ARTIGOS
É preciso escutar o que a sociedade está dizendo
Confira o artigo de Danilo Uzêda


Quando publicamos, em 2022, O Delicado Regresso: as esquerdas, Lula e o PT no retorno ao jogo político, uma das críticas dirigidas ao livro foi que seu autor não conseguia captar os ventos da transformação.
Segundo essa leitura, o retorno das esquerdas ao governo representava a superação da extrema direita no Brasil e na América Latina. Quatro anos depois, infelizmente, o cenário aponta em outra direção.
A derrota eleitoral de um projeto autoritário não significou o desmonte de suas bases sociais, econômicas e institucionais. Confundimos a conquista do governo com uma mudança mais profunda nas relações de poder e nos valores que atravessam a sociedade.
Amanhecemos diante de um Congresso ainda mais conservador, no qual a instrumentalização política da religião se combina com discursos de intolerância e práticas de constrangimento ao Executivo. Ao longo do mandato, a pressão parlamentar sobre o governo Lula converteu a negociação em um mecanismo permanente de extração de recursos, cargos e poder.
Leia Também:
Enquanto isso, a disputa pública continuou alimentada por desinformação, chacotas e provocações que rebaixam o debate e transformam até questões elementares de saúde em instrumentos de mobilização política. Esse cenário não surgiu de repente: seus sinais estavam presentes desde o início.
Também era previsível que a extrema direita permanecesse competitiva. Desde a tentativa de golpe de Estado, ela continuou mobilizando suas bases, preservando lideranças e formando novos quadros.
Mudaram alguns personagens, mas permaneceu o mesmo modus operandi, antipetismo, antilulismo, desqualificação das instituições públicas e hostilidade às políticas de redistribuição. A retórica contra o Estado, contudo, convive com a disputa intensa por seus recursos e com a defesa dos interesses que dificultam a tributação dos mais ricos.
O resultado do primeiro turno expõe a força dessa articulação: Flávio Bolsonaro obteve mais de dois milhões de votos de vantagem sobre Lula. É um resultado que exige explicação, sobretudo de quem apostou no esgotamento político do bolsonarismo.
A questão, porém, não se encerra na capacidade de mentir ou manipular. Parte expressiva dessa agenda foi apresentada abertamente durante as campanhas.
O autoritarismo, a criminalização dos adversários e a promessa de enfrentar problemas sociais pela força não estiveram sempre escondidos. Encontraram adesão. Reduzir essa escolha à desinformação impede compreender por que tantas pessoas reconhecem nessas propostas uma resposta para suas inseguranças, seus ressentimentos e suas expectativas.
Há uma disposição social que aceita a restrição de direitos em nome da ordem e relativiza a violência quando ela parece dirigida contra aqueles que considera ameaçadores. É nesse terreno que projetos de contornos fascistas ampliam sua legitimidade.
Setores das esquerdas agiram como se o conservadorismo pudesse ser administrado por acordos de cúpula. A distribuição de cargos, a negociação parlamentar e as alianças com governadores produziram acomodações institucionais, mas não asseguraram uma transformação das convicções sociais.
A atuação do Supremo Tribunal Federal na contenção de iniciativas golpistas tampouco poderia substituir o trabalho político de organização, diálogo e convencimento. Defender as instituições foi necessário; supor que essa defesa resolveria a disputa pela sociedade foi um erro. A distância entre as negociações em Brasília e a experiência cotidiana da população continuou crescendo.
Os questionamentos sobre as relações entre poder político e interesses financeiros, entre eles os que envolvem Vorcaro, tornam ainda mais necessário enfrentar a opacidade dessas aproximações.
Quando a circulação entre dinheiro, influência e acesso privilegiado atravessa diferentes campos políticos, a crítica perde credibilidade se escolhe seus alvos apenas pela conveniência partidária. Uma esquerda comprometida com a transformação social precisa examinar também suas alianças, seus silêncios e as concessões que apresenta como inevitáveis. Sem isso, o discurso de enfrentamento dos privilégios se fragiliza justamente entre aqueles que não participam dos benefícios dessas relações.
O governo Lula também sofreu com o desgaste de suas próprias formas de atuação. Acomodou-se, em parte, às estruturas conhecidas e demorou a reconhecer que precisava voltar a disputar a sociedade — se é que reconheceu plenamente essa necessidade. Repetiu instrumentos de políticas públicas sem avaliar suficientemente quanto haviam mudado o trabalho, a comunicação, as expectativas e a experiência da insegurança.
Ao mesmo tempo, tardou a enfrentar grupos poderosos no Congresso e nos estados. A coalizão assegurou condições parciais de governabilidade, mas cobrou um preço elevado e não se traduziu, na mesma medida, em confiança social.
Reconhecer esses limites não diminui a importância das melhorias promovidas por Lula nem do esforço de reconstrução de um Estado profundamente atingido pelo governo anterior. Permite, entretanto, compreender por que essas realizações não bastaram para consolidar uma maioria política.
Em Democracias realmente existentes, livro ainda no prelo, desenvolvo um argumento complementar: a defesa da democracia exige reconstruir os vínculos entre instituições, vida cotidiana e capacidade de decisão.
Reconquistar o diálogo com a sociedade envolve explicar o que se fez, o que se pretende fazer e quais interesses cada escolha atende. Exige também admitir o contraditório, reconhecer insuficiências e ouvir experiências que não cabem nas categorias com as quais nos acostumamos a interpretar o país.
A comunicação de um governo perde força quando anuncia conquistas sem compreender como elas são vividas, percebidas ou frustradas por quem deveria se beneficiar delas.
A disputa permanece aberta, mas esse resultado precisa ser lido com atenção. A sociedade não fala com uma única voz, e o voto não revela, sozinho, todas as razões de uma escolha. Ainda assim, seria um erro responder ao avanço autoritário apenas com a denúncia da mentira ou com a condenação moral dos eleitores.
Há demandas por segurança, pertencimento, reconhecimento e perspectivas de futuro sendo capturadas pela extrema direita. Compreendê-las exige investigar por que a promessa autoritária parece convincente e por que as alternativas democráticas deixaram de parecer suficientes.
Se parcelas da população aceitam projetos associados à violência miliciana, precisamos compreender o que esses poderes oferecem, prometem ou impõem em territórios onde direitos e serviços públicos chegam de forma precária.
A adesão pode envolver medo, dependência, proteção seletiva, interesses materiais ou identificação política; essas relações precisam ser examinadas em suas diferenças.
Denunciar a milícia continua sendo indispensável, mas a denúncia precisa vir acompanhada de uma presença pública capaz de enfrentar as condições que sustentam seu poder. Escutar o que a sociedade está dizendo implica aceitar que algumas respostas serão incômodas e que parte delas colocará em questão nossas próprias escolhas.
É desse trabalho que pode nascer uma capacidade renovada de disputar o país. E a esperança permanece, como o sol que nos habita.


