SAÚDE
Saiba quais hábitos aumentam o risco de câncer de rim
Previsão aponta que a incidência desse câncer deve aumentar em 80% até 2050

O período das festas juninas costuma ser marcado pelo consumo elevado de licores e comidas típicas. No entanto, os excessos comuns nesta época do ano exigem atenção redobrada com a saúde. A ingestão excessiva de alimentos ricos em sódio e gorduras pode desencadear a hipertensão arterial, condição que possui ligação direta com a incidência de tumores renais.
Além das celebrações de São João, o mês de junho é dedicado mundialmente à conscientização sobre o câncer de rim, adotando a cor verde como símbolo da campanha.
As projeções da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), apontam que a incidência desse tipo de tumor deve registrar um aumento de 80% até 2050 no Brasil e na América Latina.
O avanço estatístico é impulsionado pelo envelhecimento populacional, pela exposição contínua a fatores de risco no estilo de vida, e pela ampliação do acesso a exames de imagem, que otimizam a taxa de detecção.
Para esclarecer as principais dúvidas sobre a patologia, o portal A TARDE entrevistou o oncologista Augusto Mota e o médico Joabe Carneiro, coordenador do programa de cirurgia robótica do Hospital da Bahia.
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Diagnóstico incidental e os sinais de alerta
O maior desafio clínico no combate ao câncer de rim reside na sua evolução silenciosa. De acordo com o oncologista Augusto Mota, o tumor raramente manifesta sintomas em suas fases iniciais, período em que as chances de cura são significativamente mais altas.
“A combinação clássica de sintomas — sangue na urina, dor na região lateral do tronco e massa palpável na barriga — manifesta-se em menos de 10% dos casos e, geralmente, já indica uma doença em estágio avançado”, explica o especialista.
Em grande parte dos pacientes, o diagnóstico ocorre de forma incidental, ou seja, a lesão é identificada por surpresa durante a realização de exames de ultrassonografia ou tomografia de abdômen solicitados para investigar outras condições de saúde.
Embora muitas vezes os sintomas decorram de causas benignas, a presença dos seguintes sinais exige avaliação médica imediata:
- Hematúria: presença de sangue na urina, mesmo que ocorra de forma isolada, indolor e em uma única ocasião;
- Dor lombar crônica: desconforto persistente em um dos lados das costas ou no flanco, sem melhora e sem correlação com lesões musculares;
- Alterações anatômicas: percepção de massa ou inchaço palpável na região abdominal;
- Sintomas sistêmicos: perda ponderal involuntária, fadiga crônica, febre baixa recorrente ou episódios de suor noturno;
- Varicocele súbita: aparecimento abrupto de varizes na bolsa escrotal em homens, especialmente do lado direito ou que não regridem ao deitar;
- Marcadores laboratoriais: diagnóstico de anemia ou taxas elevadas de cálcio no sangue sem justificativa aparente.
Mitos e verdades: a relação com o álcool e o tabaco
Diferente do que ocorre em outras neoplasias malignas, as meta-análises científicas atuais não apontam um elo causal direto entre o consumo de álcool e o surgimento do câncer renal. Estudos indicam, inclusive, que o consumo leve a moderado está associado a um risco ligeiramente menor (redução de 20% a 30%), embora não haja proteção adicional para o consumo abusivo.
Augusto Mota adverte que o dado não deve ser interpretado como um estímulo à ingestão alcoólica. O composto é classificado pela OMS como substância sabidamente cancerígena e responde pelo desenvolvimento comprovado de diversos outros tumores e disfunções em múltiplos órgãos.
Os hábitos e condições de saúde que comprovadamente elevam a predisposição ao câncer de rim incluem:
Fatores modificáveis
- Uso de cigarros;
- Obesidade;
- Hipertensão arterial;
- Sedentarismo;
- Diabetes;
- Doenças renais crônicas, sobretudo em quem faz diálise por muitos anos, também elevam o risco.
Fatores não modificáveis
- Ser homem, de acordo com Augusto, o risco é cerca de duas vezes maior;
- Idade mais avançada;
- Histórico familiar.
A prevenção baseia-se no controle rigoroso da pressão arterial e da glicemia, na cessação do tabagismo, na manutenção do peso corporal adequado, em uma rotina regular de exercícios e em uma boa hidratação, evitando-se o uso abusivo e crônico de analgésicos sem orientação médica.
O rastreamento de rotina não é indicado para a população geral, restringindo-se a indivíduos com forte histórico familiar ou síndromes hereditárias.
Modalidades terapêuticas e o papel da cirurgia robótica
A definição da melhor abordagem para o tratamento do câncer de rim depende de variáveis como o diâmetro do tumor, a localização exata da lesão, a integridade da função renal remanescente e a ausência ou presença de metástases. O médico Joabe Carneiro detalha as principais condutas terapêuticas disponíveis na medicina moderna:
- Vigilância Ativa: monitoramento por imagem indicado para tumores de dimensões reduzidas e comportamento de crescimento lento em pacientes selecionados.
- Terapias Ablativas: aplicação de técnicas de crioterapia ou radiofrequência para destruir o tecido tumoral, direcionada a casos específicos e pacientes com elevado risco cirúrgico.
- Nefrectomia Parcial: procedimento cirúrgico focado na retirada exclusiva do tumor, preservando a porção saudável do órgão. É a terapia de escolha para a maioria das lesões localizadas.
- Nefrectomia Radical: remoção cirúrgica completa do rim afetado, realizada quando a preservação do órgão é inviável ou compromete a segurança oncológica do paciente.
- Terapias Sistêmicas: uso de imunoterapia e terapias-alvo por via oral para o controle de casos avançados ou metastáticos.
A cirurgia robótica consolidou-se como um recurso tecnológico indispensável para as intervenções de nefrectomia parcial.
“O sistema robótico oferece ao cirurgião uma visão tridimensional ampliada do campo cirúrgico, associada a movimentos com precisão milimétrica e maior refinamento técnico para a realização de suturas nas áreas vasculares delicadas do rim”, detalha Carneiro.
A tecnologia diminui o tempo de isquemia (período de interrupção temporária do fluxo sanguíneo) do órgão durante o procedimento, otimizando a taxa de preservação do tecido renal funcional e proporcionando uma recuperação pós-operatória mais célere para o paciente.


