ARTIGOS
A cidade onde as pessoas montam barracas para pedir uma casa
Lisboa vive um paradoxo: enquanto turistas enchem suas praças


Falando ao vivo de Lisboa que está cada vez mais linda. O Tejo segue seu caminho, os elétricos sobem as ladeiras, os turistas fotografam fachadas (inclusive eu) e os cafés permanecem cheios. Mas existe uma outra cidade, escondida atrás dos cartões-postais: aquela onde trabalhar já não significa conseguir pagar um lugar para morar.
Estou em Portugal, vindo de passagem para Barcelona, mas terminei me envolvendo com as manifestações do Movimento dos Acampados, caindo bem no meio de ação violenta da polícia que foi retirar as barracas na praça Dom Pedro IV (nosso Dom Pedro II) ou Praça do Rossio. Falou o senso jornalístico.
Em Portugal, a habitação tornou-se um luxo para muitos. Os aluguéis consomem salários inteiros, e imagine que com um salário mínimo de 900 euros os aluguéis vão de 800 a 2.400 euros em apartamentos padrão mediano.
Os jovens adiam seus planos de independência, famílias deixam os bairros onde construíram suas histórias e trabalhadores são empurrados para cada vez mais longe dos centros urbanos.
É nesse cenário que as tendas aparecem nas praças. No Rossio, em Lisboa, ou na Praça D. João I, no Porto, pessoas decidiram transformar o espaço público em lugar de resistência. Se não conseguem pagar uma casa, ocupam uma praça. Se não encontram quem as escute, fazem da rua a própria voz.
Há algo de profundamente simbólico nessa imagem: pessoas montando barracas para reivindicar o direito de ter uma casa. Os acampamentos tornaram-se espaços de convivência, assembleias populares, música, outras artes e reivindicação.
Entre as principais exigências estão o fim dos despejos sem alternativa habitacional, o controle da especulação imobiliária, a ampliação da habitação pública e aluguéis verdadeiramente acessíveis.
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Mas a resposta também veio em forma de repressão. As intervenções policiais para retirar as tendas provocaram confrontos, denúncias de violência e dezenas de feridos. Jornalistas portugueses apanharam, e ao contrário do que ocorre no Brasil, eles não estão acostumados com isso. A discussão sobre a crise habitacional ganhou, assim, outra dimensão: até onde vai o direito de manifestação e onde começa a responsabilidade do Estado de proteger quem reivindica direitos?
Uma decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, ao considerar que o limite de horário das manifestações não pode ser aplicado de forma automática, representou uma vitória para os acampados. E a mobilização chegou à Presidência da República: a Acampada de Lisboa aprovou aceitar o convite para uma reunião com António José Seguro.
Enquanto isso, no Rossio, entre uma assembleia e outra, houve até karaokê. Cantaram-se músicas de resistência, como Trova do Vento que Passa e A Cantiga é uma Arma. Porque também se luta cantando. Também se resiste quando pessoas que pouco têm compartilham o pouco que possuem.
Talvez esteja aí a maior contradição do nosso tempo: cidades que enriquecem, imóveis que se valorizam, investimentos que se multiplicam, mas pessoas que já não conseguem encontrar um teto compatível com o próprio salário.
O português se queixa da falta de moradia, mas existem quase 2 milhões de casas ou apartamentos fechados, esperando apenas a valorização, vez que brasileiros ricos, indianos, árabes e outros riquíssimos elevam a demanda. A cidade virou um bom negócio. Mas uma cidade precisa ser um lugar onde as pessoas possam viver, envelhecer e construir suas histórias.
Já uma tenda não é uma casa. É frágil diante do frio, da chuva e da insegurança. Ninguém deveria precisar dormir numa praça para lembrar aos governos desse planeta Terra que morar é uma necessidade humana, não um privilégio reservado a quem pode pagar. E talvez a pergunta mais importante que Portugal precise responder esteja justamente ali, entre as barracas do Rossio:
De que vale construir cidades cada vez mais bonitas e valorizadas se aqueles que lhes dão vida já não conseguem morar nelas? Porque uma cidade sem lugar para seus habitantes pode até continuar bonita aos olhos dos turistas. Mas, aos poucos, deixa de ser uma casa para se transformar apenas em cenário.
Enquanto isso o pau come solto nas praças, no emblemático Rossio, de nosso Pedro II, que por sinal teve preocupação e criou projetos para ampliar número de moradias para os trabalhadores por causa do crescimento urbano e do aumento de habitações precárias e insalubres a exemplo dos cortiços nos grandes centros.
Jolivaldo Freitas é Escritor. Romancista. Autor do best seller “Histórias da Bahia – Jeito Baiano” e “Baianidades, dentre outros.


