JOGOS INDEPENDENTES
Jogo criado na Bahia ganha prêmios e leva folclore brasileiro ao mundo
Projeto aposta na preservação ambiental para apresentar lendas brasileiras ao mundo


Um jogo criado por um estúdio independente da Bahia transformou personagens do folclore brasileiro em protagonistas de uma experiência que une entretenimento, educação ambiental e cultura nacional.
Desenvolvido pela Blueberry Turtle, o Boitatá Wilderness Reborn conquistou cinco premiações na final da GameJam Plus, realizada em Brasília, após superar concorrentes de mais de 42 países e cerca de 900 equipes participantes.
Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o designer e líder do projeto, Matheus Thomé, explicou que a proposta nasceu durante a GameJam Plus, em outubro do ano passado, quando a equipe precisou desenvolver um protótipo em apenas três dias.
O grupo escolheu trabalhar com temas ligados à sustentabilidade e à reinterpretação de personagens em domínio público, encontrando no Boitatá uma oportunidade de apresentar elementos da cultura brasileira para novos públicos.
Queríamos explorar o folclore brasileiro porque é uma temática que é pouquíssimo abordada no mundo dos jogos, e ter hoje o Boitatá e a Caipora dentro do jogo, faz com que nossa cultura possa ser compartilhada para o mundo.
Matheus Thomé - Designer e líder do projeto
Além de vencer a etapa Nordeste da competição em março, o projeto avançou para a final nacional e voltou para casa com os prêmios de Melhor Arte, Melhor Jogo Educativo, Melhor Jogo Ambiental, Melhor Jogo por Voto Popular e o terceiro lugar entre os melhores jogos do Brasil.
Folclore e meio ambiente como protagonistas
No jogo, o jogador assume o papel do Boitatá, entidade folclórica tradicionalmente representada como uma serpente de fogo. A missão é proteger a floresta contra a ação humana e restaurar áreas degradadas ao longo da partida.
Segundo Thomé, a mecânica combina gêneros pouco explorados em conjunto no mercado. “Nosso jogo é um Tower Defense Sidescroller 2D, ou seja, é um jogo onde você vai para a direita e para a esquerda e precisa defender, com a ajuda de 'torres', contra as hordas dos humanos que chegam a noite. Durante o dia, você planeja suas ações, faz a floresta crescer, resgata animais que estão presos”, afirma o desenvolvedor.

Ele explica que os animais resgatados se tornam aliados estratégicos durante a jogabilidade. “Durante a noite, você coloca esses animais como torres, cada um tendo uma habilidade, e juntos eliminam os humanos que ameaçam o ecossistema”.
A proposta ambiental está diretamente ligada à progressão do jogo. “O objetivo do jogo é sobreviver às ameaças e reflorestar todo o ambiente que foi outrora desmatado".
A temática ecológica é incorporada justamente na hora de replantar o ambiente, que muda conforme a quantidade de árvores plantadas da floresta, e no uso dos animais durante a gameplay. Todos os animais utilizados são da fauna brasileira e estão em risco de extinção, dentro do inventário também é possível ver uma breve descrição de cada um.
Matheus Thomé - Designer e líder do projeto
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Inovação em um mercado competitivo
Para a equipe, o diferencial do jogo está tanto na representação do folclore brasileiro quanto na combinação de mecânicas utilizadas.
“O que nos diferencia no mercado atualmente é a forma como levamos o folclore brasileiro, especialmente as lendas do Norte e Nordeste, para uma audiência global. Muitos brasileiros sequer sabem que o Boitatá é tradicionalmente retratado como uma serpente de fogo, associando-o equivocadamente a um boi devido ao nome”.
A proposta também busca apresentar uma experiência diferente dentro do cenário dos jogos independentes. “Nossa gameplay apresenta uma combinação pouco explorada no mercado: ação em tempo real baseada no uso do bafo de fogo do protagonista, integrada à mecânicas de tower defense em um formato sidescroller, criando uma experiência única e memorável”.
Desafios de um estúdio independente
Apesar do reconhecimento nacional, a trajetória da Blueberry Turtle ainda é marcada pelos desafios enfrentados por pequenos estúdios brasileiros.
O protótipo inicial foi criado em apenas três dias, mas o desenvolvimento do projeto já ultrapassa oito meses de trabalho contínuo. “Embora o protótipo inicial tenha sido desenvolvido em apenas três dias durante a GameJam Plus, o projeto vem sendo refinado e expandido há mais de oito meses. Atualmente, nosso maior desafio é sustentar o desenvolvimento como um estúdio independente”.

Segundo Thomé, a equipe é formada por sete integrantes e busca apoio para concluir a produção. “Manter uma equipe de 7 pessoas trabalhando de forma consistente sem uma fonte de receita inicial exige um grande esforço e limita a velocidade de produção.
"Estamos em busca de investidores e publicadoras que possam apoiar o estúdio, garantindo a continuidade do desenvolvimento e permitindo que o jogo alcance seu potencial completo até o lançamento”, afirmou.
Do sonho à conquista nacional
A participação na GameJam Plus representou o primeiro grande contato da equipe com a indústria de jogos. A competição levou os desenvolvedores às semifinais em São Paulo e, posteriormente, à final em Brasília.
Para Thomé, o reconhecimento conquistado pelo Boitatá Wilderness Reborn começou muito antes da cerimônia de premiação.
O desenvolvedor afirma que a própria participação na competição já representava uma conquista para um grupo que nunca havia atuado profissionalmente na indústria de games. “Participar da GameJam Plus e desenvolver nosso primeiro jogo foi uma experiência transformadora para toda a equipe. Sempre fomos apaixonados por games e sonhávamos em criar nossos próprios mundos, mas nunca havíamos tido a oportunidade de entrar de fato na indústria”.

Ele conta que a classificação para as etapas seguintes superou as expectativas iniciais da equipe. “A jornada até as semifinais em São Paulo e, posteriormente, à final em Brasília, com passagens e hospedagem custeadas pela organização, parecia algo muito distante da nossa realidade”.
Durante uma semana na capital federal, os integrantes participaram de eventos voltados para inovação, tecnologia e desenvolvimento de jogos. “Os sete dias que passamos em Brasília foram especialmente marcantes: uma combinação intensa de trabalho, exaustão, aprendizado e gratidão”.
“Durante a semana, participamos de quatro grandes eventos consecutivos — Join, Innova Summit, GameJam Plus e Brasília Game Festival (BGF) — apresentando nosso projeto para profissionais, investidores, desenvolvedores e jogadores de todo o país. Foi um período de enorme crescimento para a equipe”, disse o desenvolvedor.
O retorno para a Bahia veio acompanhado de reconhecimento nacional. “Todo o esforço foi recompensado quando retornamos para a Bahia com cinco premiações: Melhor Arte, Melhor Jogo Educativo, Melhor Jogo Ambiental, 3º Melhor Jogo do Brasil e Melhor Jogo por Voto Popular”.
Para Thomé, o principal prêmio não foi o troféu. “Mais do que os troféus, essas conquistas representaram a validação de um sonho que parecia impossível quando começamos”.
“Para mim, atuar simultaneamente como líder do projeto e artista da equipe tornou essa experiência ainda mais significativa. Ver uma ideia nascer em uma Game Jam, evoluir junto a um grupo de pessoas talentosas e alcançar reconhecimento nacional foi algo que jamais esqueceremos”.
Próximos passos
Atualmente, uma versão gratuita do jogo já está disponível para testes por meio da plataforma Itch.io, tanto para computadores quanto para dispositivos móveis. Paralelamente, o estúdio iniciou o processo de publicação na Steam e trabalha na construção de uma comunidade de jogadores interessados no lançamento.
A expectativa da Blueberry Turtle é disponibilizar a versão completa de Boitatá Wilderness Reborn até 2027 para PC, com possibilidade de expansão para dispositivos móveis e outras plataformas digitais futuramente.


