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“Uma a cada oito mulheres irá desenvolver câncer de mama”, diz oncologista

Publicado às | Atualizado em 24/10/2021, 19:43 | Autor: Jane Fernandes
Dra .Renata Cangussu, oncologista | Foto: Shirley Stolze / Ag A Tarde
Dra .Renata Cangussu, oncologista | Foto: Shirley Stolze / Ag A Tarde -
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Graduada em medicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, a oncologista Renata Cangussu é especialista em câncer de mama e ginecológico. Aproveitando o Outubro Rosa, a médica falou com A TARDE sobre os tumores que acometem majoritariamente as mulheres e a importância do diagnóstico precoce.

Quais os tipos de câncer que atingem exclusivamente ou majoritariamente as mulheres? Quais são os mais graves entre os tipos de câncer mais relacionados com as mulheres?

Exclusivamente, a gente pode incluir aí o câncer de vulva, de vagina, de ovário, de útero e de endométrio. Majoritariamente seria o câncer de mama, que acomete na maioria mulheres, apenas 1% ou 2% dos casos podem acometer os homens, é bem mais raro. O câncer de mama ainda é o responsável pela maior mortalidade no Brasil, em relação ao câncer em mulheres, não só por ser uma doença que ainda é diagnosticada numa fase mais tardia, mas pela frequência, pois é uma doença extremamente comum, cerca de uma a cada oito mulheres irá desenvolver câncer de mama ao longo da sua vida. O câncer de mama tem uma atenção diferenciada dos demais, até por ter um mês exclusivamente responsável por lembrar a todas as mulheres como é importante fazer o diagnóstico precoce, mas outro tipo de tumor que precisa também ser muito visto é o câncer de colo de útero, porque ele é o terceiro ou quarto mais comum, a depender da região do país. Na região Norte é o primeiro que mais acomete as mulheres, aqui na Bahia é o segundo, então ele tem uma frequência muito grande, muitas mulheres ainda morrem dessa doença, e é um câncer que, diferente do câncer de mama, é totalmente prevenível. Então se a população fizesse a vacinação das crianças na faixa etária adequada, como a gente tem a vacina contra o HPV disponível pelo SUS para meninas entre 9 e 14 anos, meninos entre 11 e 14 anos, para quem convive com HIV, câncer ou é transplantado essa faixa etária é ampliada para 26 anos nos homens e 45 anos nas mulheres, se essa vacinação fosse feita da maneira adequada, somada ao rastreamento com a realização do papanicolau anualmente para as mulheres que têm vida sexual ativa, seria possível erradicar esse tumor.

Qual a rotina médica necessária para a detecção precoce de câncer de mama e dos cânceres ginecológicos em geral? E os principais fatores de risco?

Existem alguns tipos de tumores ginecológicos que não têm um exame de rastreamento adequado, como o câncer de ovário, um tumor que apesar de mais raro tem alta taxa de mortalidade. Mas, além da vacinação, o que a gente recomenda de maneira geral é a visita ao ginecologista uma vez ao ano, nessa visita vai ser feito o exame físico de toda região genital para possível detecção de lesões malignas ou suspeitas, com investigação futura, e o exame de papanicolau. Todos os tumores, de mama ou ginecológicos, têm em comum alguns fatores de risco e os principais deles, além da questão do HPV, são os hábitos de vida, então a gente sabe que estar sedentário aumenta risco para câncer, estar acima do peso aumenta risco para câncer de mama, endométrio e ovário, existem também uma relação do sobrepeso com um tipo de tumor do colo uterino que é o adenocarcinoma. O tabagismo aumenta risco para câncer de mama, de colo uterino, de vulva e vagina. Antigamente se achava que o álcool estava relacionado a câncer apenas se consumido em grande quantidade, hoje em dia já se sabe que mesmo em pequena quantidade o álcool está relacionado a um maior risco de câncer. Não tem relação com o tipo de bebida, três doses de bebida por semana aumenta o risco de câncer, então como forma de prevenção o ideal é evitar o consumo. Tem a questão com a alimentação, existe uma relação da alimentação saudável e a proteção para diversos tipos de câncer, então a recomendação é que a gente tente ter uma alimentação mais saudável, evitando o consumo de alimentos embutidos, ultraprocessados, ter uma alimentação mais rica em frutas, legumes, rica em fibras. Com relação ao câncer de mama, o padrão ouro é a realização de mamografia anualmente para quem já tem mais de 40 anos.

Quais são os sinais e/ou sintomas que devem motivar a procura de um médico para avaliar as mamas e a saúde ginecológica fora da rotina de acompanhamento?

A mulher deve sempre conhecer seu próprio corpo, isso é importante, é nesse momento que a gente fala em relação ao autoexame. Tanto a consulta quanto os exames são feitos uma vez ao ano, mas entre um e outro, nesse período de intervalo, a mulher precisa conhecer seu próprio corpo, porque se algo diferente acontecer, ela vai procurar assistência antes do tempo previsto. Os tumores costumam ser assintomáticos, não costumam apresentar sintomas, e por isso o exame de rastreamento é tão importante, precisa fazer os exames independente de sintomas. De toda forma, a mulher conhecendo seu corpo, se tocando com uma periodicidade, o ideal é mensalmente, se algo aparecer de diferente, como um caroço na mama ou na axila, que ela não notou no mês anterior, deve procurar auxílio médico. Além disso, mudança de cor, mudança de aspecto da pele, que pode se tornar mais enrugada, ter um aspecto de casca de laranja, pode ter mudança no mamilo, o mamilo pode se retrair, pode haver secreção no mamilo, secreção sanguinolenta, secreção clara, e esses sinais e sintomas devem fazer com que a mulher procure uma consulta com um mastologista para fazer uma investigação. Pode ser que muitos desses achados não sejam relacionados a uma doença maligna, mas só mesmo um especialista que vai poder esclarecer. Em relação aos tumores ginecológicos, eles podem se manifestar através de um desconforto na região mais baixa do abdômen, na região pélvica, pode se manifestar com dor ou sangramento na hora da relação, um corrimento fora da normalidade e saída de sangue pela vagina em qualquer situação fora do sangramento habitual da menstruação. Uma mulher que está na menopausa e passa a apresentar um sangramento genital precisa de investigação também porque pode estar relacionado a um tumor de endométrio ou colo uterino.

Quais as principais dificuldades para que as mulheres façam o diagnóstico precoce do câncer?

Não é só uma dificuldade em relação a acesso, porque se fosse apenas isso, a gente não veria tumores avançados no sistema privado e, infelizmente, a gente ainda vê muito, então acho que a barreira também é de tabu e de desmistificar um pouco o que é o câncer. Existe uma relação histórica de câncer com tendência de morte. Um dia realmente foi dessa maneira e diante dessa ameaça muitas pessoas acabam não tendo coragem de procurar o serviço, achando que seu prognóstico, seu destino já está selado. Também tem muito medo em relação ao tratamento, porque o tratamento era realmente pior em efeitos colaterais do que é hoje em dia. Existe uma relação com o passado do câncer, que é muito diferente do que é hoje em dia, com possibilidade de cura acima de 95% se for feito no momento certo. O tratamento com efeitos colaterais muito mais amenos do que era antigamente, então a gente precisa desvincular essa história. Além disso, como os tumores costumam ser assintomáticos não dá para esperar ter sintomas, pode ser que ao manifestar um sinal ou um sintoma já esteja numa fase mais avançada, então para o diagnóstico precoce é necessário fazer os exames de rotina. Muitas vezes, as pessoas realmente pensam ‘mas eu não estou sentindo nada’ e acham que não precisam fazer a mamografia, por exemplo. Sabemos que nenhum exame, nem mesmo o autoexame ou o exame físico feito por um médico capacitado, vai poder substituir a mamografia, o único capaz de demonstrar uma redução da mortalidade por câncer de mama em até 30%. É preciso lembrar que a chance de cura da maioria dos tumores está muito diretamente relacionada ao momento que é feito o diagnóstico, com redução a partir do momento que o tumor vai avançando. Um tumor que já deu metástase para outros órgãos já tem uma chance de cura ínfima.

O que há de mais avançado quanto ao tratamento dos tipos de câncer que mais acometem as mulheres? Todos os métodos são amplamente acessíveis?

Um ponto forte foi a aquisição da touca de crioterapia, que evita a queda do cabelo em percentual alto, a depender do tipo de quimioterapia. A queda do cabelo mexe muito com a autoestima, principalmente da mulher, se a gente consegue evitar a queda do cabelo faz com que o desenrolar do tratamento seja mais tranquilo. Além disso, melhorias gerais em termos de eficácia, as drogas melhoraram muito a eficácia e a gente tem hoje medicações-alvo, medicações que atuam diretamente na célula tumoral para determinados tipos específicos de tumores e com isso conseguem fazer a entrega de uma quantidade de medicação muito maior especificamente para aquela célula, sendo mais eficaz e menos tóxica também. A gente também melhorou muito no sentido de ter menos efeitos colaterais, muitas medicações usadas antes da administração de quimioterapia melhoraram muito aqueles efeitos colaterais de enjoo, vômito... hoje ocorre numa frequência muito menor. Recentemente a gente tem agregado as imunoterapias, que também são medicações pouco tóxicas e que têm oferecido um benefício inestimável quanto a diversos tipos de tumores. Mas a gente tem o desafio em relação ao acesso, a touca de crioterapia nós não temos disponível ainda no SUS aqui, existem alguns lugares no país que já disponibilizam, o uso também não é coberto pelo convênio, tem de ser feita de maneira particular. Além disso, algumas dessas medicações mais modernas já foram incorporadas ao SUS, mas tem outras que não estão disponíveis, a imunoterapia não está disponível no SUS, então a gente ainda tem muito para evoluir nessa questão de acesso ao tratamento oncológico, são medicações muitas vezes de alto custo e que a gente não consegue fazer uso de maneira mais ampla como nós gostaríamos.

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