REVOLUCIONÁRIO
Lázaro Ramos celebra 20 anos do Espelho e revisita vozes silenciadas
Nova temporada do programa marca duas décadas de escuta, memória e valorização de narrativas negras na televisão brasileira

Ao completar 20 anos no ar, o programa Espelho retorna com uma temporada especial que revisita temas, personagens e debates fundamentais para a construção do pensamento crítico na televisão brasileira.
Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, Lázaro Ramos falou sobre a nova fase da atração, a escolha dos convidados, o papel da escuta como método e a importância de manter vivo um espaço que, desde 2006, abriu caminho para vozes historicamente silenciadas no audiovisual.
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Um programa que nasceu antes do debate ganhar espaço
Ao olhar para a trajetória do Espelho, Lázaro Ramos destaca o caráter pioneiro do programa. “Acho bom lembrar uma coisa que eu tenho falado muito no Espelho. Essa é uma temporada que comemora 20 anos de existência de um programa que, lá atrás, quando começou a abordar esses temas, ninguém no audiovisual brasileiro estava falando. Nem na TV fechada, nem na TV aberta. Eram temas rejeitados”, afirmou.
Segundo ele, o espaço criado pelo programa foi essencial para dar visibilidade a narrativas marginalizadas. “Muitas das pessoas que passaram pelo Espelho não tinham suas vozes, suas temáticas, seus estudos e seus pensamentos valorizados”, disse.
Mesmo duas décadas depois, o compromisso permanece. “Esses valores se mantiveram e permanecem nesta temporada: trazer essas vozes que são importantes para o nosso projeto de nação.”
Valores inegociáveis e revisão do próprio percurso
A nova temporada, intitulada Espelho – 20 Anos Depois, revisita temas históricos sob novas lentes. “O Espelho, lá atrás, quando estava debatendo a luta antirracista, a formação de identidade, a importância da educação, da cultura, e trazendo pessoas que não tinham voz nem espaço no audiovisual para falar, estabeleceu valores que sempre foram inegociáveis”, ressaltou Lázaro.
Além de revisitar pautas, o programa também se propõe a refletir sobre si mesmo. “O que a gente errou, o que a gente acertou, quais foram os aprendizados ao longo do tempo sobre esses temas e quais são as novas estratégias, trazendo trechos inéditos de entrevistas antigas ou retomando falas do passado para provocar as novos entrevistados.”
Para o apresentador, o Espelho se consolidou como um lugar de memória e resistência. “O Espelho é esse lugar. Quando a gente revê os programas, percebe como foi importante ter apostado nisso num momento em que esses assuntos pareciam tabus ou temas que não deveriam ser discutidos, ou em que o pensamento negro não era valorizado. O Espelho existe para isso.”
O desafio de seguir relevante
Com o crescimento da mídia negra e das redes sociais, o desafio da nova temporada foi se diferenciar. “Claro que hoje a gente tem vários outros espaços que trazem essas temáticas: na mídia negra, nas redes sociais, na imprensa, na própria TV aberta e na TV fechada. Por isso, o desafio foi maior. Como é que a gente não se torna só mais um?”, questionou.
A resposta, segundo Lázaro, passa pelo trabalho coletivo. “Essa equipe, que ajuda a escolher os entrevistados, se reuniu de novo. Tem pessoas que estão no Espelho há 20 anos, e isso eu tenho muito orgulho de dizer, principalmente da equipe técnica.”
Ele reforça que a construção do programa é horizontal. “E no Espelho, equipe técnica não é só técnica: é voz valorizada também. Na hora de escolher os entrevistados e de construir a pauta das entrevistas, todo mundo é convocado.”
Convidados, encontros e conexões criadas no diálogo
Inicialmente prevista com menos episódios, a temporada acabou sendo ampliada. “Quando disseram ‘são 10’, a gente simplesmente não conseguiu chegar a apenas 10 nomes. É impossível. Não dá. E aí surgiu um formato paralelo à temporada, que são programas de encontros, para ampliar o número de entrevistados”, explicou.
O primeiro episódio reúne as jornalistas Zileide Silva e Kenya Sade. “Zileide Silva e Kenya Sade falam de imprensa negra e comunicação, e isso se conecta com tudo que a gente vinha discutindo.”
Outros encontros surgiram a partir de conexões construídas no processo. “Com Xamã e Edvana Carvalho, a princípio, parece não haver muita conexão, mas como eles fizeram Renascer juntos e a Edvana teve um trabalho muito celebrado, a gente juntou isso e falou de arte, cultura, música, poesia e arte negra.”
O mesmo raciocínio guiou outras escolhas. “Quando a gente junta Dom Filó, que foi quem trouxe a música black para o Brasil e tem toda essa experiência, com Lennon L7, surge uma conexão de tempo que é maravilhosa.”
“Itamar Vieira Júnior com Renato Nogueira também. A gente foi criando argumentos que só a gente sabia, porque queria colocar mais gente na conversa. E, no final, deu certo”, disse Lázaro.
A escuta como essência do programa
Manter o vigor do Espelho passa, segundo Lázaro, pela escuta. “Eu acho que é a capacidade de escuta. Existe uma pauta com a qual a gente chega, mas o que determina o que será o programa é o encontro”, afirmou.
Ele explica que o formato permite flexibilidade. “Eu fico muito maleável. Deixo o tempo de entrevista grande, mas vou escutando e mudando a estratégia. O que o entrevistado me oferece, eu sigo. A pauta ajuda, mas é o encontro e a quentura daquele momento que fazem o programa.”
Para Lázaro, cada gravação é única. “O que determina mesmo é o dia, o momento, o encontro. Precisa ser mágico. É como uma sessão de teatro: naquele dia, tem que ser mágico para a gente filmar.”
Um projeto que segue em movimento
Ao falar sobre possíveis expansões do formato, Lázaro lembrou iniciativas anteriores. “De tempos em tempos, a gente cria esse projeto. A gente já teve um projeto chamado Espelho na Estrada, em que a ideia era pegar um ônibus e sair fazendo entrevistas, principalmente para viabilizar a presença de outras pessoas.”
Ainda assim, o foco permanece na continuidade e no fortalecimento do projeto. “Hoje, em 2026, o Espelho também é isso: um espaço para aplaudir e valorizar tudo o que foi construído ao longo desses anos.”
Ao falar sobre os rumos do Espelho, Lázaro Ramos faz questão de destacar o papel do Canal Brasil como espaço de preservação, liberdade criativa e valorização do audiovisual nacional. Segundo ele, a permanência no canal está diretamente ligada ao projeto editorial da emissora.
“A gente sempre tem esse desejo, mas o programa habita uma casa chamada Canal Brasil. E aí eu entro num tema que, para mim, é muito importante: falar do Canal Brasil. O Canal Brasil nasce, anos atrás, com a proposta de preservar a memória do cinema brasileiro”, afirmou.
Lázaro lembra que o canal desempenha um papel fundamental na conservação da história do cinema nacional. “O Canal Brasil restaurou muitos filmes brasileiros que estavam perdidos. Ele existe trazendo e valorizando o cinema, a arte e o audiovisual que a gente produz no nosso país”, disse.
Mesmo com as limitações próprias da TV por assinatura, ele reforça o caráter pioneiro da emissora. “É um canal de TV fechada, com limitações inclusive orçamentárias, mas é uma voz pioneira, única e que precisa ser valorizada. O Espelho estar lá também é por isso.”
No contexto atual, marcado pela força dos streamings, Lázaro vê o Canal Brasil como um espaço de resistência cultural. “No momento em que a gente vive uma lógica de trabalho dos streamings, que nem sempre valoriza a estética nacional, a narrativa brasileira, o cinema e os profissionais do país, isso se torna ainda mais importante”, avaliou.
Ele acrescenta que, em muitos casos, o mercado impõe lógicas distantes da reflexão cultural. “Em muitos casos, os profissionais são tratados como se fossem de uma agência de publicidade e precisam responder a demandas que nem sempre dialogam com a reflexão nacional.”
Por fim, o apresentador reforça a escolha de permanecer no canal. “Hoje, depois de tanto sonhar em fazer outros formatos, ir para a TV aberta e tudo mais, eu entendo que estar no Canal Brasil é importantíssimo. Neste momento, é nessa casa que a gente vai continuar morando.”
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