Civil da Bahia menos de quatro horas após cometer o feminicídio.

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Cerca de um mês antes Ariane havia registrado uma denúncia de agressão contra Wendell após um episódio de violência em que precisou ser atendida no Hospital Geral do Estado (HGE), por conta de um ferimento no olho causado pelo criminoso. Ela registrou a denúncia, se separou dele e ainda assim foi assassinada. A avó de Ariane, Ana Lúcia dos Santos, 71, disse ter visto a neta antes do crime, quando se arrumava para trabalhar e ouviu dela que logo retornaria. "Eu só quero justiça", afirma Ana Lúcia, abalada com a morte da neta.

Tia da vítima, Mariluce Santos, 31, conta que Wendell já havia ameaçado Ariane ao mesmo tempo em que pedia para reatar o relacionamento.

Como outras mulheres vítimas desse crime, não foi a primeira vez que Ariane foi agredida. Dos 186.177 atendimentos do sistema de saúde de mulheres vítimas de violência doméstica em 2024, 100,8 mil já haviam sido agredidas anteriormente.

O número representa cerca de 276 mulheres por dia procurando atendimento após uma nova agressão. O contingente conta ainda com subnotificação devido ao volume de casos que não chegam aos serviços de saúde.

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Ciclo de violência

A socióloga e doutora em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismos da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Amanda Alves, aponta que os dados apresentados pelo Atlas da Violência demonstram que as medidas adotadas ainda não dão conta de proteger as mulheres dessas agressões. Ela explica que esses crimes acontecem em um processo dividido em três fases: a da tensão, da explosão e a da lua de mel.

A primeira fase é quando a mulher percebe um comportamento do parceiro de se tornar mais agressivo, se irritar com facilidade e ela passa a ficar ansiosa com o tom da voz dele. Amanda conta que já neste momento a mulher passa a se sentir culpada e questionar se errou em algum momento. Então a situação vai se tornando mais intensa e agressiva até a fase da explosão, que é quando essa violência ganha forma por meio da agressão física, sexual, patrimonial. Neste momento sentimentos como culpa e vergonha são intensificados e outros problemas como baixa autoestima e dificuldade para dormir surgem.

A socióloga diz que muitas mulheres buscam a separação neste momento, procuram sua rede de apoio ou até prestar queixa, porém vem a fase da lua de mel em que o agressor aparece se dizendo arrependido, pedindo desculpas e com promessas de que aquilo nunca vai se repetir. Todavia essa fase acaba e o ciclo reinicia. “O ciclo se repete e cada vez mais o tempo de cada fase é menor, enquanto esse ciclo se torna mais tenso e violento”, afirma Amanda.

Os desafios para que as mulheres consigam interromper esse ciclo são diversos, como a dependência financeira, emocional, filhos, vergonha, receio de ser julgada, medo e outros. A promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid) do Ministério Público da Bahia, Sara Gama, destaca que apesar de hoje o país contar com uma legislação robusta nestes casos ainda há uma dificuldade no combate a essa violência por conta da demanda que é grande.

O fator emocional, por exemplo, é pouco compreendido dentro dessas ocorrências e precisa ser considerado para uma mudança deste cenário, indica Sara. “Temos que compreender que a relação entre essa mulher e seu agressor é uma relação de afeto, que envolve ou já envolveu sentimento, uma prole em comum, amigos em comum, que fazem com que essa mulher se sinta culpada, responsável, pelo fim dessa relação”, explica a promotora. Ela aponta que é preciso trabalhar para que a vítima compreenda seu papel de vítima e entenda que nenhuma relação vai melhorar se houver violência.

“Não basta só a denúncia ou que ela interrompa aquele relacionamento, ela precisa ser fortalecida com políticas públicas eficazes para não voltar para aquela relação”, ressalta.

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feminicídio violência doméstica

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