TRADIÇÃO
Nem toda fogueira é de São João: a tradição ancestral que toma os terreiros em junho
Sanfona de um lado, atabaque do outro: conheça fogueira que também aquece o junho da Bahia


Engana-se quem pensa que as celebrações juninas são realizadas apenas por seguidores do catolicismo na Bahia. Mês de exaltação a santos como São João, São Pedro e Santo Antônio, junho também é marcado pelo culto a Xangô, orixá do fogo, dos raios e da justiça nas religiões de matriz africana.
A celebração acontece por meio da Fogueira de Xangô (Ṣàngó), rito recriado por africanos escravizados trazidos ao Brasil, como forma de relembrar e exaltar as festas do orixá, realizadas no antigo continente.
A cerimônia utiliza troncos e gravetos acesos na área externa do Terreiro, além de toques de atabaques e cânticos propícios ao orixá, que une sua força ao fogo para resultar em transformação, justiça, purificação, paixão e cura.
Sacerdote do Ilẹ Àṣẹ Ibà Oladejí Ìjìomi, o babalorixá Pedro Mendes explicou que o fogo é uma forma de unir a comunidade durante a festividade. “Para nós, a fogueira de Ṣàngó fala de transformação, verdade e justiça. O fogo ilumina, aquece, reúne as pessoas e também nos faz pensar sobre a responsabilidade que temos com a nossa vida e com a comunidade”, disse ele ao portal A TARDE.
Relação de Xangô com São João

Cientista político e pesquisador da cosmogonia iorubá, Pedro também contou que não há uma correlação direta entre Xangô e São João, mas a ligação foi apontada devido ao sincretismo e preconceito religioso presente no Brasil.
“Durante muito tempo, o sincretismo foi uma estratégia de sobrevivência utilizada pela população negra para preservar seus cultos diante da perseguição religiosa. Nesse processo, Ṣàngó foi associado a diferentes santos católicos em diferentes regiões, entre eles São João e São Pedro”, afirmou.
“Acredito que atualmente vivemos um momento em que podemos afirmar nossa fé com mais liberdade. Por isso, muitos terreiros têm buscado reforçar a identidade própria dos Òrìṣà. Ṣàngó não é São João nem São Pedro. Ṣàngó é uma divindade africana, ligada à tradição iorubá, à justiça, ao fogo, ao trovão e à memória ancestral do povo de Oyó”.
Apesar do mesmo período de celebração dos santos, ele atesta que é importante ressaltar que são histórias e contextos diferentes, que devem ser valorizados de maneira individual, de acordo com o fundamento de cada religião.
“Respeitamos profundamente os santos católicos e a fé de quem os cultua. Mas entendemos que é importante reconhecer que os Òrìṣà possuem suas próprias histórias, símbolos e fundamentos. Valorizar essa identidade é também uma forma de honrar a herança africana que ajudou a construir a Bahia e o Brasil”.
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Transformação que vem do fogo

Alguns terreiros costumam realizar a cerimônia da fogueira de Xangô nos dias 28 e 29 de junho, mesmo período de celebração de São Pedro. A celebração acontece de forma aberta ao público, recebendo adeptos da umbanda, do candomblé, ou visitantes.
A não restrição de público serve como forma de acolher todos que buscam transformação para a vida através do fogo, que na tradição africana é um dos maiores símbolos de mudança.
“Quem participa desse momento pode intencionar a superação de dificuldades, a quebra de padrões repetitivos, a transformação de comportamentos e atitudes que já não fazem sentido para sua caminhada. Muitas vezes sabemos o que precisa mudar em nossas vidas, mas encontramos dificuldade para realizar essa mudança”, afirma o Bàbálorixá Pedro Mendes.
“O fogo simboliza exatamente essa passagem. Ele transforma tristeza em esperança, escassez em abundância, dor em aprendizado e limitações em novas possibilidades. A fogueira de Ṣàngó nos lembra que toda transformação exige coragem, mas também que nada está condenado a permanecer como está”.
“Em um período de decisões coletivas importantes, que a justiça de Ṣàngó nos ajude a fazer escolhas guiadas pela ética, pela responsabilidade e pelo compromisso com o bem comum. Que sua fogueira aqueça nossos corações e nos lembre que toda verdadeira transformação só faz sentido quando beneficia a coletividade”, concluiu.

Na prática, essa devoção ganha a cena pública. Com o intuito de reivindicar a valorização e preservação do espaço sagrado, o VI Festival da Fogueira da Pedra de Xangô, que acontece no Parque Pedra de Xangô, em Cajazeiras X, reuniu dezenas de pessoas nos dias 19 e 20 de junho, com oficinas, palestras e roda de conversa, além dos rituais religiosos e entrega de honrarias.
“Pacto Ancestral e Defesa do Território: Povos Originários, Diásporas Africanas e o Marco da Resistência” foi o tema deste ano. A celebração é dedicada às divindades Xangô (nação Ketu), Nzazi (nação Angola) e Sobô (nação Jeje).
“O espaço merece mais atenção. É necessário que o poder público entenda que aqui é o território da comunidade afrodescendente”, afirmou Pai Josias, coordenador do grupo As Matriarcas, que conduziu o evento.
Sob o som do atabaque e do agogô, autoridades religiosas realizavam oxirê ao redor da fogueira e receberam o título de “Guardiões do Parque Pedra de Xangô”.
“Além da religiosidade, alertamos para questões que precisam ser discutidas”, destacou Evilásio da Silva, presidente do Conselho Municipal de Comunidades Negras de Salvador.
*Com colaboração de Jackson Souza


