SAÚDE
Acidente em academia alerta para segurança e falta de supervisão
Jovem ferida expõe riscos em treinos; Samu registrou 24 ocorrências este ano em Salvador, com duas mortes

Quem frequenta academia deve ter se assustado com a divulgação de um vídeo que mostra o momento em que uma jovem sofre um acidente sério em uma unidade da rede Envolve, no Distrito Federal, no começo do mês.
Júlia Stefany Cotrim, 19 anos, quebrou os dois joelhos quando a alça do equipamento de elevação pélvica que ela utilizava se soltou, atingindo-a com a barra de anilhas pesando cerca de 180 quilos. À polícia do DF, a jovem disse que estava acostumada a treinar como peso e que a barra rompeu quando foi retirá-la.
A investigação vai esclarecer se houve mau uso do equipamento ou falta de manutenção mas, independente do resultado, o caso serve de alerta para a questão da segurança nas academias, risco de lesões, estado dos equipamentos e, sobretudo, atuação de profissionais supervisionando os alunos. No vídeo é possível ver que ela estava sozinha no momento do acidente e que foi socorrida pelos colegas.
Esse ano, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registrou 24 ocorrências em academias de ginástica em Salvador, incluindo dois óbitos associados a paradas cardíacas.
Segundo o órgão, os atendimentos mais recorrentes estão relacionados à quadros de dor relacionados à prática de exercícios com carga, episódios de desmaios, crises hipertensivas, além de casos de mal-estar associados à hipoglicemia e ao uso de substâncias estimulantes, como cafeína e compostos energéticos.
Também foram registrados quedas durante a utilização de equipamentos e pequenos traumas. Um dos óbitos foi de uma senhora que teve um mal súbito no dia 28 de janeiro na academia Villa Forma, no Rio Vermelho.
Em comunicado oficial na época, a academia informou que a aluna tinha acompanhamento personalizado e que recebeu atendimento imediato tanto da equipe do estabelecimento quanto do Samu, que chegou rapidamente ao local.
Fiscalização
Com muitas academias surgindo na cidade, sejam as pequenas, de bairro, ou filiais das grandes redes, os frequentadores precisam pesquisar e ficar atentos para as questões básicas de segurança.
Em caso de irregularidades, é possível fazer uma denúncia no Conselho Regional de Educação Física da Bahia da 13 Região (CREF13), que fiscaliza o registro de estabelecimentos como academias, clubes, escolas e centros de treinamentos, bem como de seus profissionais.
De acordo com o órgão, existem na capital baiana 974 pessoas jurídicas com registros ativos no órgão. No primeiro trimestre, 773 deles foram fiscalizados e 128 notificados por conta de irregularidades, sendo 22 interditados.
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“Quando identificamos irregularidades, como o exercício ilegal da profissão, notificamos e podemos até realizar a interditação das atividades”, afirma o presidente do CREF13, RogérioMoura, lembrando que, para atuar nas academias, o profissional precisa ser formado em Educação Física.
Cuidado nas academias
1. Observar a organização espacial e a mobilidade dentro da academia
2. Checar a qualidade dos maquinários. Prestar atenção, por exemplo, se os cabos estão desgastados e enferrujados e se as travas dos equipamentos estão firmes.
3. Evitar os horários de picos, quando as academias estão muito cheias e os instrutores precisam dividir a atenção entre vários alunos.
4. Checar a quantidade e a formação dos instrutores.
5. Conferir se a academia possui um desfibrilador automático, usados para primeiros socorros em caso de infarto.
6. Fazer avaliação cardíaca e ortopédica e respeitar os limites do corpo.
Número de profissionais
O número pequeno de profissionais para a quantidade de alunos é um dos problemas apontados pelo Sindicato dos Profissionais de Educação Física (Sinpef BA), inclusive nas grandes redes, que lançam mão de estagiários para completar seus quadros.
“Além de ser uma situação de exploração para os profissionais, o cliente é quem mais sofre, pois fica sem a devida assistência. Esse é um problema sério”, pontua o presidente do sindicato, professor Jehovan Carvalho de Melo.
Em sua opinião, a tendência demontar academias espaçosas, bem estruturadas e com equipamentos de ponta não se sustenta sem investimento em recursos humanos. “Conforto todo mundo está oferecendo, então acredito que o diferencial vai ser através do serviço mais humanizado ao cliente. Os empresários que têm mais visão já estão percebendo isso”, completa.
Atenção para os detalhes
Com mais de treze anos de atuação, o personal trainer Gênesis Monteiro concorda que o profissional bem preparado e atento pode evitar e se antecipar aos problemas.

“Acidentes acontecem, mas muitas situações nós podemos evitar, checando os aparelhos e se eles estão adequados e ajustados para determinada pessoa, além de limitar o uso exagerado de cargas, que podem causar lesões e acidentes”, enumera Gênesis, que atua em academias como Smart Fit, Self Fit e Alpha Fitness, além de atendimentos personalizados.
Segundo Gênesis, é comum as pessoas exagerarem em aparelhos que estão emevidência, como o de elevação pélvica que machucou a jovem de Brasília. “Há um mal uso destes aparelhos e também falta de orientação”, diz Gênesis, explicando que é preciso fazer uma progressão lenta das cargas, que não devem ser tão altas, a menos que se trate de um atleta de alto rendimento.
O celular também é outra fonte de desatenção. Tanto dos instrutores, que perdem o foco em meio àmensagens e notificações, quanto dos alunos. Gênesis conta que já testemunhou um idoso se machucar ao tentar subir em uma esteira, deixada ligada por um aluno que saltou do aparelho para atender uma ligação. “Não foi muito grave mas poderia ter sido, por pura falta de atenção”.
Limites e cuidados
Para quem não pode ter um personal à disposição, a dica do ortopedista Marcos Lopes é ficar sempre perto dos professores e instrutores, além de respeitar os limites do próprio corpo. Essa consciência evitaria acidentes comuns combarras e pesos, por exemplo, que costumam atingir o pé e outras partes do corpo.
“Não dá para fazer exercício sem orientação, pois as lesões são muito mais difíceis de tratar”, reforça o médico, que é especialista em medicina esportiva e já atuou no time do Bahia.
Ele é um defensor da exigência de avaliação cardiológica antes do início de se iniciar uma atividade física – o que não é obrigatório por lei. E diz que exames simples como o eletrocardiograma e o teste de esforço poderiam evitar problemas sérios como um mal súbito e infarto.
“Sei que tem custos, mas toda academia deveria exigir sim, como acontece no futebol profissional. Pessoas sedentárias não podem sair por aí praticando exercícios de qualquer jeito”, reforça.
O médico também aponta a necessidade de uma avaliação ortopédica, para evitar que determinados problemas sejam agravados com o exercício errado.
“Pessoas com sobrepeso, por exemplo, devem fazer caminhadas e não correr”, ilustra doutor Marcos, que toca em outro ponto negligenciado por muita gente e é ignorado pelos empresários: apresença de um desfibrilador cardíaco automático, fundamental para os primeiros socorros em caso de infarto.
No seu prédio, conta, os moradores se juntaram e adquiriram um exemplar, que fica disponível na academia. O aparelho, diz o médico, é uma segurança a mais para quem se exercita no local, como ele. “Quando uma pessoa sofre um infarto, é fundamental que ela seja atendida no local e rapidamente”, ensina.
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