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'Equilibrivm' em Salvador: Anitta une grandiosidade e intimismo em maior projeto da carreira

Confira análise sobre projeto mais recente da artista pop carioca

Brenda Lua Ferreira
Por
| Atualizada em
Anitta apresentou o show da turnê 'Equilibrivm'
Anitta apresentou o show da turnê 'Equilibrivm' - Foto: Divulgação

O vento que sopra da orla da Boca do Rio encontrou o ritmo pulsante de uma banda que já dava indícios de que iria apresentar um espetáculo sonoro, no Centro de Convenções de Salvador no último sábado, 29. Diante de uma maré humana, a cantora Anitta apresentou o show da turnê 'Equilibrivm', transformando a capital baiana no palco de um ritual visual, onde o pop moderno reverenciou as raízes profundas da ancestralidade africana.

Dividido em quatro atos temáticos e um bloco extra, o espetáculo foi desenhado como uma jornada sensorial de reconexão. O ato I abriu a noite com a introdução "Ouro" e músicas de contemplação e devoção, como "É D'Oxum", "Ogum Me Rodeia", "Deus Mãe" e o clássico "Andar com Fé", evocando a força dos elementos naturais e estabelecendo o tom guiado pela fé com faixas como "Nanã" e "Não Me Cutuca". Além de "Caminhador", gravada com Liniker, que surpreendeu o público fazendo uma participação ao vivo e muito bem vinda pelos "Anitters".

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Liniker na sua participação surpresa
Liniker na sua participação surpresa - Foto: Reprodução | Instagram oficial Equilibrivm

No início, já se via uma Anitta completamente diferente do que se tá acostumado. A escolha de músicas mais lentas, que falam de fé e tranquilidade espiritual, as roupas leves, brancas e de crochê, evocou o sentido claro de uma artista que quer apresentar tudo diferente do que já se viu um dia. Deu até aquela sensação de que o público está no afã do 'agito' e se depara com um show que começa em remadas lentas e ela puxando todo o mar de gente, para ondas mais calmas e equilibradas.

Em verdade, a experiência já começa com espaços dedicados ao bem-estar do público, com áreas de autocuidado integradas ao ambiente do festival, promovidas pela Natura. Além disso, toda bebida alcoólica passou a ser vendida a partir das 16h30, após as atividades de relaxamento e 1h30 antes do show.

A conexão profunda com a cultura baiana foi fundamental para a concepção do trabalho. Sobre essa relação com o estado e as influências culturais no projeto, Anitta destacou: “As religiões de matriz africana fazem parte da história da Bahia como um todo. Então, acho que isso faz com que estejam muito presentes as referências baianas no meu álbum".

Apresentação da música "Contemplação", com o grupo Ofá, de Salvador
Apresentação da música "Contemplação", com o grupo Ofá, de Salvador - Foto: Reprodução | Instagram oficial Equilibrivm

Isso fica claro também quando os ritmos afrodiaspóricos da faixa ''Contemplação'', música em colaboração com o Grupo Ofá, originário de Salvador, são incluídos no set list e no álbum.

Desde a primeira vez que eu vim aqui, como eu sempre digo, eu me senti muito daqui. Embora eu não seja, eu acho que tem uma similaridade muito parecida com o Rio de Janeiro", declarou a cantora em entrevista coletiva antes do show.

A transição para o ato II trouxe a energia vital do fogo e da dança urbana, embalada por canções como "Mandinga", "Feitiço", "Respira", "Abre Caminho" e a releitura de "Presente de um Beija-Flor", preparando o terreno para a o que eu vou chamar de apoteose cultural do evento.

Vale lembrar que Anitta escolheu Salvador como a última capital para fechar a turnê e, ainda em entrevista, a artista expressou plena satisfação com os resultados alcançados nesta fase da carreira: “Foi muito mais do que eu esperava. Eu esperava que fosse um álbum que tocasse as pessoas, sim, e que transformasse, ajudasse as pessoas de alguma maneira, mas não imaginava que seria tão forte".

Isso foi fácil de observar ao olhar rapidamente para o lado e ver um público engajado em letras decoradas em tão pouco tempo, emoção e representatividade, seja no visual, no espiritual, no sonoro e / ou no conjunto completo da obra, que provocou aquela sensação de euforia e felicidade, bem parecida como se estivéssemos nos apaixonando pela primeira vez, sabe?

E, novamente: ela conseguiu: “Então, eu estou realizadíssima. Eu estou num momento mais feliz da minha vida. Nunca pensei que chegaria nisso, estou realizada em todas as áreas da minha vida. Eu estou assim, só gratidão porque, de fato, tudo deu 100% certo. Ou, mais, 200% certo", concluiu Anitta.

Imagem ilustrativa da imagem 'Equilibrivm' em Salvador: Anitta une grandiosidade e intimismo em maior projeto da carreira
Foto: Reprodução | Instagram oficial Equilibrivm

Um dos momentos mais marcantes, talvez, tenha acontecido no ato III, quando a artista se aproximou de um momento mais quente e gerando ainda mais expectativas para aquele momento de pular, extravasar e gritar. Além disso, dedicou o rápido intervalo — que trouxe o look já vermelho, voltado para a ideia de esquentar o clima —, à celebração da capoeira e das religiões de matriz africana.

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Ao som das faixas "Cravo e Canela", "Divino Sexual" e "Pra Você Gostar de Mim", berimbaus se entrelaçaram a batidas eletrônicas enquanto dançarinos executavam movimentos de rasteiras, esquivas e meias-luas no palco. Iluminada por feixes de luz branca e prateada, a apresentação prestou um tributo à resistência, à memória e à identidade afro-brasileira que pulsam na alma de Salvador.

A reta final do show seguiu surpreendendo, com tantas mudanças, que fizeram até a gente esquecer aquela imagem clean, o crochê branco, a voz macia e calma. No Ato IV com ritmos festivos e marcantes como "Sal Grosso", "Vai Dar Caô", "Meia Noite" e "Oke", "Anira", já aparecia com uma vibe completamente diferente, vestida com um macacão preto, descalça, fazendo sua referência às forças da mata, com os caboclos, e aos Exus.

Gostinho de "quero mais"

Ok, vamos combinar que pensar em um espetáculo de duas horas, com cenário, figurino, coreografia, ritmos diferentes, dançarinos, banda, etc, é difícil de manter, com a produção que prezou pela qualidade do início ao fim do evento, da entrada com as questões de segurança, pontos de hidratação, equipes de suporte, bombeiros e toda a estrutura que você imaginar, pra não precisar se preocupar com absolutamente nada, no entanto, Salvador de um modo geral, está tão carente de uma experiência com uma qualidade mínima, que sim, um evento desse porte, de 14h às 21h não foi suficiente. O público sentiu a necessidade de mais tempo, quiçá até de mais dias, ficando claro quando o DJ entrou pós show e o espaço ainda estava lotado.

Por isso, Anitta comentou sobre a longevidade da turnê e como enxerga a recepção do público frente à velocidade da indústria musical atual: “Essa sensualidade que eu amo nunca vai deixar de ter. Mas existia esse outro lado, que é o que hoje vocês veem no 'Equilibrivm', que eu não tinha cantado ainda para ninguém, e agora a gente tem".

"Eu fico bem feliz com esse projeto e acho que ele ainda tem muito que durar. Eu acho que essa coisa de como as pessoas consomem música hoje em dia, de consumir hoje e mês que vem já não lembrar… eu acho que o 'Equilibrivm' não é isso", atesta.

O "bloco extra", trouxe sim, o gostinho a mais da Anitta que lembramos, com a celebração de sucessos como "Lugar Perfeito", "Modo Turbo", "Favela Chegou" e "Joga Pra Lua", selando a comunhão entre a cantora e a plateia.

Continuidade do 'Equilibrivm'

“Eu acho que, ano que vem, ainda dá para fazer mais shows do 'Equilibrivm', ainda dá para as pessoas continuarem ouvindo essas músicas, que eu acho que têm um poder de cura, de transformação".

Apesar da forte mensagem espiritual presente na turnê, a cantora rejeita qualquer tipo de idealização por parte do público e reforça sua condição humana:

“Eu não gosto de me colocar nesse lugar de instrumento porque as pessoas confundem muito com o 'guru' e ficam tendo uma expectativa de que você vire um santo que não comete erros. Então, esse lugar de responsabilidade que você está despertando as pessoas, eu não quero esse lugar. Eu fiz um trabalho que representa o que é o meu caminhar e acho que isso pode servir para as pessoas que também estão nesse caminho", finalizou.

* Colaborou: Beatriz Santos.

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