ESTUDO
Estudo aponta riscos e propõe medidas contra mudanças climáticas na Bahia
Diagnóstico recomenda fundo estadual, metas mensuráveis e ações para enfrentar riscos


As mudanças climáticas na Bahia já atravessam diferentes dimensões da vida: da disponibilidade de água no semiárido ao risco de deslizamentos nas cidades, passando pela produção agrícola, conservação dos biomas e geração de energia.
Um diagnóstico elaborado pelo Centro Brasil no Clima (CBC) aponta que o estado necessita de um planejamento de médio e longo prazo com metas mensuráveis e a criação de um Fundo Estadual de Mudanças Climáticas.
O levantamento serviu para a elaboração de cartas de recomendação direcionadas aos candidatos ao governo estadual para a gestão 2027-2030, identificando lacunas e prioridades nas políticas do setor.
O que um Fundo Estadual de Mudanças Climáticas poderia financiar?
Em entrevista ao portal A TARDE, a pesquisadora e gerente do Centro Brasil no Clima, Fernanda Westin, explica que um fundo específico teria duas funções: direcionar investimentos públicos para projetos relacionados à agenda climática e criar condições para atrair recursos privados e internacionais.
Entre as possibilidades citadas pelo CBC estão:
- Adaptação baseada na natureza no semiárido, incluindo restauração da Caatinga e recuperação de microbacias;
- Infraestrutura urbana resiliente, com projetos de macrodrenagem e contenção de encostas;
- Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) voltado a pequenos produtores;
- Programas de transição tecnológica para a indústria baiana.
“Sem um fundo específico, o estado perde a capacidade de alavancar recursos internacionais, como fundos globais de clima, que exigem governança e contrapartida financeira estruturada", diz.
Na avaliação apresentada pela pesquisadora, a dependência do orçamento geral também favorece uma atuação mais reativa diante dos desastres, em vez da realização de investimentos preventivos.
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A Bahia já possui iniciativas de financiamento relacionadas à adaptação climática. O projeto Sertão Vivo, por exemplo, é voltado a pequenos agricultores do semiárido e prevê sistemas produtivos resilientes e cisternas, com financiamento que inclui recursos do Fundo Verde para o Clima.
Mudanças climáticas na Bahia: riscos e impactos nos biomas
Para reduzir a vulnerabilidade do estado aos eventos extremos e garantir o abastecimento, as diretrizes do estudo indicam:
- Ampliar a segurança hídrica no semiárido;
- Mapear integralmente as áreas de risco geológico e de inundação;
- Expandir a rede de saneamento básico;
- Priorizar o uso de infraestrutura verde em obras de drenagem e contenção de encostas.
A distribuição dos impactos climáticos também varia conforme os diferentes territórios e biomas da Bahia.
Semiárido (Caatinga): a elevação das temperaturas e a irregularidade das chuvas podem acelerar a degradação dos solos, a desertificação e a escassez hídrica, com consequências para a agricultura familiar e a segurança alimentar.
Cidades e zonas costeiras (Mata Atlântica e áreas urbanas): o aumento de eventos extremos de precipitação amplia os riscos de deslizamentos em áreas de encosta e de alagamentos em cidades como Salvador, Feira de Santana e municípios da região metropolitana. Na faixa costeira, a elevação do nível do mar e a ocorrência de ressacas também pressionam a infraestrutura e o turismo.
Cerrado (Oeste baiano): alterações no regime de chuvas e ondas de calor podem pressionar a disponibilidade hídrica utilizada pela produção agrícola, aumentando a vulnerabilidade de uma das principais regiões produtoras do estado.
Quais medidas para o semiárido precisam sair do papel?
Um dos pontos de maior atenção está no semiárido baiano. O CBC recomenda ampliar estruturas de convivência com a seca e fortalecer políticas voltadas à prevenção e ao combate da desertificação.
Entre as medidas consideradas urgentes pela organização estão:
- expansão de tecnologias sociais de captação de água da chuva;
- utilização de reúso de águas cinzas;
- implantação de dessalinizadores solares;
- implementação do Plano Estadual de Combate à Desertificação;
- restauração ecológica da Caatinga;
- manejo sustentável do solo;
- assistência técnica agrícola voltada à agroecologia e às agroflorestas adaptadas à seca.
Para Fernanda Westin, os efeitos da falta de adaptação podem ultrapassar a questão ambiental e atingir diretamente a economia e os serviços públicos.
“O avanço da desertificação levará à perda irreparável de terras agricultáveis, ao esvaziamento econômico de municípios do interior, à migração forçada (rural-urbana) e ao colapso do abastecimento de água em dezenas de cidades, elevando exponencialmente os custos com assistência social e saúde pública", ressalta.

Energia limpa precisa gerar indústria e empregos
A análise do CBC orienta a consolidação da Bahia como polo de hidrogênio verde e de cadeias industriais de baixo carbono, utilizando a geração eólica e solar para promover a reindustrialização do Polo Industrial de Camaçari e dos complexos de Aratu e Salvador.
O relatório indica também o engajamento no Fórum de Powershoring - articulado pelo Consórcio Nordeste, Banco do Brasil e Instituto Clima e Sociedade -, que busca mobilizar R$ 77 bilhões em investimentos regionais entre 2027 e 2030.
Para evitar que os projetos fiquem restritos à instalação de empreendimentos sem retenção de valor local, Westin defendeu uma estratégia de conteúdo regional.
“Condicionar incentivos fiscais e licenças à instalação de fabricantes de componentes , pás eólicas, inversores, placas solares, eletrolisadores, no território baiano”, destaca.
A transformação do modelo industrial abrange pontos centrais:
- Substituição de combustíveis fósseis por eletricidade renovável e hidrogênio verde nas indústrias químicas, petroquímicas e metalúrgicas;
- Adoção de diretrizes de economia circular e simbiose industrial para o reaproveitamento de resíduos;
- Concessão de incentivos fiscais estaduais atrelados a metas de redução de emissões e eficiência energética.
- Nas diretrizes de conservação, o documento propõe ações de proteção, restauração e reflorestamento da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga.
Metas prioritárias para 2027-2030
Para transformar essas recomendações em compromissos que possam ser acompanhados pela população, o CBC propõe três metas centrais para o período de 2027 a 2030:
Institucionalização e Financiamento Climático: operacionalização do Fundo Estadual de Mudanças Climáticas e inclusão da pauta no Plano Plurianual (PPA), monitorada pelo percentual do orçamento executado em ações diretas de mitigação e adaptação.
Segurança Hídrica e Restauração no Semiárido: recuperação de áreas degradadas em processo de desertificação, acompanhada pelos hectares de Caatinga restaurados e famílias atendidas por sistemas sustentáveis.
Resiliência Urbana e Redução de Riscos: diminuição da vulnerabilidade em encostas e periferias, medida pela quantidade de municípios com planos de adaptação concluídos e pelo percentual de obras de contenção e drenagem executadas em locais mapeados pelo Cemaden e Inema.
Preservação dos três biomas
O tema também está presente na agenda ambiental atual do estado. Em setembro de 2026, a Secretaria do Meio Ambiente participou de uma oficina para a construção do Atlas das Áreas Suscetíveis à Desertificação, iniciativa voltada a reunir dados e evidências socioambientais sobre esses territórios.
No Cerrado, dados divulgados pela própria Sema apontaram que a Bahia registrou, entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área sob alertas de desmatamento desde o início da série histórica do Deter, em 2017/2018. Os alertas, no entanto, indicam possíveis alterações na cobertura vegetal e não representam, isoladamente, a confirmação de uma infração.
A recomendação é que o enfrentamento das mudanças climáticas na Bahia seja incorporado ao planejamento de diferentes áreas do Estado, com recursos definidos, metas mensuráveis e indicadores capazes de mostrar à população o que foi efetivamente executado entre 2027 e 2030.


