OPINIÃO
Taís Araújo tem razão e erro em Vale Tudo entristece o Brasil
Artigo comenta problema envolvendo história da novela das nove da Globo
Por Luiz Almeida

Quando Taís Araújo desabafou sobre a frustração com os rumos de Raquel no remake de Vale Tudo, não foi apenas um comentário de bastidor, mas um alerta. Um alerta sobre como a teledramaturgia brasileira, mesmo em 2025, ainda tropeça quando tem a chance de contar novas narrativas. E, sim, ela está absolutamente certa.
A personagem que prometia ser símbolo de ascensão social, garra e transformação virou, novamente, vítima de um roteiro que a fez retroceder para o mesmo ponto de partida: a praia, os sanduíches e a luta diária pela sobrevivência.
Não há problema algum em uma mulher vender sanduíches, claro. Mas, no caso de Raquel, essa escolha é simbólica: significa dizer ao público que nada mudou, que a trajetória dela é uma curva fechada, sem evolução.
Na entrevista à revista Quem, Taís explica isso de maneira brilhante: a expectativa era que Raquel consolidasse uma narrativa rara na TV brasileira.
Era desejado a ideia de uma mulher negra que não só supera adversidades, mas permanece no topo, com dignidade e protagonismo. Isso seria revolucionário, porque, historicamente, personagens negros na teledramaturgia quase sempre são marcados pela instabilidade, pelo fracasso, pela volta ao ponto inicial.
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A atriz não fala apenas como intérprete; fala como mulher negra e artista consciente do impacto que uma história pode ter no imaginário coletivo. Vale Tudo tinha a oportunidade de escrever uma nova história para milhões de espectadores. E falhou.
Autora de Vale Tudo errou ao mudar texto
O erro dói mais porque não estava no texto original. A curva descendente de Raquel é uma escolha criativa do remake, e uma escolha infeliz. Num momento em que tanto se discute representatividade, ver um retrocesso desses é desanimador.
Taís sonhava (e nós sonhávamos junto com ela) em ver conflitos éticos com Odete Roitman, embates de poder, dilemas morais. Em vez disso, recebemos repetição e uma falsa ideia de realismo que, na prática, só reforça estereótipos.
O desabafo da atriz dialoga com o sentimento de muitos telespectadores: a frustração não é porque Raquel enfrenta dificuldades, mas porque a trama parece incapaz de permitir que uma mulher negra vença e permaneça no topo sem que tudo desmorone. Não se trata de conto de fadas; trata-se de equilíbrio narrativo e da coragem de escrever um novo capítulo para personagens que carregam peso histórico.
Vale Tudo quis atualizar um clássico, mas, nesse ponto, mostrou que ainda está preso a velhas amarras. Taís Araújo, ao expor sua decepção, faz mais do que um desabafo: lança um debate urgente.
A Globo ainda pode corrigir a rota? Talvez. Mas uma coisa é certa: o público não esquece quando uma história falha em entregar a mudança que tanto prometeu.
*Luiz Almeida é jornalista e analista de televisão
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