FORRÓ
Autores invisíveis: descubra quem escreve os clássicos do São João
Compositores responsáveis por canções que atravessam gerações relatam a falta de reconhecimento


Enquanto milhões de brasileiros cantam músicas que embalam fogueiras, quadrilhas e arrasta-pés durante o São João, poucos sabem quem escreveu os versos que atravessaram décadas e se transformaram em parte da identidade cultural nordestina.
Por trás de clássicos gravados por grandes intérpretes, existem compositores que ajudaram a construir a trilha sonora das festas juninas, mas que frequentemente permanecem anônimos para grande parte do público.
A invisibilidade da autoria é uma realidade compartilhada por diferentes gerações de artistas.
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Em entrevistas exclusivas ao portal A TARDE, compositores como Petrúcio Amorim, Maciel Melo, João Sereno, Jó Miranda e Verlando Gomes falaram sobre a criação de sucessos do forró, a relação com a cultura nordestina e os desafios de fazer com que seus nomes sejam lembrados tanto quanto suas músicas.
Quando a música fica mais famosa que quem a escreveu
Poucas histórias ilustram melhor essa realidade do que a do compositor baiano João Sereno. Natural de Juazeiro, ele começou a tocar ainda criança e cresceu compondo canções inspiradas no cotidiano sertanejo. Ao longo da carreira, teve músicas gravadas por importantes nomes da música nordestina, entre elas ‘Forró Pro Mundo', eternizada na voz de Adelmário Coelho.
O compositor lembra que descobriu o tamanho do sucesso da canção de maneira inusitada, quando ouviu um grupo de pessoas cantando a música em um bar de Salvador.
"A música que eu ouvi as pessoas cantando foi 'Forró Pro Mundo', gravada por Adelmario Coelho, que deu título a um DVD na Concha. Eu morava em Salvador na época, na Cidade Baixa, e parei num bar. Estava aquele barulhaço e o pessoal cantando a música".
Ao comentar que era o autor da composição, foi recebido com desconfiança. "Aí eu tive a infeliz ideia de dizer: 'Essa música aí é minha'. O cara olhou com desdém e perguntou meu nome".

A situação mudou quando ele revelou sua identidade. "Quando eu falei 'João Sereno', ele começou a gritar: 'Ei, João Sereno!'. Foi quando eu vi que a música tinha chegado primeiro onde meu nome ainda não tinha alcançado".
A experiência é semelhante à vivida pelo pernambucano Petrúcio Amorim, um dos compositores mais importantes da música nordestina. Nascido em Caruaru, ele acumula mais de 200 músicas gravadas e é autor de clássicos registrados por artistas como Jorge de Altinho, Flávio José e diversos intérpretes do forró.
Segundo Petrúcio, durante muitos anos foi comum ver o público atribuindo suas composições aos cantores que as gravavam. "Muitas vezes, por infelicidade do compositor, o intérprete nem compõe, mas as pessoas acham que aquela música é dele".
O compositor recorda que frequentemente precisava convencer as pessoas de que era realmente o autor das canções. "Às vezes eu dizia: 'Essa canção é minha', e as pessoas ficavam em dúvida. Eu mandava olhar na contracapa do disco, do CD ou do DVD".
Para João Sereno, o problema vai além de casos isolados. "Muitas músicas viram clássicos e os compositores continuam invisíveis."
O brilho dos intérpretes e a sombra dos compositores
Embora reconheçam a importância dos artistas que levam as músicas ao público, os entrevistados afirmam que existe um desequilíbrio histórico entre o reconhecimento dado aos intérpretes e aos autores.
Autor de dezenas de canções gravadas por nomes consagrados do forró, Maciel Melo acredita que a situação está ligada a uma questão cultural. Nascido no Vale do Pajeú, em Pernambuco, o compositor cresceu cercado pela tradição do cordel, dos cantadores de viola e das festas populares do sertão.
"No geral, os compositores ficam meio em segundo plano, no ostracismo. Principalmente quando o compositor não canta", afirma.
Segundo ele, a falta de visibilidade também é reforçada pelos meios de comunicação e pelas plataformas digitais. "Se o compositor for depender dos locutores de rádio ou dos streamings, que não citam o nome do compositor, ele fica apagado".
O cantor, compositor e sanfoneiro baiano Jó Miranda compartilha da mesma visão. Revelado no cenário do forró através da música ‘Lembro', ele afirma que a maior parte dos holofotes costuma ser direcionada aos intérpretes.
"É uma coisa triste, olhando para o lado do compositor. De alguma forma, quem sempre se destaca parece ser o intérprete que está cantando", disse.

Para ele, o reconhecimento público tem um valor que vai além dos direitos autorais. "Os intérpretes poderiam ir no palco, na TV, onde estiver, e falar: 'Essa música é de tal compositor'. Porque não é só a grana. Acho que todo mundo busca o seu reconhecimento, seu lugar no sol, seu nome na história".
Quem também acompanha essa realidade há décadas é Verlando Gomes, cantor, compositor e fundador da banda Flor Serena. Há 26 anos divulgando o forró pé de serra na Bahia e em outros países, ele acredita que a própria dinâmica do mercado musical contribui para essa invisibilidade.
"Normalmente o compositor sempre fica invisível. Ele é o criador das canções, o cantor não faria sucesso sem a composição, mas o compositor fica esquecido", disse.
Embora considere natural que o intérprete receba mais atenção por estar diante do público, Verlando defende que a autoria deveria ser mais valorizada.
"O intérprete é o propagador da música e da criação e naturalmente ele tem muito mais visibilidade do que o compositor." Ele acrescenta: "Mas eu acho que as pessoas deveriam se interessar mais por quem criou as composições e buscar entender como a música foi criada e o que inspirou aquela canção".
A poesia que nasce da vivência nordestina
Apesar das diferentes trajetórias, os entrevistados compartilham algo em comum: a ligação profunda com a cultura nordestina.
Maciel Melo afirma que sua formação artística começou muito antes da carreira profissional. "Eu fui criado no meio de música, porque meu pai era músico. Eu sou de uma região onde a poesia popular, o cordel, predomina".
A relação com o forró surgiu naturalmente. "Minha relação com o forró veio exatamente da minha vivência. Eu fui criado no sertão e fui criado ouvindo forró. O São João era a festa principal da gente".
Para ele, a influência de Luiz Gonzaga é decisiva. "Luiz Gonzaga era, foi e ainda hoje é. A obra dele é a espinha dorsal da música nordestina brasileira. Se não fosse Luiz Gonzaga, não existiria São João".
Petrúcio Amorim também associa sua produção artística às referências culturais do Nordeste. "O que costuma me inspirar são todas as coisas do Nordeste. O Nordeste é muito rico em criação, tanto na parte do humor quanto da emoção".

Já Verlando Gomes afirma que suas referências nasceram ainda na infância. "Eu sou um nordestino nato. Nasci no meio da cultura nordestina. Nasci ouvindo músicas de trabalho na roça com meu avô, músicas de bata de feijão, de reisado".
Ele acrescenta que cresceu ouvindo nomes fundamentais do gênero. "Eu cresci ouvindo Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Marinês e sua gente".
Jó Miranda acredita que essa conexão com as experiências do povo nordestino ajuda a explicar a longevidade dos clássicos juninos. "90% do repertório de São João, junino, é cultural. Ele fala da nossa gente, ele fala da nossa realidade com a seca, ele fala da alegria do nosso povo, ele fala da nossa culinária".
Segundo o artista, essas músicas funcionam como pontes entre gerações. "Eu vejo que a essência dessas músicas é trazer as pessoas para aquele antro em que os avós viveram, os bisavós, até os pais".
Os sucessos que marcaram carreiras
Entre os muitos clássicos do repertório junino, algumas músicas representam verdadeiros pontos de virada para seus autores.
Maciel Melo lembra que sua vida mudou após a gravação de ‘Que Nem Vem Vem’ por Flávio José. "Esse foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Flávio José gravou 'Que Nem Vem Vem', que eu tinha feito uns dez anos antes dele gravar".
O sucesso foi imediato. "Quando o disco foi lançado, começou a tocar em todas as rádios. Eu me lembro que o São João de Campina Grande foi batizado como o 'São João do tum tum tum', por causa da música".
Para ele, aquela gravação transformou duas carreiras ao mesmo tempo. "Foi o momento mais importante da minha vida e da vida de Flávio, porque foi o primeiro sucesso dele como intérprete e o meu primeiro sucesso como compositor".
Jó Miranda viveu experiência parecida com ‘Lembro’. "A música tomou uma projeção e, a partir dela, alguns artistas começaram a me procurar, pedir música".

Já Verlando Gomes recorda o impacto de ‘Flor Serena', composição que deu nome à própria banda. "Depois o Estakazero gravou essa música, Carlos Pitta também gravou, e outros artistas também. É uma grande honra ter feito essa música".
O desafio de manter viva a poesia do forró
Além da falta de reconhecimento, os compositores demonstram preocupação com a preservação da tradição poética do gênero.
Verlando Gomes acredita que muitos autores talentosos acabam recebendo pouca atenção do mercado. "Os compositores nordestinos que fazem música com poesia e sentimento estão um pouco esquecidos. Mesmo sabendo que eles existem, o mercado não dá o devido reconhecimento".
Ele também observa mudanças nas composições que ganham espaço atualmente. "Estão surgindo compositores com músicas mais rasas, sem muita poesia e o público acaba dando mais valor a essas músicas passageiras".
Maciel Melo compartilha da mesma preocupação. "Essa nova geração está mais preocupada com mega shows e artistas globalizados. Eu não vejo muita interação entre a juventude de hoje e a poesia que existe por trás das músicas de forró".
Jó Miranda, por outro lado, acredita que existe interesse entre os jovens, mas faltam iniciativas para aproximá-los desse repertório. "Existe uma faixa etária que vem consumindo isso bastante. Eu sinto isso porque o nosso projeto 'Forró do Talco', aos domingos, tem como base os alunos de escola de forró e a galera dessa média de 19 a 30 anos".
Para ele, a escola, os meios de comunicação e os espaços culturais têm papel fundamental nesse processo. "O que está precisando é uma boa parte da mídia fazer com que essas músicas cheguem nessa galera nova. Precisamos que as escolas voltem a fazer festa do folclore, festa junina, e nessas festas inserir essas músicas".


