PERDIDO EM SALVADOR?
Entenda por que pinguins aparecem na Bahia durante o inverno
Ave resgatada no Porto de Salvador entrou em exaustão durante a migração


Um pinguim encontrado na área portuária do bairro do Comércio, em Salvador, chamou a atenção de quem passava pelo local na última segunda-feira, 6. O animal, resgatado por equipes ambientais, é o primeiro registrado na Bahia em 2026 e foi encaminhado ao Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA), onde recebe atendimento veterinário.
Embora a cena pareça inusitada, a presença desses animais no litoral baiano durante o inverno não é considerada um fenômeno raro pelos especialistas. Todos os anos, alguns pinguins acabam chegando às praias do Nordeste após uma longa viagem iniciada no extremo sul da América do Sul.
Por que um pinguim sai da Patagônia e aparece em Salvador?
Segundo a médica veterinária e coordenadora técnica do Instituto Mamíferos Aquáticos, Larissa Pavanelli, o inverno marca o período de migração dos pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus).
Após a reprodução no Estreito de Magalhães, na Patagônia, distante 5.409 km de Salvador, os animais deixam as colônias em busca de alimento, acompanhando correntes marítimas em direção ao norte do continente.
"Sendo a espécie mais abundante da Patagônia Argentina, durante os meses de inverno e primavera, os pinguins-de-magalhães migram para o norte em busca de fartura de presas. É comum encontrá-los no Sul e Sudeste do Brasil e, ocasionalmente, alguns indivíduos chegam até a costa da Bahia", explica.
A especialista afirma que, na maioria dos casos, os animais que aparecem no estado são indivíduos juvenis que acabam se afastando da rota principal durante a migração.
Por que eles chegam tão debilitados?
O pinguim resgatado em Salvador apresentou um quadro conhecido como síndrome migratória, condição frequente entre animais que não conseguem concluir a longa viagem.
Segundo Larissa, esses pinguins chegam extremamente debilitados, com desidratação, perda severa de peso e exaustão física.
"Esses animais percorrem grandes distâncias. Alguns não conseguem completar a migração e chegam muito magros, desidratados e sem energia suficiente para continuar nadando."
Quando isso acontece, eles deixam o mar e procuram a areia para descansar. Apesar da aparência tranquila, esse comportamento costuma indicar que o animal precisa de ajuda especializada.
Além da síndrome migratória, alguns indivíduos também podem apresentar ferimentos provocados por embarcações, interação com petrechos de pesca ou doenças infecciosas.
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Como está o pinguim encontrado em Salvador?
O animal foi localizado pela Gerência de Meio Ambiente e Segurança do Trabalho (GMAST), da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), que acionou o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema).
Após o resgate, o pinguim foi encaminhado ao Instituto Mamíferos Aquáticos, onde passa por avaliação clínica, estabilização e reabilitação.
Segundo o IMA, ele chegou apresentando quadro de exaustão e caquexia — condição caracterizada pela perda extrema de peso e massa muscular.
O Inema esclareceu que o resgate de pinguins acontece apenas quando o animal chega à terra, situação conhecida como arribada. Enquanto permanece na água, o descanso faz parte do comportamento natural da espécie e não exige intervenção.
Não é a primeira vez que Salvador recebe um pinguim
Embora surpreenda moradores, Salvador já registrou outros encontros com pinguins nos últimos anos.
Em 2024, um exemplar foi encontrado na praia de Itapuã. Antes disso, em 2015, outro animal apareceu debilitado na praia do Canta Galo, na Cidade Baixa.
Já em 2013, um pinguim morreu após ser resgatado na praia da Pituba, enquanto outro indivíduo era tratado depois de ser encontrado em Madre de Deus, na Região Metropolitana de Salvador.
Todos esses casos reforçam que, apesar de viverem a milhares de quilômetros da Bahia, os pinguins-de-magalhães podem chegar ao litoral baiano durante o inverno como consequência natural de sua migração e das correntes marítimas.
O que fazer ao encontrar um pinguim na praia?
Ao encontrar um pinguim na areia, a principal orientação é não tentar ajudá-lo por conta própria.
Segundo o Instituto Mamíferos Aquáticos, o ideal é:
- não colocar o animal de volta no mar;
- não oferecer água ou alimento;
- evitar toques, fotos muito próximas e barulho;
- impedir a aproximação de crianças e animais domésticos;
- manter o pinguim em local seco, sem colocá-lo no gelo;
- acionar imediatamente os órgãos ambientais responsáveis pelo resgate.
De acordo com Larissa Pavanelli, manipular o animal de forma inadequada pode aumentar o estresse e reduzir suas chances de recuperação.
Bahia já viveu uma invasão histórica de pinguins
Apesar de normalmente receber poucos animais por ano — cerca de dez, segundo o IMA — a Bahia já registrou um episódio considerado histórico.
Em 2008, um evento climático alterou completamente o padrão migratório da espécie e levou 1.630 pinguins-de-magalhães ao litoral baiano, o maior número registrado no Brasil em um único ano.
Já em 2025, o Instituto Mamíferos Aquáticos contabilizou 27 pinguins no estado. Destes, apenas seis chegaram vivos para atendimento veterinário, mas nenhum sobreviveu.


