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Eu e as golpistas

País gasta energia combatendo golpes digitais diários, mas ignora a fragilidade do FGC

Jolivaldo Freitas*
Por Jolivaldo Freitas*
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista - Foto: Divulgação | Arquivo Pessoal

São muitos e vários os tipos de golpe que a gente já sabe reconhecer de longe. Chega por WhatsApp, se apresentando como funcionário do banco, pede o código que “acabou de chegar por SMS”, finge ser central de atendimento, finge ser promoção irrecusável ou cobra com ameaças dívidas de bem antes do mundo ser criado, do Big Bang.

A gente aprendeu, até com facilidade, a achar estranho quem liga oferecendo dinheiro fácil e nem a Santa Dulce dos Pobres faria isso. E tem quem peça na cara de pau dados sigilosos. O Brasil vive de fato uma epidemia disso: só no primeiro semestre deste ano, mais de 50 milhões de mensagens de golpe foram identificadas no país — uma média de três por segundo, segundo a Serasa Experian.

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Quase quatro em cada dez brasileiros já foram vítimas de algum tipo de fraude financeira, segundo a Febraban. Números de dar vertigem, de fazer qualquer pessoa checar duas vezes antes de clicar em qualquer link.

Eu estava num dia de vagabundagem e nem lavar o gafo, a faca, o prato e a xícara eu queria quando ligou uma senhora dizendo que eu devia dezenas de reais de dívida antiga com empresa de telefonia. Então decido dar corda somente para pirraçar e um pouco de vingança.

No tempo da operadora linha telefônico só rico podia comprar. Deixei-a falar durante hora e meia, me explicando a cobrança, a empresa, como pagar por conta, cartão ou Pix. No final agradeci e disse que estava falando com a pessoa errada por que ela insistia em me chamar de senhor Maurício. A mulher a partir daí passou a me ameaçar, me xingar e gritar e eu somente disse: “Acalme-se e vá achar outro otário’.

De outra vez era uma voz de criança dizendo: “Papai, papai, os homens me sequestraram!”. Dei corda pois não tenho filho pequeno e nem netos e fui levando a conversa longamente, até marcar com a bandidona que atuava ameaçando matar a “criança” um encontro para entregar 50 mil dólares na antiga rodoviária de Salvador, Bahia. Deixei esperando e bloqueei o telefone.

Mas há um outro tipo de golpe — mais lento, mais educado, de terno e gravata — que a gente ainda não aprendeu direito a temer. E esse não vem de fora do sistema financeiro. Vem de dentro dele.

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Em novembro do ano passado, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento e do Letsbank. Depois vieram outras: a Reag, então a maior gestora independente do país, com mais de R$ 340 bilhões sob administração; o Will Bank, com seus nove milhões de clientes; o Banco Pleno.

Em poucos meses, dez instituições ligadas direta ou indiretamente ao mesmo conglomerado foram liquidadas, um rombo que já soma mais de R$ 51 bilhões só no que o Fundo Garantidor de Créditos teve de bancar. O FGC, que tinha R$ 114 bilhões guardados, viu esse colchão encolher 41% em poucos meses — e os bancos associados tiveram de fazer um aporte extra de R$ 44 bilhões só para recompor o fundo.

E é aqui que a crônica muda de tom, porque o consumidor comum costuma pensar que está protegido. Está — até um certo ponto, e nem sempre. O FGC garante até R$ 250 mil por CPF, por conglomerado financeiro, e com um teto adicional de R$ 1 milhão a cada quatro anos somando todas as garantias recebidas. Quem tinha um CDB de R$ 40 mil dorme relativamente tranquilo.

Quem tinha R$ 800 mil aplicados, confiando na taxa gorda que o banco oferecia, perdeu — sem direito a recurso, sem seguro, sem devolução do que passou do teto. E quem investiu em fundo, então, não tem sequer essa garantia parcial: fundo de investimento não é depósito bancário, não entra na cobertura do FGC.

O investidor de fundo é, tecnicamente, dono de uma cota de um condomínio de recursos — e se o condomínio for mal administrado, ou pior, usado para fraude, a perda é dele, sozinho.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com os cerca de três mil investidores da fintech Naskar Gestão de Ativos, que somem do mapa levando consigo R$ 900 milhões. Foi o que já tinha acontecido, em escala menor, com cotistas de fundos que confiaram em papéis da Americanas antes do rombo contábil de R$ 20 bilhões vir à tona.

O gestor, nesses casos, muitas vezes também perde — mas quem perde de verdade, quem vê o dinheiro suado de anos de trabalho evaporar, é sempre o mesmo: o pequeno investidor, pessoa física, sem estrutura jurídica para correr atrás, sem departamento de compliance, sem a menor ideia de como funciona uma liquidação extrajudicial.

E note-se a assimetria: nenhum banco, nenhuma gestora, oferece ao cliente pessoa física uma espécie de seguro contra a possibilidade de que o próprio investimento — não o mercado, não a bolsa, mas a instituição em si — dê errado.

Existem seguros para quase tudo nesse país: seguro de carro, de celular, de viagem, até seguro de cancelamento de festa de casamento. Mas não existe, à disposição do investidor comum, um seguro que cubra o risco de que o banco ou a gestora onde ele confiou seu dinheiro simplesmente quebre por fraude, por má gestão, ou pelos dois motivos ao mesmo tempo. O que existe é o FGC. E basta.

Não temos saída. A diferença é que um golpe pela internet tem, ao menos, o consolo de ser ilegal desde o primeiro segundo — e crescentemente perseguido, com delegacias especializadas, prazos de devolução via Pix, aplicativos de denúncia. Já a perda que vem de dentro do próprio sistema financeiro regulado tem contrato assinado, tem termo de adesão, tem letra pequena que ninguém leu — e por isso mesmo é mais difícil de reverter, mais difícil até de nomear como injustiça. Só um dos dois, até hoje, tem sido chamado pelo nome certo.

*Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. Autor de “Cemitério de Cães Noturnos” e outras obras.

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