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POLÍCIA

PCC movimenta R$ 10 bilhões por ano e investe em negócios lícitos

Facção paulista aplica dinheiro do crime em empresas e contratos públicos

Luan Julião

Por Luan Julião

05/01/2026 - 18:58 h
Ilustrativa - Primeiro Comando da Capital (PCC)
Ilustrativa - Primeiro Comando da Capital (PCC) -

A presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mundo empresarial deixou de ser exceção e passou a compor um padrão investigado por autoridades nos últimos anos. Apurações revelam que recursos oriundos de atividades criminosas da facção circulam tanto em pequenos empreendimentos quanto em grandes companhias, alcançando setores estratégicos da economia e contratos com o poder público.

Levantamentos conduzidos por promotores e policiais indicam que, em parte dos casos, empresas funcionam apenas como instrumentos de lavagem de dinheiro, ocultando a origem ilícita dos recursos. Em investigações mais recentes, no entanto, surgiram indícios de um movimento mais sofisticado: integrantes do grupo e parceiros comerciais passaram a aplicar diretamente valores do crime organizado em negócios formais, buscando retorno financeiro legítimo.

Segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, a facção movimenta atualmente ao menos R$ 10 bilhões por ano. A estimativa foi apresentada em novembro, durante audiência da CPI do Crime Organizado no Senado.

As investigações dos últimos três anos permitem identificar algumas das principais frentes de arrecadação e investimento do grupo criminoso.

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Tráfico de drogas segue como a principal fonte de recursos
Tráfico de drogas segue como a principal fonte de recursos | Foto: Reprodução | Redes Sociais

O tráfico de drogas segue como a principal fonte de recursos. Ao longo da última década, o PCC se estruturou como um dos grandes grupos do narcotráfico na América do Sul, com atuação que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Apurações apontam a existência de lideranças instaladas em países andinos, responsáveis por negociar diretamente com produtores de cocaína, além de rotas que levam a droga até mercados da Europa e da África. Há mais de cinco anos, autoridades também registram a cooperação entre a facção paulista e a máfia italiana ’Ndrangheta.

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A consolidação desse poder teria se intensificado a partir de 2016, após o assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A partir desse episódio, o PCC passou a dominar a rota conhecida como “Caipira”, que atravessa Mato Grosso do Sul e o interior paulista até a capital. Embora concentre forças nesse corredor, a facção também atua, de forma pontual, na rota do Solimões, outra via relevante para o escoamento de cocaína.

Contravenção como fonte de renda

Além do tráfico, a contravenção aparece como fonte constante de renda. Investigações do Ministério Público e da Polícia Civil identificaram a atuação do grupo em casas de apostas ilegais, especialmente por meio de máquinas de pagamento instaladas em estabelecimentos clandestinos. Esses achados deram origem à Operação Spare, que mantém conexões com a Operação Carbono Oculto. Em outra frente, a Operação Falso Mercúrio revelou indícios de que valores provenientes de caça-níqueis na Grande São Paulo eram direcionados para uma loja de carros de luxo, com o objetivo de lavagem de dinheiro. A Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 6 bilhões em bens e contas dos investigados.

Golpes virtuais e fraudes financeiras

Golpes virtuais também entraram no radar das autoridades. Desde 2023, inquéritos da Polícia Federal e de polícias civis apontam vínculos entre autores de fraudes financeiras — praticadas por telefone, aplicativos de mensagens e internet — e o PCC. Em dezembro daquele ano, uma operação mirou um escritório no centro da capital paulista suspeito de atuar nesse esquema, resultando na prisão de 24 pessoas.

Infiltração no transporte público

O setor de transporte público foi outro alvo de infiltração. Três homens identificados como lideranças da facção — Silvio Luiz Ferreira, o Cebola; Cláudio Marcos de Almeida, o Django; e Décio Luís Gouveia, o Português — figuravam como sócios da empresa UPBus, que operava linhas de ônibus municipais em São Paulo. A companhia foi alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em 2024. Segundo os investigadores, a estratégia envolveu a criação de empresas, contratação de advogados especializados em concessões públicas e participação regular em licitações, o que exigiu do poder público uma resposta jurídica focada na anulação das concessões.

Fraudes em contratos públicos

A atuação em contratos públicos também foi evidenciada em decisões judiciais. Em julho de 2025, a Justiça paulista condenou Vagner Borges Dias, conhecido como Latrell Brito, por liderar um esquema de fraudes em licitações ligado à facção. A sentença aponta o uso de empresas de fachada para simular concorrência e manipular resultados, com contratos superfaturados em diversos municípios do estado. Antes disso, operações do Gaeco já haviam identificado suspeitas em contratos de serviços de saúde e coleta de lixo, especialmente na cidade de Arujá.

Combustíveis e lojas de conveniência

Por fim, a Operação Carbono Oculto revelou uma atuação ainda mais ampla, com uma organização criminosa associada ao PCC presente em toda a cadeia de combustíveis. As investigações apontam controle de etapas que vão desde a estrutura portuária e o refino até usinas sucroalcooleiras, transporte, distribuição, postos de abastecimento e até lojas de conveniência.

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Tags:

contratos públicos fraudes financeiras infiltração empresarial lavagem de dinheiro narcotráfico PCC

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