PESQUISA E INOVAÇÃO
Fungos da Caatinga mostram potencial para biofungicidas resistentes ao calor no semiárido
Descoberta é estratégica diante das mudanças climáticas


Fungos do gênero Trichoderma encontrados em solos da Caatinga, na Bahia e no Piauí, mostraram potencial para o desenvolvimento de biofungicidas mais adaptados às condições do semiárido. Em pesquisa da Embrapa, os microrganismos inibiram fungos e oomicetos que causam doenças em plantas e, em alguns casos, toleraram temperaturas elevadas.
Mesmo com resultados ainda de laboratório, a característica é considerada estratégica diante das mudanças climáticas e ganha peso porque temperaturas mais altas e períodos de seca podem limitar a eficiência dos agentes de controle biológico.
Mecanismos de ação do Trichoderma e o processo de isolamento
O pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Gabriel Moura Mascarin, que atua em Jaguariúna (SP) com microrganismos para o controle biológico de pragas e doenças, explica que o Trichoderma é um fungo versátil e atua por mais de um mecanismo. Ele cresce rapidamente, ocupa o espaço e consome os recursos disponíveis, o que dificulta a instalação do causador da doença, e pode ainda crescer sobre o patógeno e degradá-lo. Os isolados também produzem compostos voláteis capazes de reduzir o crescimento de outros fungos, mesmo sem contato direto entre eles.
Ele conta que a equipe coletou amostras de solo em áreas de vegetação nativa e em áreas cultivadas com melão:
“A partir dessas amostras, isolamos os fungos do gênero Trichoderma e fizemos a identificação inicialmente por características morfológicas e, posteriormente, por análise molecular, utilizando uma região específica do DNA, o gene tef-1a. Foram obtidos 14 isolados pertencentes a cinco espécies de Trichoderma: T. asperellum, T. asperelloides, T. koningiopsis, T. virens e T. spirale.”
A adaptação dos fungos agrícolas ao estresse térmico
“Estamos buscando microrganismos que, além de serem eficientes contra patógenos, sejam também adaptados às condições ambientais nas quais serão utilizados.” Para o pesquisador, o que mais chamou a atenção foi a combinação de qualidades.
De acordo com Gabriel, isolados das áreas de melão, principalmente de T. asperellum, T. asperelloides e T. virens, suportaram melhor as altas temperaturas do que vários isolados de vegetação nativa. Isso sugere, na avaliação dele, que “os próprios ambientes agrícolas da Caatinga podem funcionar como uma fonte de microrganismos que já estão naturalmente adaptados a condições de maior estresse térmico”.
O pesquisador, no entanto, faz uma ressalva importante sobre o alcance do resultado: “Nos nossos ensaios, os isolados apresentaram crescimento até 35°C, mas nenhum deles apresentou crescimento a 40°C”. Ou seja, a tolerância observada é relativa e não significa resistência a qualquer temperatura extrema. Ainda assim, segundo ele, trata-se de uma vantagem potencial para aplicações em regiões quentes.
Gabriel afirma que as características encontradas podem servir de critério para selecionar candidatos a novos biofungicidas, já que alguns isolados reuniram ação contra patógenos, tolerância ao calor e alta produção de conídios por fermentação em substrato sólido, etapa importante para a produção em escala. “A ideia é chegar a produtos biologicamente eficientes e, ao mesmo tempo, mais compatíveis com as condições ambientais do semiárido”, diz. Isso também pode ajudar a reduzir a dependência exclusiva de fungicidas químicos, dentro de estratégias de manejo integrado de doenças.
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Desafios na adoção do controle biológico no campo
O agricultor familiar Áureo, formado em Ciências Biológicas pela Ufba e produtor com foco em agroecologia, teve experiência com pesquisas com fungos ainda na graduação e afirma: “Apesar de comprovadamente eficazes, esses produtos ainda suscitam muitas suspeitas do produtor, principalmente por não terem um tempo de ação imediato, carência de suporte técnico para a utilização, valores mais elevados e condições inadequadas de armazenamento durante o transporte”.
O produtor reforça a necessidade de seguir as orientações do fabricante e destaca que os equipamentos de aplicação precisam ser esterilizados e que “não é prudente misturar esses agentes com produtos químicos”.
Manejo correto e boas práticas na aplicação de biológicos
O engenheiro agrônomo e técnico de campo do Senar Evandro Pitanga, que atua no Piemonte Norte da Bahia, também aponta o manejo inadequado como uma das principais dificuldades do controle biológico nas lavouras:
“Quando o produtor sabe que determinada cultura é suscetível a uma praga, pode adotar medidas de controle biológico antes que o problema se estabeleça na área. Isso ajuda a evitar prejuízos e pode reduzir os custos em comparação com uma intervenção realizada quando a infestação já está instalada. Os resultados, porém, dependem de fatores como o armazenamento adequado, a temperatura durante a aplicação, a dosagem e o acompanhamento técnico. Quando esses cuidados não são respeitados, a eficácia do produto pode ser comprometida.”
Evandro explica que, por serem organismos vivos, alguns produtos precisam de atenção redobrada: “Os produtos à base de fungos e outros microrganismos exigem cuidados específicos, principalmente em relação à temperatura durante a aplicação. Alguns não devem ser utilizados em períodos muito quentes”, observa. Ele acrescenta que o acompanhamento da lavoura nos dias seguintes mostra se houve controle da doença e se é preciso repetir a aplicação.
Próximas etapas do estudo e o futuro da Caatinga
Antes de chegar ao produtor, os isolados mais promissores ainda passarão por experimentos com plantas, casa de vegetação e testes de campo no semiárido, além de avaliações de produção em escala, formulação, estabilidade e armazenamento. Nesses ensaios, será preciso medir também o desempenho sob calor e pouca água.
Gabriel reforça o estágio da pesquisa: “Nosso estudo representa, portanto, uma etapa inicial de bioprospecção e seleção de microrganismos adaptados à Caatinga”. A expectativa é que essa biodiversidade contribua, no futuro, para tecnologias de controle biológico mais adaptadas às condições brasileiras e mais resilientes aos desafios do clima.
*Sob supervisão de Cassandra Bareteló.


