CINEMA E POLÍTICA
'Dark Horse' repete fórmula de transformar presidentes em heróis
Cinebiografia de Jair Bolsonaro aposta na mitificação e na superação do ex-presidente


A cinebiografia “Dark Horse”, que retrata a campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018, repete uma fórmula recorrente no cinema político brasileiro: transformar presidentes da República em protagonistas de jornadas heroicas marcadas por superação, perseguição e ascensão ao poder.
Previsto para ser lançado no dia 11 de setembro deste ano, o longa acompanha a trajetória do ex-presidente durante a disputa eleitoral que o levou ao Palácio do Planalto. A produção apresenta Bolsonaro como um “azarão” político — tradução mais próxima da expressão “dark horse” — e utiliza o atentado a faca sofrido pelo então candidato como ponto central da narrativa dramática.
A ideia também aparece na sinopse oficial divulgada pelo site Deadline.
“Inspirado por eventos reais, ‘Dark Horse’ segue Jair Bolsonaro, um intruso controverso que ascende de um capitão de exército desconhecido a líder populista na corrida presidencial em um Brasil profundamente polarizado, apenas para enfrentar um plano mortal de assassinato que transforma sua luta contra um sistema corrupto em uma batalha por sobrevivência, verdade e a alma de uma nação”.
"O filho do Brasil"
A construção narrativa escolhida para o filme, no entanto, não é novidade dentro do cinema político brasileiro. Esse fenômeno, inclusive, é o ponto forte do filme "Lula, o Filho do Brasil", que constrói o líder petista como um protagonista épico de origem humilde através da jornada de um retirante nordestino.
A ideia da obra é focar na superação pessoal e na devoção familiar em vez da militância política. O longa-metragem mitifica o protagonista através do heroísmo pela superação e da figura materna como bússola moral, além de abordá-lo com um líder pacificador e conciliador. O filme narra a história de Lula desde o seu nascimento até a morte de sua mãe, quando foi detido pela polícia na ditadura militar.
A comparação da obra com "Dark Horse" passa a ser inevitável, já que o roteiro de ambos os filmes molda a realidade para criar um arco dramático de resiliência. Em ambos os casos, a narrativa coloca o personagem central como alguém que enfrenta forças maiores, supera obstáculos pessoais e ascende como símbolo de transformação nacional.
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"Líder solitário"
Outro exemplo dessa abordagem aparece em “Getúlio”, filme brasileiro lançado em 2014 focado nos últimos dias de vida de Getúlio Vargas. A obra retrata o ex-presidente em meio à crise política que antecedeu seu suicídio, em agosto de 1954, transformando o ato final do líder político em um lance de mestre calculado.
"A intimidade de Getúlio Vargas (Tony Ramos), então presidente do Brasil, em seus 19 últimos dias de vida. Pressionado por uma crise política sem precedentes, em decorrência das acusações de que teria ordenado o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), ele avalia os riscos existentes até tomar a decisão de se suicidar", diz a sinopse da obra.
Diferente de focar no período em que Vargas governou o país como ditador no Estado Novo, a produção escolhe retratar o ex-presidente como um idoso isolado politicamente. Na tela, o personagem vivido por Tony Ramos é abandonado por ministros e traído por aliados próximos em meio à pressão das Forças Armadas por sua renúncia.
A narrativa constrói a oposição de forma agressiva, enquanto Vargas ganha contornos de vítima de uma conspiração. O desfecho com o tiro no coração é apresentado como a única saída digna para o líder político. Com a leitura da famosa Carta-Testamento no final, o longa encerra a história transformando o suicídio em um ato de sacrifício para salvar os direitos trabalhistas e impedir um golpe de Estado.


