POLÍCIA
Saiba quem são os pastores evangélicos investigados por estuprar adolescentes
Casal de líderes religiosos é investigado por usar a posição de pastores para ganhar a confiança


Antes de entrar na igreja registrada em Boa Vista, o casal de pastores investigado por estuprar adolescentes construía a imagem de uma congregação voltada para a família, a doutrina cristã e campanhas de fé. Agora, segundo a Polícia Civil de Roraima, a mesma estrutura religiosa teria sido usada para manipular meninas e convencê-las de que os abusos sexuais faziam parte de um propósito espiritual.
Os investigados são Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, de 24. Conforme a investigação, ao menos seis adolescentes, com idades entre 12 e 17 anos, foram vítimas do casal. Eles são considerados foragidos e, de acordo com a Polícia Civil, fugiram para Manaus após o avanço das investigações conduzidas pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), com apoio do Departamento de Inteligência (Deint).
Congregação defendia valores da família
A igreja, localizada no bairro Cinturão Verde, na zona Oeste de Boa Vista, foi registrada oficialmente em 2022 em nome de Wenderson. A ata de fundação é de 13 de agosto de 2021 e define o pastor como presidente da instituição, enquanto Arielly ocupa o cargo de vice-presidente.
O estatuto apresenta a congregação como uma "instituição civil, religiosa e evangélica", "sem fins lucrativos, com sustento, propagação e governo próprios". O documento também informa que o Estatuto "terá força de lei" para os membros da igreja e que a congregação aceita "como única regra de fé e pratica a Bíblia Sagrada".
Entre os princípios estabelecidos pela instituição estão "Adorar a Deus sobre todas as coisas", "Preservar e defender os valores da família à luz da Escritura Sagrada, como instituição fundamental criada por Deus" e "Promover os princípios da fraternidade cristã".
Investigação aponta manipulação pela fé
De acordo com a Polícia Civil, Arielly fazia a aproximação com as adolescentes, enquanto Wenderson utilizava a posição de líder religioso e interpretações de passagens bíblicas para convencer as vítimas de que os atos sexuais tinham um significado espiritual.
"Eles falavam que estava nos versículos, que aquilo era de Deus, que eles tinham sido mandados para praticar aqueles atos contra as crianças. Algumas das vítimas relataram que questionavam se isso não estava errado, e eles, utilizando da fé dessas crianças, praticavam esses abusos", explicou a secretária de Segurança Pública de Roraima, a delegada Eliane Gonçalves.
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A Polícia Civil afirmou ainda que as vítimas eram submetidas a uma sequência de manipulação psicológica e abuso de autoridade religiosa.
"As práticas sexuais eram fruto de uma cadeia sistemática de manipulação, abuso de autoridade religiosa, chantagem e coerção psicológica, o que afasta qualquer alegação de voluntariedade e reforça a gravidade dos crimes praticados, em razão do temor reverencial", detalhou a polícia.
Redes sociais anunciavam cultos e campanhas proféticas
Nas redes sociais, o casal divulgava batismos, cultos voltados para famílias, jovens e reuniões de doutrina. As publicações também anunciavam encontros religiosos em bairros de Boa Vista e na zona rural da capital.
As legendas prometiam "curas, milagres e muito poder em nosso meio" durante "campanhas proféticas". Em outra divulgação, a congregação utilizava a passagem bíblica "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa".
PIX, jantares e medo de denunciar
Segundo a investigação, o casal oferecia PIX e outras vantagens, como jantares, para manter as adolescentes em silêncio. Além disso, as vítimas eram desencorajadas a procurar as autoridades por receio de serem tratadas como rebeldes dentro da igreja.
"Nenhum ambiente e nenhuma posição de autoridade estão acima da lei", reforçou a delegada Kamilla Basto.
A investigação teve início em abril, após a denúncia feita por uma adolescente de 14 anos. Desde então, outras cinco vítimas formalizaram relatos de abuso. A polícia informou ainda que mais cinco adolescentes apresentaram indícios de terem sido vítimas, mas decidiram não prestar depoimento oficial.
Crimes investigados
Wenderson é investigado por estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento da exploração sexual de adolescente ou pessoa vulnerável, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica. Já Arielly responde por estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual.


